Diário do Alentejo

DIGO EU.. Silêncio

01 de julho 2026 - 08:00
Foto | Ricardo ZambujoFoto | Ricardo Zambujo

Jorge Martins

 

Ouvir é altruísmo. É empatia. É cuidado e cuidar. É noção de tempo. É dar espaço para receber. É a generosidade de dar palco. É aprender. É respeitar. Ouvir os silêncios e interpretá-los é fundamental para entender algumas conversas, interações, sentimentos ou respostas.A diferença entre o silêncio e a intervenção reside nos sinais. Nem sempre nos é pedido que falemos. Nem sempre nos é pedida uma resposta direta. Nem sempre nos pedem silêncio, mas por vezes é neste que reside a nossa resposta.Mas vamos a exemplos que ajudam a consolidar esta teoria.Quem se queixa de uma dor, nem sempre (ou quase nunca) pretende encontrar um semelhante que, neste jogo do silêncio, não só não o respeita como, normalmente, se mostra sempre um nível acima na escala da desgraça.Quando alguém partilha detalhes de uma viagem não procura um contra roteiro feito pela pessoa que já visitou o local e que, ao invés de ouvir mais sobre esta experiência, dispara questões sobre os locais que ela própria visitou e, num ápice, torna a conversa sua ao partilhar a sua jornada, o que se torna, quase sempre, desarmante para quem conta. Se uma pessoa encontra noutro alguém um reduto para o desabafo, mesmo que procure semelhanças ou aconselhamento, não procura do outro o domínio desse momento, nem a partilha da sua própria experiência que será sempre e apenas isso mesmo: sua. E aquele não é o seu momento.Estes e outros exemplos quotidianos, banais e mais frequentes do que seria desejável, são apenas algumas evidências de que existem pessoas mais talhadas para falar, outras para ouvir e poucas com capacidade para adequar ambos ao que pede cada momento. E porquê trazer hoje o silêncio a este espaço feito de palavras?Vivemos tempos em que é fácil fazer barulho. Ter voz. Expandir essa voz sem medir a consequência de o fazer. Mas nem tudo merece esse espaço que julgamos ser sempre o nosso. Não temos de ter uma opinião sobre tudo. Tampouco nos é pedido que a partilhemos. Tanto menos ela tem essa relevância para o mundo ou apenas para o próximo. Ter canal não significa ter lugar. Ter voz não significa ter relevo. Ter espaço não significa usá-lo. Significa, muitas vezes, que forçámos a entrada sem convite. E isso é não respeitar o silêncio que o tema pediu. A ânsia de preencher silêncios é, por vezes, inimiga da exigência do momento. Acreditamos, muitas vezes tarde demais, que este poderia ter sido a solução, pois a palavra mais certa, a dada altura, teria sido aquela que é dita em silêncio.Por agora, resta-nos desejar que não se calem as vozes que acrescentam e que o silêncio seja oportunamente usado por aqueles que fazem da palavra arma e não ferramenta.Porque ao contrário da laranja, digo-vos eu, o silêncio é (de) ouro de manhã, mas também à tarde e à noite.

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