Diário do Alentejo

A alegria de Sisifo

16 de junho 2026 - 08:00
Foto | DRFoto | DR

Texto | Vanessa Schnitzer 

 

Existe um momento na vida em que deixamos de ter as respostas às nossas perguntas. Será porque o mundo nos tenha virado as costas, ou por nunca nos ter dado garantias? O poeta Rainer Maria Rilke, em suas Cartas a um Jovem Poeta, aconselhava: “Não investigue agora as respostas que não lhe podem ser dadas, porque não poderia vivê-las. E é disto que se trata, de viver tudo. Viva agora as perguntas. Talvez passe, gradativamente, em um belo dia, sem perceber, a viver as respostas”. Será neste intermezzo que surge aquilo que Nietzsche chamou de niilismo existencial?Embora não exista um sentido objetivo ou transcendente para a vida, o ser humano continua a desejar significado, ordem e propósito. O absurdo nasce deste encontro paradoxal entre a necessidade humana de encontrar uma razão para a existência e a ausência de respostas do universo. Queremos um objetivo, uma lógica, um sentido que justifique o esforço, a dor e a repetição. Do outro lado, porém, o mundo permanece silencioso na sua granítica indiferença, incapaz de oferecer qualquer garantia ou explicação. O absurdo não reside apenas no mundo nem apenas no sujeito, mas na tensão permanente entre a exigência humana de sentido e o silêncio impassível da realidade.Confrontada com essa condição, a consciência humana encontra-se diante de uma difícil encruzilhada. Uma possibilidade consiste na fuga através da renúncia à lucidez, refugiando-se em crenças, ilusões ou esperanças que prometam uma justificação transcendente para a existência. Outra consiste na desistência, que assume a forma extrema do suicídio. É precisamente nesse ponto que Albert Camus desenvolve a sua reflexão filosófica. Em O Mito de Sísifo o autor investiga se a constatação do vazio, da falta de sentido e do absurdo conduz, inevitavelmente, ao suicídio. A sua resposta é negativa. Para Camus, existe uma terceira via: a revolta. A revolta não significa insurgir-se contra o mundo ou destruir a realidade. Significa, antes, recusar-se a mentir para si mesmo. É aceitar o absurdo sem encontrar o conforto nas ilusões. Trata-se de reconhecer plenamente a ausência de fundamento último e, ainda assim, afirmar a vida. É olhar para a repetição dos dias, para os ciclos aparentemente vazios da existência e ainda assim dizer sim.Talvez a maior lição seja precisamente esta: encarar a repetição da vida, os seus movimentos circulares e indiferentes e persistir apesar deles. É nesse sentido que a figura de Sísifo se torna exemplar. Condenado a empurrar eternamente uma pedra montanha acima apenas para vê-la regressar ao ponto de partida, ele encarna a condição humana na sua forma mais crua. Não há recompensa. Não há progresso definitivo. Não há testemunhas que aplaudam o esforço. Apenas a pedra, a subida e a queda.É nessa revolta lúcida e permanente que Camus encontra a possibilidade de uma existência autêntica: uma vida que, mesmo sem sentido último, permanece digna de ser vivida.

Comentários