Diário do Alentejo

Uma dívida a Borrela (mesmo depois de a pagar)

05 de junho 2019 - 12:40

Texto Martinho Marques, poeta

 

(Texto lido aquando da homenagem a Leonel Borrela e adaptado pelo autor para publicação no Diário do Alentejo)

 

Antes do resto, permitam-me que cumprimente todos os presentes e que cumpra o dever de agradecer ter sido um dos convidados para intervir com palavras neste dia, sem esquecer de referir, de maneira muito forte, a simpatia e a humanidade da família de Leonel Borrela (a Hermínia, a Sílvia, o Miguel e a Dalocas, que só soube há pouco tempo ter o nome de Idalina), a quem agradeço muito sempre me terem tratado como se desta família eu também fizesse parte. Depois disto, a primeira das coisas que me ocorrem é dizer que, se quis estar aqui, também me custa aqui estar. Porque Borrela não está.

 

Daí que tenha pensado que o melhor que eu podia fazer hoje era escrever como se ele também aqui estivesse, mesmo que não pudesse desmentir o que de menos exacto eu possa estar dizendo sobre ele, mas que procuro dizer de maneira a não lhe darmos razões para afirmar que esperámos que ele se fosse para nós aparecermos. Procuraremos, portanto, falar dele como o sentimos, no que ele foi e no que ele fez. Quem como ele habitou e amou esta cidade, entranhada de passado e fértil em horizontes, é provável que tenha a consciência de manter sempre uma dívida com Beja, mesmo depois de a pagar.

 

Creio que isso me acontece a mim. Creio que isso terá acontecido com ele. Mas dizer quem ele foi, o que fez e o que amou também deve ser supérfluo. Creio que quem aqui está, amigos ou quem por ele tem grande admiração ou grande reconhecimento, conhece dele o bastante para dispensar quaisquer palavras minhas.

Martinho Marques discursa na homenagem a Leonel BorrelaMartinho Marques discursa na homenagem a Leonel Borrela

Ainda assim, socorrendo-me de uma pequena síntese biográfica feita a partir de um currículo que ainda foi por ele elaborado e destinada a uma revista da Casa do Alentejo de Toronto, onde ele esteve, onde expôs e onde deixou pinturas, posso deixar alguns marcos.


1955 – Nasce em Loulé, a 22 de Fevereiro.
1976 – É desenhador de Artes Gráficas na Empresa Contamira(1) , em Beja.
1977 – Ingressa no Museu Regional de Beja, como Técnico Auxiliar de Museografia, onde foi funcionário até ao seu falecimento, tendo tido a seu cargo, entre 1985 e 1997, a secção de desenho técnico e artístico do Museu Rainha D. Leonor.
1993 – Completa o Curso de “Formação de Formadores no domínio do Património Cultural”, realizado pelo Gabinete Português de Estudos Humanísticos.
2000 – É-lhe atribuída, em Beja, a Medalha de Mérito Municipal (Grau Prata).
2005 – Termina a Licenciatura em História (Ramo do Património Cultural), pela Universidade de Évora.
2017 – Deixa-nos no mês de Maio, mas deixando-nos a obra e o exemplo.

 

Ele foi pintor e grande estudioso da História e do património cultural da região e da cidade de Beja. Coordenou diversas exposições, salientando-se as referentes a Soror Mariana Alcoforado, figura por quem era apaixonado, de que era profundo conhecedor e sobre a qual foi reunindo os documentos que perfazem aquela que eu imagino poder ser uma das maiores coleções do mundo.


Foi dinamizador de muitas atividades de arte e de história da cidade e da região e publicou inúmeros trabalhos, destacando-se um estudo sobre as cartas de Soror Mariana Alcoforado (“Cartas de Soror Mariana Alcoforado ˗ estudo crítico”, 100LUZ, Castro Verde, 2007) e os mais de cem artigos que, entre 1995 e 2000, figuraram no Diário do Alentejo, sob o título “ICONOGRAFIA PACENSE”. Foi também ilustrador de cerca de 35 publicações.

Como artista plástico, realizou à volta de sete dezenas de exposições individuais ou coletivas, estando representado em diversas coleções de arte, nacionais e estrangeiras, nomeadamente no Governo Civil de Beja, no Museu Histórico da Alfândega do Funchal e nas câmaras municipais de Serpa, Moura, Mértola, Castro Verde, Ourique, Silves, Aljustrel, Ferreira do Alentejo e Beja, para além de o estar também na Casa do Alentejo, em Toronto, para a qual esta síntese foi feita.

 

Depois de ter uma infância e adolescência difíceis, não sei a data em que chegou a Beja, mas garanto que já por aqui estava antes do 25 de Abril. Porque foi ainda antes desta data que eu um dia o conheci, no local onde reunia o Grupo de Teatro da Capricho, na sua sede da Rua da Moeda.
Não posso dizer que foram regulares os meus contactos com ele, mas muitas foram as vezes em que os nossos caminhos se cruzaram, ao ponto de julgar suficientes os elementos que tenho para saber como ele era.

 

Lembro, ao acaso, os tempos em que ele e o António Carlos Carvalho (que, muito mais do que eu, privou com ele e que ainda tentei que hoje aqui falasse do Leonel Borrela) passavam os fins de tarde no que era o café “Girafa”, da rua 5 de Outubro, muito próximo da casa onde eu então residia, dando razão a Aquilino que, a escrever sobre Junqueiro, diz que os grandes sensitivos são, em geral, bons copos e bons garfos. Curiosamente, eram esses também os tempos em que a minha filha ia aprendendo nomes de animais e, a falar do tigre, do leão, da zebra, sofria a influência do nome desse café e, aplicando o masculino no nome desse animal, naturalmente chamava-lhe “o girafa”(2).

 

Recordarei para sempre a preciosa ajuda que me deu a ler e a rever textos sobre Beja que tive a ousadia de escrever. Retenho ainda as conversas que tinha sobre os fortins do Guadiana, revejo alguns dos opúsculos que sei que publicou e que possuo (nomeadamente sobre o castelo de Portel e sobre o real mosteiro de Nossa Senhora da Conceição), lembro o livro que orientou relativo ao Centenário da Caixa de Crédito Agrícola Mútuo de Beja e Mértola e os numerosos textos e desenhos que, no Diário do Alentejo, constituíram a “Iconografia Pacense”, de que ainda recortei os primeiros que foram publicados, mas que, após desleixo meu, deixei de colecionar, até por nunca me passar pela mente que, mais tarde ou mais cedo, não viessem a incluir-se num livro.
Recordo-me de uma vez o ouvir tocar piano, com certa desenvoltura.

Lembro o muito que ele amou, o muito que o ocupou e sobre o qual não escreveu ou, escrevendo, não deixou organizado.

Recordando as aguarelas, que fazia com espantosa frequência e facilidade, recordo também os óleos e algumas outras técnicas que não pôde deixar de experimentar. Mas Leonel Borrela não se multiplicou em autopromoções. A família que escolheu ou construiu foi um dos seus maiores baluartes, mas não teve uma equipa ao seu serviço. E, se caminhou por múltiplos caminhos, nunca atropelou ninguém. Tive-o sempre por um homem mais simples que a maioria de nós e mais curioso, mais talentoso e mais apaixonado que a maioria de nós. Louletano de nascimento, deu-se a Beja como poucos. E com a paixão enorme que sempre pôs no que fez. Já noutro local escrevi que as suas paixões eram numerosas. Que quem o visse na sua vasta sala de trabalho, preenchida de livros e papéis, de recortes, de jornais, de slides, de cartazes, de catálogos, de azulejos, de pedras, de postais, de registos sonoros, de moedas, de material filatélico, de grafonolas, de fotografias, de relógios velhos, de quadros inacabados, de marcas de leitura e de entusiasmo, percebia de imediato como ele vibrava com os seus interesses.


De tal maneira que, em 1989, ousou candidatar o seu projeto a um concurso de ideias para erguer um monumento ao bombeiro, de que acabou por ser o vencedor, sem que o monumento em causa viesse a ser construído, o que levou a que, jocosamente, em texto do ano seguinte, eu lhe tivesse chamado o monulento.

Não foi, evidentemente, um Leonardo da Vinci pacense dos nossos dias, mas, se acaso de tal se aproximasse, não creio que por aqui houvesse muitos mecenas dispostos a apoiá-lo. Porventura, porque ele também não acreditava que cá dessem importância às coisas que ele fazia. Penso que, uma certa vez, terei dito ou terei escrito que a ele se podia aplicar o que Raul Brandão disse de Fialho de Almeida: “Se o virassem do avesso, escorria ternura”. O que talvez − creio-o hoje − não fosse inteiramente verdade, por nem sequer ser preciso para isso virá-lo do avesso. Sensível como era, também seria às vezes suscetível, o que podia trazer dificuldades nalguns relacionamentos, mas creio que a razão se deve encontrar nalguma vulnerabilidade que lhe tivesse ficado das asperezas dos seus primeiros tempos e da desconfiança que teria relativamente àqueles que não levam muito a sério os homens apaixonados e sonhadores como ele.

 

Devo aqui dizer também e lamentar que foram mais os quadros que me deu que aqueles que lhe comprei… o que em mim ainda causa um difícil amargor, sobretudo após saber das grandes dificuldades económicas que chegou a defrontar, algumas em consequência do amor de perdição que teve pelas cartas de Soror Mariana e pela aquisição de obras fundamentais, nomeadamente de um exemplar da 1ª edição das Lettres Portugaises, após não ter conseguido que entidades oficiais o fizessem. Um precioso exemplar da edição sobre a qual passam no ano corrente exatamente três séculos e meio.

 

Acerca da autoria dessas cartas, não queria pronunciar-me, a não ser para dizer que creio que as houve e saíram da mão de Soror Mariana, tantos são os pormenores relativos ao espaço em que se insere este convento constantes da chamada tradução francesa, apesar de, até hoje, ninguém ter encontrado em parte alguma quaisquer originais em português. Mas acredito também que a dita tradução tenha sido, ela própria, criação, ainda que partindo de versão que o tempo destruiu ou extraviou.
Por estas e por outras, é que julgo ser de aplaudir o congresso a haver sobre este tema, ainda que, sem congresso, Soror Mariana e as cartas já apaixonem o mundo e já atraiam a Beja gentes de todas as partes.

 

De aplaudir é igualmente a edição para breve de uma nova versão do livro de Borrela sobre as Cartas de Soror Mariana (cuja primeira edição está a fazer doze anos) como serão de louvar e agradecer a edição da “Iconografia Pacense”, com os textos e os desenhos publicados no “Diário do Alentejo” entre 1995 e 2000, a abertura ao público de um espaço − que poderia ser o seu atelier − onde fosse possível aceder à sua obra e, finalmente, a consumação da construção do “monumento ao bombeiro”, pelo qual eu sei que ele tinha um particular carinho.

 

E é tempo de acabar. Já gastei tempo em excesso. Mas outros aqui dirão melhor do que eu sobre ele, abordando em diferentes perspetivas a obra que nos legou o nosso Leonel Borrela. Gostaria, no entanto, que me deixassem ainda, para terminar, dizer que, tal como admito que todos os que a amamos mantemos uma perpétua dívida com Beja, também Beja manterá uma dívida eterna com Borrela. Mesmo depois de a pagar.

 

Notas:

1) Num gabinete em que, se bem me lembro, também chegou a trabalhar o escultor Manuel Rosa e se situava à esquerda de quem descia a rua Teófilo da Trindade, muito perto da sua confluência com o Antero de Quental.
2) Sendo talvez escusada esta alusão, permitam-ma e compreendam-na, por corresponder a um tempo e a um lugar para mim inesquecíveis − e talvez mais ainda, porque, aí, também eu, algumas vezes, não só me juntava a eles como também juntava com os deles o meu copo e o meu garfo.

 

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