Diário do Alentejo

“Quando toco o acordeão estou a abraçar o público”

12 de setembro 2019 - 10:00

Texto José Serrano

 

Professora de Música, no Agrupamento de Escolas de Vila Nova de Santo André (Santiago do Cacém), toca acordeão desde os 14 anos de idade, tendo tido como professores alguns dos acordeonistas portugueses mais relevantes, como Ilda Maria, Joaquim Raposo e Helena Ramos. Com mais de 20 cassetes e CD editados no mercado discográfico, participa atualmente nos projetos “Tanto Mar” e “O Acordeão Fadista” em que o acordeão acompanha a guitarra portuguesa. A sua tese de Mestrado em Ciências Musicais – Etnomusicologia aborda o papel musical, social e económico do baile popular no Baixo Alentejo.

 

Carla Nunes ficou em 12.º lugar na votação, promovida pela revista norte-americana Accordion Stars Illustrated, da editora Times Square New York, para os 100 acordeonistas mais populares e mais adorados pelo público em 2019, a nível mundial. A eleição, de um primeiro universo de sete milhões de acordeonistas, foi decidida através de votação do público e dos próprios acordeonistas a concurso, tendo sido o resultado da votação anunciado no passado dia 15.

 

Qual o significado desta distinção?
É um concurso internacional de popularidade e este resultado significa que tenho colegas e público, em vários países do mundo, que apreciam a minha música e que simpatizam comigo. Isso é positivo, pois um dos principais objetivos de um músico é “tocar” o público através do seu trabalho.

 

Para chegar a este resultado presumo que tenha de existir entre si e o acordeão uma antiga e duradoura paixão…
É uma paixão para toda a vida, uma ligação extremamente forte. Mais ainda porque o acordeão é um instrumento que eu abraço quando toco e ao abraçá-lo estou também a abraçar o público, a despertar-lhe emoções e a contribuir para o enriquecimento das relações humanas.

 

Qual a importância do acordeão na música contemporânea, a nível mundial?
Estima-se que existam sete milhões de acordeonistas espalhados pelo mundo e mais de 200 mil sites. Quando falamos em acordeão, estamos a falar de uma grande família: o cromático, o diatónico (concertina), o bandoneão, que aparece nos tangos argentinos. Em qualquer um dos casos é um instrumento musical com características que o tornam muito desejado: é portátil, permite tocar melodia e acompanhamento, tem um volume sonoro considerável, vários registos tímbricos e um fole que permite dar expressividade à música.

 

Que relação têm os portugueses com este instrumento? Continua sobretudo ligado às festas populares, à ideia de uma alegria informal, ou circula já por salões mais eruditos?
O acordeão, um instrumento extremamente rico e versátil, é ensinado nos conservatórios portugueses desde os anos 90, tendo a licenciatura em acordeão surgido um pouco mais tarde. Atualmente, a indústria musical, fonográfica e de espetáculo, aposta e divulga muito mais o acordeão enquanto ligado à música tradicional, sobretudo inserido em grupos, e não como instrumento solista. Na sua vertente mais erudita tem um público bastante restrito.

 

Como está a correr o projeto musical “O Acordeão Fadista”, que alia este instrumento ao fado?
“O Acordeão Fadista” está a beneficiar de grande aceitação por parte do público. Os músicos que constituem a base deste projeto, e com os quais toco, são extremamente criativos, com longas carreiras e muitas provas dadas. Tenho, com eles, uma visão coincidente do que queremos que seja esta aventura. O público tem-se revelado sensível a esta versão instrumental do fado e partilhamos a emoção de sentir a nossa imaginação viajar dentro de algo que é tão nosso.

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