Diário do Alentejo

Crónicas do cante: O novo ano, a inteligência artificial e os grupos de cante que vão à televisão!

07 de janeiro 2026 - 08:00

Com a chegada de mais um ano renovam-se desejos, tomam-se resoluções, idealizam-se férias, novos projetos pessoais e profissionais. É o costume, e a chegada de 2026 não será exceção, ainda que pairem no ar tantas incertezas e receios quanto à guerra e à sua eventual escalada, ainda que a sociedade esteja cada vez mais intolerante e cresçam, entre nós, fenómenos sociais assustadores, em jeito de uma repetição dum passado que se tinha já recusado. Para o Arquivo Digital do Cante, e em jeito de balanço, o ano de 2025 foi extraordinariamente intenso, rico e frutífero, resultando, e materializando-se, em diversos compromissos assumidos e desenvolvimento de projetos encetados e, por isso, 2026 será o tempo de cumprirmos com todos eles e implementar um ou outro mais. O nosso trabalho no terreno, junto dos grupos corais, será uma constante e será reforçado, assim como perspetivamos o aumento significativo do número de documentos partilhados on line, nas diversas plataformas. Pelo meio estaremos envolvidos em diversos projetos de valorização do cante e dos grupos corais, sua história e seu papel fundamental enquanto guardiões de uma prática cultural tão rica, tão nossa e tão nobre. E quanto às “Crónicas do Cante”, que se manterão até se justificar, as mesmas continuarão a trazer para a luz do dia documentos antigos, guardados nos arquivos dos grupos e que nos contam tantas coisas, tantas histórias sobre o cante e, em simultâneo, nos fazem questionar sobre outras tantas. A inteligência artificial estará cada vez mais presente nas nossas vidas e a dar-nos cada vez mais informação, pelo que o trabalho que desenvolvemos no Arquivo Digital do Cante assume cada vez mais um papel importante, assim como todos os trabalhos que outros desenvolvam a partir dos documentos que partilhamos. O recurso a hologramas, na área das artes e da cultura, marcará, também, maior presença e evoluirá tanto que, um dia, poderemos voltar a ver num palco um grupo coral já extinto a atuar. Chega a ser assustador a rapidez da evolução tecnológica, porém, retiremos dela o que traz de bom, ainda que vivamos em processos de adaptação e modernização constantes. Não obstante, os media vão sobrevivendo, com todas as dificuldades inerentes a estes processos. E para muitos grupos de cante “ir à televisão” continua a ser importante. Ainda que seja para participar em programas de entretenimento ou concursos, onde são obrigados a estar horas, quase sempre com poucas condições. Incitados pela população, por vezes até pelos autarcas, que querem ver o nome da sua terra nos ecrãs nacionais, embarcam nestas aventuras procurando afirmar-se enquanto grupo e sujeitando-se a comentários nem sempre agradáveis por quem de cante pouco entenderá, salvo raras exceções. Contudo, cada grupo é livre de participar ou não participar e nem deve ser julgado por isso. Pena é que hoje os grupos de cante sejam encarados como um ativo, económico, por parte dos media (pois não são pagos), que vão engrossar uma grelha televisiva que se quer composta, mas com baixo custo. Longe vão os tempos em que os grupos de cante, sendo muito menos, iam a programas televisivos, por mérito, pelo valor e importância do seu trabalho e ainda eram pagos para isso. Em vários arquivos, sobretudo, de grupos corais com mais antiguidade, encontra-se correspondência vária a esse respeito, bem como recibos, cópias de faturas, talões de despesa e outros, referentes a deslocações, quer a estações de rádio, quer a estações televisivas. E até nem eram mal pagos! Também para esta análise serve o nosso trabalho de trazer para o domínio publico novas fontes que nos permitam apreender as evoluções e retrocessos das dinâmicas culturais e o seu impacto na vida dos grupos. Apesar das muitas lacunas documentais, os arquivos dos grupos guardam histórias e memórias do próprio grupo, de pessoas e de instituições, das comunidades onde estão inseridos e de outros territórios e são fundamentais para a interpretação daquilo que é o cante hoje e como aqui se chegou. Por isso continuaremos por aqui, no próximo ano, trazendo alguns desses documentos e colocando algumas questões para reflexão coletiva! Bom ano de 2026!

Documento 1 – Arquivo do Grupo Coral e Etnográfico da Casa do Povo de SerpaDocumento 2 – Arquivo do Grupo Coral e Etnográfico de Vila Nova de São Bento

 

 

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Florêncio Cacete Coordenador do Arquivo Digital do CanteCidehus/Universidade de Évoraflorencio.cacete@uevora.pt

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