Texto | Jorge Martins
As sondagens baralham.
Os debates não ajudam.Os atos eleitorais repetem-se.As histórias confundem-se.Cinco anos (menos uns dias) depois voltamos às urnas para eleger o nosso representante maior. Porém, em menos de um ano, esta é a terceira vez que vamos a votos em Portugal. Não tendo havido grandes alterações na vida de cada um, quase todos tivemos já oportunidade de decorar o caminho. Oxalá não tenhamos ainda decorado o resultado. Diz-nos a história recente que, apesar de estarmos a definir os próximos cinco anos de legado, estas eleições podem trazer o anúncio de um novo ciclo de dois mandatos. Tem sido assim, pelo menos, com os últimos cinco presidentes que garantiram estadia em Belém por 10 anos cada um. No boletim de domingo vamos encontrar um repetente que, uma vez mais, tenta chegar à residência oficial e, quem sabe, aumentar assim o número de divisões disponíveis.Mas não é para isso que aqui venho hoje. Não gosto de me pronunciar sobre ideias ou ideais políticos ou partidários. Não obstante podermos entender política como tudo aquilo que nos rodeia, pressupondo que não vivemos debaixo de uma rocha, entendo que existirão pessoas com opiniões mais sustentadas, relevantes (em contexto) e, por isso, mais úteis do que as minhas, que guardo para alguns momentos de reflexão mais pontual (e pessoal).Porém, enquanto cidadão interessado, preocupado e pouco elucidado, assumi o desafio e dediquei um final de dia a acompanhar o debate que juntou os 11 candidatos. Só este número poderia ser alvo de diversas interpretações: estaremos assim tão mal para que exista a necessidade de tantos potenciais salvadores? Será aquele lugar tão apetecível, por estes dias tumultuosos, que justifique esta corrida? Rapidamente percebemos que a resposta poderá ser: nenhuma delas. Ou: ambas. Ou ainda: outros. E porquê? Porque ao ouvirmos algumas intervenções inferimos que estamos, garantidamente, a brincar aos países. Não apenas por conta de cada um daqueles que creem que isto é um passeio no parque e, por isso, podem condicionar o tempo de discussão pública com uma impreparação amadora, mas também de todos quantos que lhes validaram esta posição e que serão, como sabemos, pelo menos 7500 por cada um. Mas todos têm direito à vida. Por isso, seguimos. Mas seguimos para um caminho que desfoca. Que causa ruído. Que potencia (não justificando, note-se) a abstenção. Que dá força ao bacoquismo e ao populismo fácil. Vivemos tempos desafiantes. O eco do que se vive “lá fora” faz com que essa expressão se vá esbatendo, tendendo obrigatoriamente a confundir-se fronteiras para o medo. Porque este é tão inspirador quanto assustador. Oxalá tenhamos a força dos valores certos e o discernimento para os fazer valer, sempre. E que disso possa depender o nosso futuro, não entregando esse desígnio, ainda parcamente controlável, nas mãos de quem o possa hipotecar.Mas para isso importa que façamos todos e cada um a nossa parte. A parte que nos é possível. A palavra que nos é dada. O microfone que ganha forma de esferográfica. O megafone que ganha formato de cruz. A cruz que ganha forma de esperança. Bem sei que as competências desta figura que agora elegemos não são tão interventivas ou visivelmente impactantes no dia a dia de cada um. Mas é uma função de supervisão, nos bastidores, que, quando bem feita, trará uma organização a uma navegação que, por estes tempos, pode estar a precisar de uma estrela guia.Um líder nem sempre é um amigo. Talvez quase nunca o seja. Um bom líder não tem de parecer. Nem de aparecer onde não tem de estar. Um líder não precisará de ninguém para ficar bem na fotografia, porque também não quer o foco para si. Um líder será tanto melhor quantas menos forem as vezes que precise de intervir. Será sempre sinal de um mise en place bem feito. E por estes dias estamos todos sedentos de uma comida de conforto, bem confecionada, por uma equipa bem orientada, que não se limite a servir alimentos processados ou finais felizes com açucares refinados pois, vai-se a ver, e somos intolerantes ao glutén, sensíveis à lactose ou alérgicos a crustáceos de origem duvidosa. E se há coisa que não se quer por estes dias, ainda na ressaca das festividades, é, digo-vos eu, algum episódio de refluxo que nos leve a uma azia mais crónica.