O Arquivo Digital do Cante, para além do trabalho no terreno, recebe, regularmente, fotos, recortes, jornais e outros materiais, relacionados com o cante, vida e vivências dos grupos. Chegam-nos por via de alguns grupos, amigos e, até, colecionadores. E, não raras vezes, ficamos positivamente surpreendidos com as revelações que tais documentos nos trazem. Ao longo do nosso trabalho de investigação e partilha vamos registando um conjunto de dados sobre os grupos que nos vão permitindo criar teorias que ora se confirmam ou não, dependendo das evidências ou da falta delas. Sobre a nomenclatura dos grupos, tudo indica que, inicialmente, o mais importante era a afirmação do nome da terra. E por isso ser normal, até ao aparecimento das casas do povo – que vieram impor a utilização dessa designação – nos nomes dos agrupamentos, os cantadores identificavam-se apenas como grupos ou ranchos desta ou daquela terra. Um outro dado indica também que era, e ainda é, frequente alguma intermitência nos grupos, o que levou a várias paragens e arranques dos mesmos. Porém, com a caraterística de assumirem como data de fundação a data do novo arranque e não a inicial (da primeira fundação). Também, por isso, alguns grupos apresentam um curto período de existência.A par destes dados, apercebemo-nos de um outro que está relacionado com a ausência de referências à prática do cante formal (grupos) nos periódicos do primeiro quartel do século XX. O que revela não só o desinteresse por esta manifestação cultural de matriz rural, como também a escassez de agrupamentos à época. Tal ausência viria a ser quebrada pelo Grémio Alentejano em Lisboa, posteriormente Casa do Alentejo, que, pela sua prática continuada de levar grupos de cante a Lisboa, foi despertando o interesse das massas e de alguns jornalistas, na capital.Num desses boletins mensais do Grémio Alentejano, do mês de outubro de 1937, chega-nos uma informação particularmente feliz. A da existência do Grupo de Cantadores de Almodôvar, a propósito da sua ida a Lisboa. Notícia, essa, acompanhada por uma fotografia, que partilhamos hoje, o que lhe dá maior significado e importância, por não ser comum, naquele período. A deslocação deste Grupo de Cantadores de Almodôvar a Lisboa, a convite do Grémio, foi então noticiada pelo “Boletim”, frisando desde logo que “os intérpretes do ‘canto’ não eram orientados por artistas, por técnicos formados”, mas… “pela intuição vinda quási do berço e do ambiente, tendo sido escola dos cantadores a vida que os cercou e trazendo-lhe a paisagem grande e serena da sua terra”. Entre textos curtos sobre o cante, em jeito de dissertação, mas apelando à sua divulgação, surge uma outra nota curiosa ao ler-se que o “Boletim” “hoje festeja a criação da Liga dos Amigos dos Cantadores de Almodôvar”, criada pelo “comprovinciano Sr. Manuel Caetano Cordes da Ponte”, que “em tão boa hora formou, vendo estabelecidos métodos de amparo a uma lidima manifestação artística do povo (…)”.A notícia, porém, desvela uma inquietação, a de controlar o grupo, escrevendo-se: “Indispensável se torna dispôr regras onde confusas dispersões se notam. Congregar elementos em volta dos cantadores, aproximá-los terra a terra, aperfeiçoá-los sem lhes roubar as condições nativas, é um trabalho que nos compete e que, sem demora, devemos executar”. E este escrito diz muito sobre um dos vários processos pelos quais o cante já passou, mas sobre o qual há poucos registos escritos. Ou que ainda não se querem mostrar…
Florêncio Cacete Coordenador do Arquivo Digital do CanteCidehus/Universidade de Évoraflorencio.cacete@uevora.pt