Diário do Alentejo

Sines: Cooperativa com “resposta pronta” para quem mais precisa

01 de abril 2021 - 11:00

Dulce, Raquel e Rose são três dos rostos que fazem parte da “família” da cooperativa Litoral Alentejano Solidário (LAS), em Sines, que as ajudou a reerguer em plena pandemia de covid-19.

 

Após duas décadas em Espanha, Dulce Serra, de 48 anos, deixou uma vida para trás e regressou a Portugal, meses antes do início da pandemia, “a pedido da filha” mais nova. “Estava separada e a minha filha, de 15 anos, que nunca tinha vivido em Portugal, quis vir para junto do pai. Então, decidi regressar com ela e com o meu filho (de 29 anos)”, revela a mulher, que passou a dividir despesas e a partilhar casa com o ex-marido, em Sines.

 

Dulce “não tinha nada em Portugal” e conta que, além de inesperado, o regresso não foi fácil. “Tinha ideia de que o país tinha melhorado, até a nível de trabalho e de aumento salarial. Pensei que tinha alterado para melhor”, mas foi “como se em 20 anos não tivesse 'cambiado' nada, aliás, piorou muito em tudo”.

 

Habituada à “turbulência da vida”, a ajudante de lar, que entretanto passou a morar em casa própria, voltou a enfrentar novo desafio com o surgimento dos casos iniciais de covid-19 em Portugal, do primeiro confinamento e da paragem do país. “Foi desastroso, porque o meu filho estava sem trabalho, o meu ex-marido também e complicou-se tudo. Aluguei uma casa e comecei a trabalhar, só que o ordenado não dava sequer para pagar a renda. Tinha trazido algum dinheiro de Espanha que deu para aguentar algum tempo, mas foi-se tudo”, confessa.

 

Foi uma colega de trabalho que “viu” a sua “aflição” e a levou ao Celeiro da Paz, da LAS: “Cheguei a ir trabalhar sem comer, primeiro estavam os filhos”, lembra, com lágrimas nos olhos.

 

Expôs a sua situação aos voluntários da LAS e conta que, a partir daí, não lhe “faltou nada”. Recebeu primeiro bens alimentares, depois mudou-se “para uma casa mais barata”, a qual, “no espaço de mês e meio” ficou mobilada, com a ajuda do grupo. E agora “ajudo outras famílias, sempre que posso. Se eu tiver um pouco mais ajudo, porque sei dar valor. É uma forma de me sentir em paz, porque o valor da vida não é o que tenho, é o que posso fazer para transformar a vida das pessoas”.

 

A sua história cruza-se com as “aventuras” de Raquel e Rose, duas jovens brasileiras que, com os seus companheiros, arriscaram mudar de vida, mas não contavam com os efeitos de uma pandemia que “paralisou” o mundo. “Vim [para Portugal] na altura da pandemia, cinco meses depois de o meu marido, que já cá trabalhava. Sempre com aquela preocupação de fecharem os aeroportos. Um mês depois, deu-se o 'lockdown', parou tudo, assim como a vida que queríamos construir em Portugal”, evoca, resignada, Raquel Samora, 34 anos.

 

Quando o vírus “se espalhou”, a empresa demitiu os funcionários, incluindo o marido. “Com o pouco que tínhamos deu para suprir algumas necessidades, até que a escola dos meus filhos indicou a LAS, que nos ajudou com tudo o que precisávamos”. Comida e produtos de limpeza foram algumas das ajudas que receberam durante alguns meses por parte dos voluntários, com os quais ainda mantêm uma relação de amizade e proximidade.

 

Já Rose Lima, de 31 anos, há sete meses em Portugal, depois de quase um ano em Espanha, onde contraiu a covid-19, continua desempregada e a necessitar de alguma ajuda da cooperativa para também, um dia, ajudar os outros. “Recebemos alimentos, roupa, utensílios de cozinha e de casa, produtos de limpeza e higiene. Cheguei num dia e no outro a LAS” já estava a apoiar, conta, frisando: “Fiquei surpreendida, porque nem no meu próprio país a gente foi tão apoiada como aqui. Talvez, se estivesse lá, nesta situação, estaria bem pior”, admite.

 

A jovem, que tem a seu cargo dois filhos menores, reconhece que há dias melhores do que outros. “Não vou mentir, às vezes a gente desanima”, mas “não é o fim do mundo. Vamos vivendo uma etapa por dia e esperando por uma vida melhor”.

 

RESPOSTA PRONTA

 

Nas prateleiras, arcas e frigoríficos que “recheiam” o Celeiro da Paz, numa das ruas pitorescas do Bairro Marítimo, em Sines, não faltam enlatados, produtos de higiene e frescos para doar a famílias carenciadas. O espaço é gerido pela cooperativa Litoral Alentejano Solidário (LAS) que tem uma “resposta pronta” para os rostos “marcados” pelos danos causados pela pandemia de covid-19.

 

Todas as semanas “entram pela porta” pedidos de ajuda a que os voluntários dão resposta. “O Celeiro tem tudo e a população não deixa que lhe falte nada”, conta Olinda Silva, uma das responsáveis do grupo, criado em 2017 para apoiar as vítimas dos grandes incêndios em Portugal e que recentemente oficializou a atividade como cooperativa de solidariedade social.

 

Ainda como grupo informal de voluntariado, a LAS começou por recolher e entregar bens nas zonas afetadas pelos incêndios que devastaram o país, mas, quatro anos depois, passou a apoiar em exclusivo famílias de Sines afetadas pela pandemia de covid-19. “Foi uma 'explosão' de famílias a precisarem de tudo. Quando começámos a perceber, não eram só os iogurtes para as crianças, elas também passavam frio. Foram trabalhadores precários, pessoas ligadas à restauração que comiam no trabalho e viviam em quartos”.

 

O ano passado, acrescenta, foram “muitos emigrantes, mas também muitos portugueses ligados à restauração e à limpeza” que ficaram sem trabalho e a precisar desta ajuda. Este ano, os agregados a precisar de apoio “são diferentes”, constata Olinda, à volta com os papéis onde identifica o nome das famílias que estão agora ligadas à cooperativa. “São pessoas que apoiavam outras pessoas, só que já não têm economias. Também percebemos que os restaurantes têm uma função muito grande na comunidade. Há duas ou três pessoas que eram integralmente apoiadas em termos alimentares por esses restaurantes que agora estão fechados e as pessoas não têm quem as ajude”.

 

POBREZA ENVERGONHADA

 

A chamada pobreza envergonhada preocupa a porta-voz da LAS, que conta já ter sido confrontada com situações “delicadas”, como a de um homem que “foi identificado atrás das galinhas à espera que pusessem um ovo para o comer cru”. “Não tinha apoios e esta pessoa era ajudada por um restaurante que este ano está fechado”, acrescenta Olinda Silva, aludindo ainda à história de um casal que esteve “três dias sem comer e que antes tinha a sua vida completamente estabilizada, mas que ficou sem emprego”. Por entre estes depoimentos reveladores de caos social, que pôs “à prova” os cerca de 20 voluntários da LAS, há também casos de sucesso. Como o de um casal que, na altura do Natal, passou a viver num carro e, agora, já tem a sua situação estabilizada. “Uma pessoa amiga arranjou uma casa e a LAS conseguiu trabalho para os dois. Já estão completamente independentes e já têm os filhos novamente com eles”, sublinha, com um sorriso de vitória. O objetivo da cooperativa é “dar uma resposta rápida, sem a burocracia habitual e alavancar” as famílias LAS que, por estes dias, rondam as “50, a maioria com crianças”. O apoio não se fica por aqui e chega também a “mulheres vítimas de violência doméstica que, ao fim de pouco tempo, conseguem ser autónomas”.

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