José d’Encarnação Arqueólogo
Na página 42 de Museu Regional de Beja, editado em 1946, dá conta Abel Viana da existência, no museu (o atual Museu Rainha Dona Leonor), da inscrição a que foi dado o número de inventário B-136: “Ao longo do rebordo de duas pedras, que parece terem feito parte de uma cornija ou de um lintel:
SEXTINVMISIAVI…
As duas pedras ajustam-se perfeitamente, ficando em uma delas a palavra SEXTINV e, a seguir, um pequeno espaço de separação”.De acordo com o “Inventário dos objetos existentes no Museu Arqueológico da Câmara Municipal de Beja, em 24 de Março de 1898”, de Joaquim António Vargas, foi esse “mármore fragmentado” encontrado, a 4 de setembro de 1890, na muralha de dom Dinis, encravado no prédio da rua dos Prazeres, pertença de António Romão dos Santos, que o viria a oferecer ao museu (p. 102, n.º 5). Sendo, assim, pedras reutilizadas na construção urbana, delas se desconhece o contexto original concreto.Abel Viana voltará a referir-se a este monumento no “Arquivo de Beja” (n.º 9, 1952, pág. 8), transcrevendo José Umbelino Palma, na passagem em que dá conta de na coleção do museu ter entrado “a dedicatória do templo de Ísis”, apressada interpretação sua da terminação ISI. Será, no entanto, com base nessa informação que os editores da coletânea Hispania Antiqua Epigraphica (1950-1952, sob o n.º 173) irão explicar, pela primeira vez, que se devem ler três antropónimos – Sexti Numisi Avi –, independentemente da ausência de pontos de separação entre as palavras.Estamos, desta sorte, perante a identificação de um romano, com os habituais três nomes: o “praenomen”: Sextus; o nome de família: Numisius; Avus, o cognome. Estão em genitivo, correspondente ao nosso complemento determinativo; ou seja, deve traduzir-se por “de Sexto Numísio Avo”. Uma “marca de posse”, dir-se-ia.O cabo dos trabalhos reside, portanto, na resposta à pergunta: Sexto Numísio Avo foi “dono” de quê? Se ainda soubéssemos o contexto original!... De mármore de Trigaches, os dois fragmentos medem, em conjunto, 32 centímetros de altura, 70 de comprimento e 36 de espessura. A altura das letras varia entre quatro e cinco centímetros.Na verdade, independentemente de termos apenas dois fragmentos ajustáveis, trata-se de uma epígrafe invulgar, quer pela localização do letreiro quer pela tipologia. Apesar de ter mais de 70 centímetros de comprimento, o certo é que o diminuto módulo das letras requer um monumento isolado, do tipo pedestal ou altar. Não será, pois, um lintel, mas, de preferência, a moldura como elo de ligação entre o capitel e o fuste. O ponto inicial aponta para a existência de algumas letras antes. Uma fórmula do género “por testamento de…” seria mais consentânea na parte inferior, junto à base e, aqui, afigura-se preferível atribuir-lhe posição inicial.Optar pelo começo dum epitáfio exigiria D · M (a consagração aos deuses Manes); se lhe déssemos uma conotação honorífica, poderia este genitivo depender, por exemplo, de OB · M, “ob merita”, “pelos méritos de…”. É a opção que perfilho, mormente porque a identificação (apenas com os três nomes) indica eventual pertença de Avo à categoria dos libertos, um “estrato” social largamente representado na epigrafia de Pax Iulia, inclusive como de beneméritos.Assim, o friso daria logo a identificação do homenageado, de quem, no corpo do texto, mais se diria, sobretudo´, as razões e os promotores da homenagem. Poder-se-á indicar, como eventual paralelo, o pedestal de Roma em honra do senador Cláudio Claudiano: há uma primeira linha, em módulo maior, com o nome em genitivo (como aqui) e é no corpo do texto, no fuste, que se lhe especificam os méritos.Proposta arriscada? Tenho plena consciência que o é; mas o carácter invulgar deste letreiro, suscetível de mostrar, mais uma vez, os segredos que os monumentos epigráficos da Beja romana nos podem revelar, merece o risco e, simultaneamente, o desafio: que outras propostas haverá?