Diário do Alentejo

Crónicas do cante: I Festival Nacional de Folclore do Algarve (1964)

17 de março 2026 - 08:00
Grupo Coral e Etnográfico da Casa do Povo de Serpa

Entre o rebuliço em torno da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Alentejo, devido à inexplicável não recondução de Ana Paula Amendoeira no cargo de vice-presidente para a Cultura, e o artigo de Henrique Raposo sobre o Alentejo, os Bandidos do Cante ganharam o Festival da Canção. No que concerne ao cante, resta deixar uma palavra de apreço e gratidão à doutora Ana Paula Amendoeira pelo seu reconhecido trabalho em prol do cante, do património e da cultura na região e, consequentemente, do País, bem como parabenizar os Bandidos do Cante pela sua prestação vitoriosa no festival, e o autor da canção, o aljustrelense Gonçalo Narciso, pela sua autoria. Independentemente de se gostar ou não da canção, são jovens do Alentejo que cantam o Alentejo e o dignificam e merecem o nosso apoio. Às vezes interpretam modas do cante, não foi o caso desta vez, ainda que a inspiração no mesmo ressalte à vista. Elevar o nome do Alentejo, dignificá-lo e representá-lo, também é, e foi sempre, um dos objetivos dos grupos corais que ao longo da história têm feito uma trajetória notável, de resistência também, mas, infelizmente, nem sempre documentada. No âmbito do trabalho em curso do Arquivo Digital do Cante encontrámos nos arquivos do Grupo Coral e Etnográfico da Casa do Povo de Serpa um documento interessantíssimo, que, para além de ser um testemunho dum marco importante na vida do grupo, comprova o início da realização do Festival Nacional de Folclore do Algarve e outros aspetos relacionados, também eles motivo de nota e reparo pela sua importância histórica. A versão mais mediatizada do Festival de Folclore do Algarve, na contemporaneidade, é a que ocorreu entre 1976 e 1996, pois, devido à transmissão televisiva (exceto o último), alcançou uma amplitude nunca antes atingida. Porém, há um antes e um depois. Do antes advém o facto de ser organizado sempre por organismos ligados ao Turismo, com ou sem parcerias como aconteceu na versão atrás referida, que contava com o apoio da Federação do Folclore Português. Do antes vem também o cuidado em garantir representações do Alentejo e, sobretudo, de grupos de cante. Já nos arquivos de outros grupos encontrámos documentação avulsa relacionada com outras edições. Do tempo posterior, regista-se a manutenção do mesmo modelo (três dias, um grupo por cada distrito, percorrendo vários concelhos do Algarve), mas sem o mediatismo anterior, sem transmissão televisiva e sob orientação da Associação de Folclore e Etnografia do Algarve. Porém, não vingaram, por falta de apoio financeiro. Não excluindo a hipótese de ter havido edições anteriores, anuncia-se em 1964 o I Festival do Algarve. Com organização e direção de Fernanda de Castro, com o patrocínio da direção dos serviços de Turismo do Secretariado Nacional de Informação, Cultura Popular e Turismo. Numa carta manuscrita, e assinada pela própria Fernanda de Castro, o Grupo Coral e Etnográfico da Casa do Povo de Serpa é convidado a participar nesta primeira edição, que se previa realizar em Tavira, na noite de 30 de agosto de 1964. Para o efeito e, conforme se pode ler, Azinhal Abelho, homem de teatro, poeta, ficcionista e investigador de etnologia rural, natural de Orada (Borba), já teria encetado o convite, formalizando-se agora pelo punho da diretora do evento.Consultando outra documentação do grupo, verifica-se que depois de alguns incidentes, alheios ao grupo, o I Festival do Algarve se realizará em 5 de setembro do mesmo ano, mas na cidade de Faro, na alameda João de Deus. Em carta datada de 30 de agosto de 1964, a promotora do festival dá conta dos grupos presentes (todos do Sul) e pede ao grupo coral a maior autenticidade dos temas a interpretar. O espetáculo, a que se deu o nome de “Danças e Cantares do Sul”, estava organizado em quatro partes. Na primeira parte atuaria o Rancho Folclórico de Santo Estevão, Tavira (quatro danças) e a Orquestra Típica de Faro (duas composições). Depois, o Rancho Folclórico de Faro, em conjunto com a orquestra, interpretaria três temas bailados pelo grupo. Em seguida, o Rancho Folclórico de Faro, atual Grupo Folclórico de Faro, interpretaria mais três temas, sem a orquestra. Na segunda parte apresentaram-se as representações do Alentejo. O Grupo Coral e Etnográfico da Casa do Povo de Serpa (quatro modas) e o Rancho Folclórico da Casa do Povo de Cano, Alto Alentejo (quatro danças). O grupo de Serpa, logo após o jogo do pau do Rancho Folclórico de Cano, apresentaria mais duas modas. Espaço ainda para a apresentação de acordeonistas do Algarve, José Ferreira (pai) e João Bexiga. Na quarta e última parte do I Festival do Algarve, em jeito de encerramento, o Rancho Folclórico de Santo Estevão e o Rancho Folclórico de Faro interpretariam o “Baile Mandado”. Graças ao arquivo do Grupo Coral e Etnográfico da Casa do Povo de Serpa foi possível reconstituir este festival, onde já em 1964 o Alentejo marcava presença, elevando o bom nome das suas terras de origem, do cante e das bailações. E este foi também um grande palco!

Florêncio Cacete Coordenador do Arquivo Digital do CanteCidehus/Universidade de Évoraflorencio.cacete@uevora.pt

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