Diário do Alentejo

Crónicas do cante: A estreia do Orfeão de Beja no ano de 1933!

25 de maio 2026 - 08:00
Que relação com os ranchos corais?Foto | ”Diario do Alentejo”/Arqivo

Em Baleizão, terra baleizoeira, cantou-se, há dias, a Catarina, cuja história de vida se conta também numa moda do cancioneiro popular alentejano. Entretanto, a participação do Alentejo no Festival da Eurovisão não correu como o esperado, mas lá vamos nós atravessar a fronteira de novo, para levar o Alentejo, desta vez, até à Lituânia, pelas vozes dos Cantadores do Desassossego, de Beja. Cumprindo assim o desígnio maior de difundir esta prática patrimonial, de que tanto nos orgulhamos, por esse mundo fora. Reveste-se de particular importância esta deslocação, não só por ser a primeira vez que o cante chegará àquelas paragens, mas também por lá chegar através de um grupo de Beja, cidade e concelho onde, de acordo com as fontes recolhidas, não existem grupos ativos com data de fundação muito antiga, ao invés do que acontece noutros concelhos em redor. Não porque não tenham existido, porque existiram – e são antigas as referências a grupos corais de Cabeça Gorda e das Neves, por exemplo. Porém, haverá razões sociológicas que expliquem este facto. No terreno, continuaremos a indagar quando e onde existiram.E é, precisamente, nesse quadro de permanente pesquisa que fomos confrontados com um recorte do “Diário do Alentejo” de 28 de junho de 1932, que aborda a criação de um orfeon na cidade de Beja. Sob o nome de Orfeon Pacense, desenrola-se então a crónica, escrita por Manuel Ançã, em que, a convite de Carlos Marques, proprietário e diretor do “Diário do Alentejo”, exalta a importância da criação do orfeon, esgrimindo argumentos vários, de razão histórica e cultural, sublinhando que “o canto coral foi, em todos os tempos, um grande índice aferidor de cultura dos povos”. Continuando a sua narrativa, acrescenta também que “os coros orfeónicos são deliciosos, na exibição dos cantos regionais, que constituem o matizado folk-lore, a cativante originalidade da exalação festiva das tradições e costumes da alma dos povos”. Entre várias crónicas e artigos publicados entre 1932 e 1933, sobre a importância da criação da estrutura polifónica, pedidos de adesão e publicitação de ensaios, noticia-se, em 19 de abril de 1933, a brilhante estreia do Orfeão de Beja no decorrer de um vasto programa de variedades que teve lugar na noite anterior sob fortes ovações e aplausos, tendo amadrinhado o orfeão Maria da Luz Coelho de Castro e Brito. O coral, ensaiado por José Augusto do Rego, estreou-se com o tema “A Portuguesa”, o hino nacional, sob a regência de José Lúcio Mendes Júnior, e depois do intervalo interpretou a “Marianita”, de António Viana, “Canção dos Malmequere”, de A. E. Costa Ferreira, e “Les Montagnards”, de A. Roland. Na quarta parte do sarau, e já sob regência do dr. Eduardo Hermano Pereira Ferraz, o orfeon cantou a “Barcarola” e “Canções alentejanas” (arranjo do regente).Não se tratando, este orfeon, de um grupo coral dito tradicional, na forma como os conhecemos hoje, pareceu-nos interessante a partilha desta informação. Na medida em que, por um lado, regista-se o posicionamento de Beja em estar alinhada com o movimento orfeónico nacional que desde os anos 20 do século XX se implantou no território. Por outro lado, porque é a partir destes corais/orfeons que se estruturaram alguns ranchos corais alentejanos, hoje encarados como legítimos representantes desta prática performativa no campo formal e institucional.A questão que se coloca, olhando para casos similares no Baixo Alentejo, em particular, é se este movimento contribui de alguma forma, ou não, para a criação de algum rancho coral em específico ou vários na cidade e concelho de Beja. A história e a investigação em curso, desenvolvida pelo Arquivo Digital do Cante, o dirão, caso existam evidências documentais dessa envolvência. Porém, até lá segue o trabalho no terreno.

Florêncio Cacete Coordenador do Arquivo Digital do CanteCidehus/Universidade de Évoraflorencio.cacete@uevora.pt

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