Diário do Alentejo

Mercedes Guerreiro: Uma homenagem aos mineiros

01 de julho 2019 - 08:50

Texto José Serrano

 

Licenciou-se em Jornalismo pela Universidade Livre de Bruxelas. Foi cofundadora da Rádio Tentativa, primeira rádio portuguesa na Bélgica. Regressou a Portugal onde trabalhou como jornalista e tradutora. Criou os gabinetes de comunicação da AMI –Assistência Médica Internacional e da Câmara Municipal de Aljustrel, onde trabalha atualmente. Coautora de vários livros é membro da Assesta – Associação dos Escritores do Alentejo.

 

Foi apresentado na quarta-feira, 19, o livro O Triunfo dos Valentes – Luta e Resistência Numa Vila Mineira do Século XX, uma obra da autoria de Mercedes Guerreiro inspirada em factos reais, cuja ação se desenrola em plena ditadura do Estado Novo.

 

Qual o significado da escolha do local de apresentação desta sua obra, na Central de Compressores, junto ao Parque Mineiro? 

Este romance acompanha a vida de uma família, entre os anos 50 e 70 do séc. XX, numa altura em que as lutas dos mineiros de Aljustrel eram um exemplo de resistência ao regime ditatorial. Este livro é a minha homenagem a esses mineiros e aos homens e mulheres, geralmente esquecidos nos livros de História, mas que também eles contribuíram para mudar a história do País. A escolha do local revestiu-se de particular simbolismo por ter decorrido na Central de Compressores, agora convertida em núcleo museológico, situada junto ao bairro mineiro de Vale d’Oca, lugar emblemático de muitas lutas e resistência.

 

Sendo este um romance baseado na realidade, onde se documentou para a sua elaboração?
Grande parte da narrativa resulta de pesquisa bibliográfica, de arquivos da PIDE e da recolha de testemunhos em diversas fontes, mas, principalmente, do meu encontro com algumas das personagens, que aparecem com nomes fictícios, e que me contaram muitos dos episódios aqui relatados, e também por eu ter presenciado algumas das situações descritas. Juntei, numa só, as histórias destas pessoas, que viveram o drama do fascismo – tendo algumas sido perseguidas, presas e torturadas pela PIDE –, da guerra colonial e da emigração, até à libertação do País com a Revolução dos Cravos.

 

Os exemplos de resiliência e resistência à opressão que esta estória contém podem ser hoje ainda inspiradores para “lutas” atuais? 

O livro chama-se O Triunfo dos Valentes. Dos valentes mineiros e de todos os portugueses que lutaram por causas justas e que, apesar da repressão e das perseguições da PIDE, não se curvaram e acabaram por triunfar. Escrevi este romance para recordar que décadas de luta e resistência e de direitos heroicamente conquistados – que hoje muitos gostariam que fossem esquecidos – podem ser destruídos com uma simples assinatura, como aconteceu durante a recente crise financeira, quando cortaram nos salários e nas reformas e facilitaram os despedimentos, o que obrigou milhares de portugueses a emigrar à procura de melhores condições de vida. Vivemos novamente tempos conturbados. O populismo está a crescer. Os partidos de extrema-direita estão a ganhar terreno, como é o caso do partido VOX, aqui mesmo ao lado, na vizinha Andaluzia. É preocupante. Por isso, sim, os exemplos deste livro poderiam servir de inspiração para as lutas de hoje, pois, para saber para onde e como vamos, temos de saber de onde e como viemos.

 

O que mais gostaria que este livro transmita ao leitor?
Gostaria que este livro transmitisse uma mensagem de esperança, que há sempre uma vitória assegurada para quem não se resigna e luta pelos seus direitos e pelos seus sonhos.

 

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