Vítor Encarnação, 60 anos, natural de Aldeia de Palheiros, Ourique
Morou em Ourique e Castro Verde e concluiu o ensino secundário em Almada. Licenciou-se em Línguas e Literaturas Modernas na Faculdade de Letras da Universidade Clássica de Lisboa. Vive em Ourique, onde é professor de inglês e alemão. É cronista de jornais, escreve para diversas publicações e publicou livros de poesia, crónicas, contos e literatura infantil.
Com ilustrações de Joaquim Rosa e o apoio da Comunidade Intermunicipal do Baixo Alentejo, Nada mais havendo a acrescentar – livro 6 é o título do mais recente livro de Vítor Encarnação que reúne as crónicas semanais do autor publicadas nos últimos dois anos no “Diário do Alentejo”.
Mantém a sua rubrica semanal, no “Diário do Alentejo”, ininterruptamente, desde 2013. É a nossa vida quotidiana intrinsecamente interessante e filosófica, tal como as suas crónicas, ou essa perceção não passa de um “truque” de um escritor inspirado, que consegue transformar o fútil em belo?
Assumo o desafio de tentar encontrar na banalidade do quotidiano aquilo que é a essência de todos nós: um todo existencial, ao longo dos dias, das noites, da vida, dividido em pequenas partes reais, emocionais, com peso, com profundidade, com chão, com horizonte. Depois, escolho uma dessas pequenas partes, traduzo-a para palavras e mostro-a aos leitores. Tento conseguir aquilo que o escritor brasileiro Fernando Sabino definia como “extrair do banal um momento de revelação poética”.
É comum, permita-nos dizê-lo, as suas crónicas apontarem certeiro ao coração do leitor, fazendo-o sentir-se incrédulo ao rever-se espelhado nas suas “letras”. Significa isto que, salvo as devidas diferenças, somos todos semelhantes?
Há emoções que são transversais a todas as pessoas. A vida ensinou-me que, em níveis de sensibilidade diferentes, todos nós reagimos a estímulos formados pela nossa básica condição humana, mas formados também pela nossa identidade transtagana, pelos nossos hábitos, pela nossa forma de sentir aqui mais a sul. Tento encontrar os vocábulos que não percam tempo ou sentido, tento usar aqueles que mais depressa concretizam os meus propósitos: partilhar uma emoção em dois ou três minutos de leitura. Essa ideia de espelho é muito interessante: diria que a crónica reflete o avesso dos homens e das mulheres.
De que forma se lhe aproxima o tema da crónica seguinte que irá escrever?
Tenho o hábito de ir apontando tudo aquilo que ouço, vejo, sinto e me parece interessante de abordar e registar. Às vezes uma dor, outras vezes um bocado de luz, os que já cá não estão, um espanto, um cheiro, um sabor, um abraço. A vida está cheia de pequenas coisas aparentemente pouco importantes, mas que podem ganhar substância se conseguirmos ir para além da superfície da rotina. Um dos encargos do escritor é conseguir resgatar esse lugar-comum e dar-lhe um significado mais alto.
A memória é presença assídua dos seus textos. Arriscando descaradamente o cliché: recordar é, de facto, viver?
Adoro a memória, não consigo viver sem a saudade, procuro as recordações de forma intensa. Às vezes não é pacífica esta relação com o passado, é muito doloroso quando concluo que tudo não passa de uma ilusão, mas não me imagino a esquecer-me e afastar-me daquilo que me trouxe até ao que sou. A escrita permite-me fazer essa viagem de retorno, a escrita é a única forma de enganar o tempo.
José Serrano