Diário do Alentejo

Crónicas do cante: As comemorações do cante como Património Cultural da Humanidade, os grupos corais da região de Évora e os cânticos ao Menino

24 de novembro 2025 - 08:00

Passado o São Martinho, rumamos à quadra natalícia, não sem antes celebrarmos mais um ano do reconhecimento do cante enquanto Património Cultural Imaterial da Humanidade, em 27 de novembro. Se na anterior crónica se levantavam dúvidas quanto às comemorações, pois nada se conhecia ainda, chegados aqui é facto que um conjunto de autarquias e grupos anunciaram já a efeméride, celebrada ao nível local. Não seria mais interessante e pujante organizar algo maior, na região?!? Independentemente do âmbito, é positivo que se celebre, até porque o reconhecimento não é eterno e dependendo, sobretudo, dos grupos corais está a sua manutenção e gestão. Passados 11 anos da inscrição na lista da Unesco há ainda muito por cumprir e, sobretudo, uma necessidade de reflexão interna em cada grupo sobre o que se tem feito e o que se pretende para o futuro. É o que nos parece, de acordo com o que vamos vendo, lendo e ouvindo. Porém, essa responsabilidade não cabe ao Arquivo Digital do Cante, mas, sim, a cada um dos grupos, individual e coletivamente.Entretanto virá o Natal, cantar-se-á o “Tronco” em Safara, pela voz da população local que se junta na igreja para o efeito. Cantar-se-á o “Menino de Pias”, o “Menino da Trindade” e muitos outros temas do ciclo natalício. Outros já se terão perdido. Infelizmente. Cânticos que remontam a um tempo antigo e que regra geral foram transmitidos oralmente de geração em geração, sendo muito raro encontrar as letras destes cânticos nos arquivos dos grupos. Alguns deles saídos das dioceses e quanto maior a importância da mesma maior o alcance. E assim se disseminaram. De Elvas saíram para todo o País imensas cantigas de Natal, assim como de Beja e Serpa, mas também de Évora. Eram dioceses grandes e importantes. E sobre esta questão, colocada por uma aluna da Universidade Nova de Lisboa, evidentemente que sim, o cante está muito enraizado, sobretudo, no Baixo Alentejo, porém, passou a serra de Portel para o outro lado. Existindo referências e evidências, bem antigas até, a alguns grupos como o Grupo Coral dos Trabalhadores de Montoito, fundado em 1934, o Grupo Coral da Casa do Povo de Reguengos de Monsaraz, fundado em 1945, ou o Grupo Coral dos Trabalhadores de Alcáçovas, fundado em 1947, mas que só viu os estatutos aprovados em 1952. Haverá outros. Alguns tiveram uma atividade muita curta, outros permanecem ativos e outros nem por isso. E, sobretudo, na região de Évora dá-se conta de alguns grupos de homens que se organizavam ou eram organizados pela casa do povo e outras organizações, para se apresentarem na Feira de São João, em Évora. Assim nasceu o Grupo Coral da Granja em 1960. E assim se encontra referenciado, na imprensa local, um Grupo Coral de São Manços que foi cantar a Évora no mesmo ano. Por ora celebre-se o cante e o seu reconhecimento mundial, na esperança de que cada vez serão mais os que estudam o cante, sob vários olhares de forma a permitir contributos mais ricos e produtivos ao movimento. Depois começamos a Cantar ao Menino, na esperança de que os cânticos apresentados estejam devidamente enquadrados e com expectativa de que possam surgir novos temas rebuscados da escuridão dos tempos…

 

Florêncio Cacete Coordenador do Arquivo Digital do CanteCidehus/Universidade de Évoraflorencio.cacete@uevora.pt

Comentários