Diário do Alentejo

Que jarro bem gracioso!

07 de junho 2026 - 08:00

José d’Encarnação Arqueólogo

 

Pedes que te desenhem em jarro. E tu que fazes? Pegas num lá de casa e copias ou inventas um à tua maneira. Esse é um dos problemas dos arqueólogos, como o monumento de hoje nos vai demonstrar. A imaginação e a realidade sempre foram, aliás, duas aliadas e, simultaneamente, duas inimigas, no campo das artes plásticas.Pela década de 70, deparei na igreja de Santiago – que funcionava, então, de certo modo, como armazém do Museu Regional de Beja – com uma pedra, que assim descrevi, num apontamento apressado: “Bloco paralelepipédico, com campo epigráfico de dupla moldura. Tem, do lado direito, um lindo jarro em relevo e, do lado esquerdo, uma pátera também em relevo, sem pé. Os líquenes abundantes dificultam a leitura através da foto”.Nestas circunstâncias, de pedra quase sem letras, não merecia grande atenção em armazém. Numa primeira abordagem, consegui ler o que era mais simples: a invocação inicial aos deuses Manes e, a custo, as habituais siglas finais a augurar que ao defunto a terra lhe fosse leve.E, claro, a questão que se me pôs foi a tentativa de identificar a peça com alguma das que Abel Viana teria publicado. Havia uma que poderia ser: Abel Viana chamava-lhe culpa e dela só lera essas tais singelas letras finais. Contudo, a pedra que eu tinha à minha frente, como anotei, era um bloco paralelepipédico.Diligências subsequentes conduziram ao texto que se publicou em 1984, em que se dá conta, afinal, das conclusões a que se lograra chegar, até porque o monumento dera depois entrada no museu e recebera B-156 como número de inventário. Mede 77 centímetros de altura, 58 de largura e 30 de espessura.Belo exemplar de ara funerária, de mármore de Trigaches, partida obliquamente, no sentido da direita para a esquerda, de forma que desapareceu o ângulo superior esquerdo do campo epigráfico, não atingindo, porém, a inscrição. A moldura do campo epigráfico foi marcada com três sulcos paralelos, sendo o interior bastante fino.Do lado direito, uma cratera, com o bordo e a saliência central (o umbo, que é como se diz em latim) em relevo, sem cabo; à esquerda, um jarro também em relevo, com pega de ambos os lados e motivos geométricos curvilíneos no bojo e simétricos no gargalo; elegante pé cónico. Os abundantes líquenes e a pouca profundidade da gravação impedem uma leitura e dificultaram, à primeira vista, a identificação da peça.Trata-se, afinal, da que Abel Viana inseriu, sob o número 67 do seu catálogo “Museu Regional de Beja – Secção Lapidar”, publicado em 1946. Todavia, Abel Viana não apresenta versão própria, limitando-se a copiar o que o jornal “O Bejense” escrevera, na edição de 18 de março de 1893: o achamento ocorrera no sítio Ao Pé da Cruz, perto de Alcaçarias, freguesia das Neves, concelho de Beja, acrescentando: “Sob o cipus [sic], encontrou-se uma urna de barro e uma medalha romana, tendo de um lado um busto de homem com esta legenda RIDIO e do outro um estandarte”.Acrescentava-se, na altura, que só uma cuidadosa limpeza poderia eventualmente permitir uma leitura capaz, dado que, até aquele momento, até se poderia duvidar do número de linhas que teria a inscrição.Hoje há, porém, dois desafios no ar:– O primeiro, o mais evidente, será o de convocar quem, no âmbito das obras em curso no museu, mui cuidadosamente limpe a superfície epigrafada e, mediante a aplicação de adequados filtros, consiga fazer a pedra “falar” – e nós cá estaremos, queira Deus, para a ouvir com todo o gosto.– O segundo prende-se com a questão levantada a princípio: aquele jarro, que ali tem 23 centímetros de alto por 14,5 de largura no bojo, representa um jarro real ou inventado? Cópia dum existente ou fruto de congeminação artística?Por agora, é este o desafio que mais nos seduz, dado o requinte com que o canteiro se esmerou a esculpir o vaso em relevo. À patera não ligou muito: molda-se um prato e está feito! Agora, o jarro, senhores, com todas aquelas pregas, qual requintada e bem salerosa saia feminina!...Na verdade, convenhamos que, se esta é a reprodução de um jarro real, a matrona romana de Alcaçarias que o teve no enxoval bem dele se poderia orgulhar. Seria de bronze? De fina cerâmica? Ou de metal precioso?

Comentários