Vanessa Schnitzer
Existe um momento da vida em que deixamos de perseguir respostas. Não porque as tenhamos encontrado, mas porque entendemos que é no caminho das perguntas que somos confrontados com dúvidas ainda maiores. Avança-se não por coragem, mas por exaustão; quando as ilusões se perdem, resta o passo silencioso – digno, necessário.Sustentamos todo o peso de um passado que nos constitui. Somos moldados pelas feridas que ensinaram o corpo a continuar em movimento. O futuro não promete redenção; oferece apenas abertura. E escolher avançar sem garantias – será um gesto de lucidez ou uma forma discreta de loucura?Talvez seja a recusa do naufrágio que nos faz persistir nesta travessia interminável em busca de sentido?A maior parte da vida consome-se num trabalho invisível, aquele que nos desloca da órbita comum das coisas visíveis. E talvez a experiência mais radical desse desaparecimento seja a própria morte. Persiste a antiga crença de que lidar com o invisível exige um preço: o de cegar o pensador ou o poeta para o mundo concreto. Tal como Homero, a quem os deuses concederam o dom da visão interior através da cegueira. Ou como Zenão, que perguntou ao Oráculo de Delfos como se alcança a melhor vida e recebeu como resposta: “Assume a cor dos mortos”.Há uma luz paradoxal que inquieta o espírito: será que os homens criam o belo precisamente por não o serem? Ao desejar o ausente, o amor estabelece com ele uma relação secreta. E, para torná-la visível, os homens partem em busca daquilo que lhes falta. Assim Dante atravessa o Purgatório e eterniza Beatrice, que faz nascer a Divina Comédia.Talvez seja essa a condição humana: amadurecer no silêncio, suportar o tempo e aceitar que só o fruto que atravessa a sombra pode, um dia, transformar-se em vinho.