Diário do Alentejo

Crónicas do cante: O meu grupo coral é mais antigo do que o teu!

03 de março 2026 - 08:00

Nos próximos anos, a partir de 2026, inclusive, assistiremos ao assinalar dos 100 anos de alguns grupos corais do Alentejo e, noutros casos, dos 50.º aniversários, para os que surgiram pós 25 de Abril de 1974. Estas datas, por serem históricas e cheias de significado e simbolismo para todos quantos pertencem ou pertenceram aos respetivos grupos, serão celebradas, e, sim, devem ser condignamente assinaladas. Se para os grupos criados, já em liberdade, após a Revolução dos Cravos, será, porventura, fácil ter clara a data de fundação, os nomes dos fundadores e outros aspetos, na maior parte dos casos devidamente documentados, já para os grupos mais antigos a tarefa de encontrar algumas respostas torna-se mais desafiante. Se recuarmos ao primeiro quartel do século XX, este foi um período marcado por forte instabilidade política, transformações sociais e modernização urbana, e, que só a partir de 1925 a fotografia ganharia maior importância documental e histórica, sobretudo. Na década de 1920 a revista “Ilustração Portuguesa” e o jornal “O Século” começam a recorrer à utilização da fotografia como forma de aumentar a credibilidade da notícia, aproximar o público dos acontecimentos e contribuindo para a criação de um novo imaginário coletivo. Assente, sobretudo, em Lisboa, e num ou outro centro urbano de relevo, a ilustração fotográfica da “província”, quando raramente surge noutra imprensa desse tempo, aparece romantizada e numa lógica de valorização e afirmação do pitoresco, o que em muito terá contribuído para os estereótipos regionais que se viriam a criar no Estado Novo. Pelo que, dificilmente, se encontram registos fotográficos de grupos corais, neste período. Por outro lado, os arquivos de alguns grupos de cante que, eventualmente, tenham surgido neste período, ou não existem, ou se perderam, ou estão supostamente noutros acervos de outras entidades coletivas, de difícil acesso, aos quais estariam ligados, o que dificulta a prova documental da sua fundação. Ainda assim, instituiu-se nas comunidades de origem dos grupos “centenários”, e nos próprios grupos, uma data para a sua fundação, que, em muitos casos, subsiste até hoje e sem nunca ser localmente refutada. É, sobretudo, a partir de 1937, depois da realização do 1.º Concurso/Desfile do Cante Alentejano em Lisboa, numa organização do Grémio Alentejano em parceria com a “Emissora Nacional”, que se conhecem e se prova a existência de alguns grupos já nessa altura. Sendo (re)confirmada a atividade desses e outros grupos, mais tarde, em 1939/1940, por Armando Leça, aquando do seu périplo pelo País. É facto que a historiografia dos grupos nos revela que muitos deles sofreram entre duas a três alterações no nome. Numa primeira instância, os grupos mais antigos incorporaram “Casa do Povo” na sua nomenclatura, aquando do aparecimento das mesmas. Mais tarde, após o 25 de Abril, a partir de 1979, com o aparecimento dos grupos femininos, alguns grupos introduziam o género “Masculino” na sua designação. Os que resistiram viriam depois a ser legalmente obrigados a abandonar o descritivo das casas do povo devido à extinção das mesmas, convertendo-se em associações ou adotando outros nomes. Houve outras alterações para além destas, porém, as mencionadas foram as de maior relevância. E também há grupos (muito poucos), dos mais antigos, que mantiveram sempre o mesmo nome desde a sua fundação. Tudo isto e muito mais é possível verificar ao consultar os documentos existentes nos arquivos dos grupos. Ainda assim há perguntas para as quais não se encontram resposta, ainda. Sobretudo, nos grupos com maior longevidade, e esse é também o propósito do Arquivo Digital do Cante, contribuir para que, cada vez mais, surjam novas respostas e esclarecimentos. E por essa razão, quando confrontados com a questão sobre qual o grupo de cante mais antigo em atividade, apenas respondemos que ainda estamos à procura! Se para os grupos esta descoberta seria relevante, sobretudo, para alimentar, também, um determinado orgulho bairrista, para a investigação seria, sem dúvida, uma descoberta que nos permitiria avançar na história do cante e preencher mais uma lacuna na sua cronologia, para a qual cada um tem contribuído com os seus trabalhos. Qual é o grupo mais antigo em atividade é, portanto, uma questão de detalhe perante a dimensão gigante do cante no seu todo e estamos certos de que, independentemente de haver respostas em breve ou não, a resposta à questão nunca interferirá negativamente no relacionamento entre os grupos! Venham papéis para mesa, pois ficamos todos mais ricos!

Florêncio Cacete Coordenador do Arquivo Digital do CanteCidehus/Universidade de Évora

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