Diário do Alentejo

Planeta: Jovens da região preocupados com o clima

31 de maio 2019 - 14:00

A Greve Climática Estudantil saiu mais uma vez à rua. Em Portugal e no Mundo. Repetindo a proeza de março, o movimento, em maio, porém, chegou a mais cidades portuguesas e, desta feita, também à região, do interior ao litoral alentejano. De Beja a Sines, eis o que pensam os jovens que estão preocupados com o clima. Que estão empenhados em salvar a terra, porque, argumentam, “não há um planeta B”. Em setembro, garantem, voltam a sair à rua, mas aí com a proposta de uma greve geral. Porque o objetivo é que o protesto inclua todas as gerações e se declare “emergência climática”.

 

Texto Bruna Soares foto José Serrano

 

Berlim, na Alemanha. Estocolmo, na Suécia. Gurungram, na Índia. Sydney, na Austrália. Madrid, em Espanha. E mais, muito mais. Em várias cidades e localidades do Mundo. Mas também em Beja, Portugal.
São jovens e exigem medidas urgentes em nome do clima. Por isso, na sexta-feira passada, dia 24, voltaram a faltar às aulas e fizeram greve, tal como aconteceu a 15 de março, em Lisboa, onde decorreu a maior manifestação pelo clima alguma vez realizada em Portugal.

 


Jovens que se juntaram imbuídos pelo espírito de Greta Thunberg, a adolescente sueca que iniciou uma greve estudantil para salvar o planeta. A ativista, de 16 anos, começou sozinha, no verão do ano passado, uma greve às aulas, manifestando-se em frente ao parlamento sueco, com o objetivo de ver tomadas medidas que resolvam a crise climática.

 


Recorde-se que, em março, cerca de 20 mil estudantes em Portugal aderiram, pela primeira vez, à Greve Climática Estudantil. Protesto que, no Mundo, juntou 1,6 milhões de estudantes de mais de uma centena de países.

“No dia 15 de março existiu um movimento igual a este e, com muita pena nossa, Beja não esteve presente. Achámos, por isso, que também deveríamos de representar o Baixo Alentejo. Nós seremos os adultos de amanhã, se não lutarmos pelo nosso futuro ninguém o fará por nós”.

Dia 24 de maio. São 10:00 horas e o largo da Conceição, junto ao Museu Regional de Beja, aos poucos, vai sendo ocupado, cada vez mais, por estudantes. Chegam com os seus cartazes feitos, maioritariamente, em papelão. “O capitalismo atira-nos para o abismo”, “temos nas nossas mãos o futuro”, “preservar o planeta para salvar o futuro”, “não há planeta B”, “nosso futuro, nossas regras”, “faz pelo clima”, entre tantas outras frases, avistavam-se aqui e ali. Depois uma, escrita num cartão de maior dimensão, sobressaía na dianteira da manifestação pacífica: “A terra esgotou a sua paciência e nós também”.

 

“No dia 15 de março existiu um movimento igual a este e, com muita pena nossa, Beja não esteve presente. Achámos, por isso, que também deveríamos de representar o Baixo Alentejo. Nós seremos os adultos de amanhã, se não lutarmos pelo nosso futuro ninguém o fará por nós”. É assim que Miguel Santos, aluno da escola Diogo de Gouveia, em Beja, explica o porquê de os alunos da cidade de Pax Julia se organizarem e se associarem a este protesto de dimensão internacional.

 

Recorde-se que, segundo o manifesto apresentado, “a Greve Climática Estudantil é um movimento de estudantes político-apartidário, descentralizado, pacífico e não-violento, que se insere no movimento internacional #schoolstrike4climate e #fridaysforfuture”.

 

Os jovens defendem, assim, que “é importante abrir um debate sério e vinculativo sobre a justiça climática” e exigem, portanto, “uma ação governamental urgente”. Estes protestos são, por isso, “uma mensagem clara de descontentamento”.

 

E o descontentamento também chegou aos jovens da região. “Queremos dizer que estamos atentos. Este é um assunto urgente a tratar”, prossegue Miguel Santos.

 

“Quem governa, em Portugal e no Mundo, não está a pensar na saúde e no ambiente, e isso deve ser algo prioritário. Para haver algo para governar tem de existir e ser saudável. Não podíamos ficar parados, Beja não podia ficar em branco no mapa destes protestos. Não podíamos ficar silenciosos. Por exemplo, aqui, a nível local e regional, preocupa-nos o olival intensivo. Mas também a seca, e não vemos que exista uma preocupação urgente nesse sentido. Não são tomadas medidas rápidas, é tudo muito lento. Mas o nosso futuro não vai esperar, porque o tempo vai continuar a andar”. Quem o afirma agora é Margarida Raposo, aluna da escola Diogo de Gouveia, que também se associou à causa em Beja.

A manifestação segue e na frente começam a ecoar frases de protesto replicadas uma e outra vez. A rua dos Infantes torna-se estreita para tantos que a atravessam, para depois desemborcarem na praça da República.

 
“Os jovens podem ter aqui um papel determinante, porque estamos a mostrar-nos preocupados. O futuro vai ser nosso e somos nós que vamos viver no mundo que, de certa forma, estão a estragar. Temos de nos mostrar preocupados e dizer que não é indiferente o que estão a fazer”, considera Margarida Raposo. E continua: “Mesmo que fossemos só um, já se conseguia fazer a diferença. Porque pelo menos um pode conseguir mudar a mentalidade de um ou dois”.


De acordo com o manifesto da Greve Climática Estudantil, “as metas e os objetivos que se propõem atingir continuam a ser insuficientes para o tamanho desta problemática. Inúmeros acordos e protocolos foram ratificados, mas de que serve isso se ainda não foram cumpridos com rigor?”. Por isso, esta greve “é a voz de uma juventude farta da negligência das classes políticas face ao futuro reclamado”. E esta “é a voz de uma geração consciente de que a ação individual não basta e que problemas sistemáticos exigem soluções sistemáticas”.

 

“O nosso objetivo não é só chegar ao Governo, é também chegar aos outros jovens. Porque também notamos muito desinteresse dos jovens em relação a este tema. Ao estarmos neste movimento, também queremos que todos percebam que o que está em causa é o nosso futuro”, explica Miguel Santos. “Há muitas pessoas que estão no poder que se preocupam com esta causa, mas não é o suficiente”, defende Margarida Raposo.

 
“Eu gostaria de acrescentar que foi feito um comunicado, para todas as escolas, para dizer que os adultos e os professores também estavam convidados para esta greve”, refere, por sua vez, Francisca Carvalhal, outra das alunas presentes no protesto em Beja. Que diz ainda que “este é um tema que entra nas escolas, nomeadamente, através de algumas disciplinas e projetos, mas que deveria ser mais debatido”.

 “É urgente protestar pelo clima, pois, se não fizermos nada, as alterações climáticas vão continuar a intensificar-se e serão irreversíveis daqui a 10 anos. Os primeiros sinais foram bem visíveis, desde o acidente nuclear de Chernobyl (1986), aos incêndios nacionais (2017) e aos ciclones recentes que ocorreram em Moçambique. Porém, mesmo assim, os grandes políticos e as elites económicas continuam a não tomar medidas drásticas no sentido de salvar o nosso planeta. Há que sensibilizar e, consequentemente, pressionar”.

Protesto este que chegou também, entre outras localidades da região, a Sines, e que juntou estudantes do litoral alentejano. A manifestação, essa, começou perto das 10:30 horas, e a concentração dos alunos aconteceu junto ao Jardim das Descobertas. O desfile prosseguiu por diversas ruas da cidade, terminando junto ao edifício da câmara municipal.

 

Sara Neto, uma das porta-vozes da manifestação, em declarações ao “Diário do Alentejo”, afirma: “É urgente protestar pelo clima, pois, se não fizermos nada, as alterações climáticas vão continuar a intensificar-se e serão irreversíveis daqui a 10 anos. Os primeiros sinais foram bem visíveis, desde o acidente nuclear de Chernobyl (1986), aos incêndios nacionais (2017) e aos ciclones recentes que ocorreram em Moçambique. Porém, mesmo assim, os grandes políticos e as elites económicas continuam a não tomar medidas drásticas no sentido de salvar o nosso planeta. Há que sensibilizar e, consequentemente, pressionar”.

 

Os estudantes em Sines defenderam, assim, que “tem de existir consciência ambiental, não só entre os grandes políticos e as grandes empresas, mas também entre a população”. E, neste sentido, acreditam que “podem influenciar outras gerações através desta mobilização global”. “O futuro não é só nosso, mas também dos nossos filhos e dos nossos netos. Somos uma geração consciente das alterações climáticas e queremos que todos participem connosco nesta luta incessante contra o tempo para salvar o planeta, mas também a humanidade”, refere Sara Neto.

 

Em Sines os estudantes participantes na manifestação reivindicaram “a proibição de explorações de combustíveis fósseis em Portugal e o cancelamento de todas as concessões existentes”, mas também o “fecho das centrais termoelétricas de Sines e do Pego, mas com a devida requalificação dos trabalhadores para empregos relacionados com o clima”. Dizem, deste modo, que “até 2030 há que ser 100 por cento renováveis”, com a consequente aposta “nas energias limpas”. Querem ainda um melhoramento da rede de transportes públicos e, por fim, salientaram “a importância de reduzir a agricultura intensiva”.

 

“A nível regional, como somos do Alentejo Litoral, preocupamo-nos principalmente com a industrialização que existe nesta zona (em concreto, na zona de Sines). Desde da central termoelétrica ainda movida a carvão às refinarias e aos derrames de petróleo. Sabemos que é preciso uma mudança imediata”, argumenta Sara Neto. Que conclui: “Os patamares das nossas reivindicações têm de subir de tom, pois o planeta necessita de ações concretas hoje. Não amanhã, não daqui a um ano, e muito menos daqui a uma década”.

 

É por isso que os estudantes já pensam em juntar-se a sindicatos para, em conjunto, protagonizarem uma greve geral. A data, essa, já está marcada: 27 de setembro.

Ambientalistas saúdam
movimento de estudantes e deixam alerta


A Confederação Portuguesa de Associações de Defesa do Ambiente (Cpada), em comunicado, apoiou e saudou o movimento que promove a Greve Climática Estudantil. No entanto, deixou um alerta: “Existem tentativas de infiltração neste movimento estudantil de organizações ligadas a interesses ideológicos e políticos de vários carizes”. Assim, a Cpada “teme que o aproveitamento por parte de outras entidades possa retirar a genuinidade e autenticidade do movimento estudantil e que os objetivos dos estudantes possam ser desvirtuados por esta tentativa de manipulação por parte das entidades externas”. Para a Cpada, “a luta contra as alterações climáticas é essencial para a sobrevivência da espécie humana e do mundo natural tal como o conhecemos. Este movimento merece o apoio de todos, mas sem interferências e manipulações que podem levar ao descrédito e morte deste movimento”.

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