Vanessa Schnitzer
Caros leitores,
Hoje a inspiração foi à bolina do vento e trazida até ao mar. Após tantos anos de vivência transtagana, habituada à imensidão da planura, bafejada pelos ares serenos da planície que se estendem numa ondulação sem abismos e sem relevos, senti a necessidade súbita de partir em busca das verdadeiras ondas, numa sede infinita de água, sal e vida. Com o espírito já convertido à solidão da natureza, que se recusa esconder por detrás de acidentes, altiva e sobranceira na sua nudez pura, quis o destino ceder a uma incontornável impulsão do espírito e levar-me direção ao mar.
Observar o mar é observar a conversa infindável entre o efémero e o eterno, e cada onda que se levanta é um regresso ao musgo do tempo, um choro primordial que ecoa à origem dos mares. Este ciclo configura um ritual de morte e renascimento, envolto numa dança cósmica entre o presente e o ausente. O mar, preso ao seu fado de eterna mudança, transporta sempre uma mensagem à terra. Cada espuma desfeita é um pensamento que cai antes de ser anunciado, um poema que morre no preciso instante em que é criado. Mas ali nada se perde – pois o mar é como o vinho da esperança, como provou Miguel Torga: “Na vindima de cada sonho, fica a cepa a sonhar a outra aventura e a doçura que não se prova, transforma-se numa outra muito mais doce e pura”.
O mar é como o vinho da esperança, que vem lavar a alma das águas passadas preparando-a para um novo ciclo. O mar é inesgotável, apenas transmutável. E através do seu fluxo sublime somos transportados até ao mundus imaginalis, ao malakut dos sufis ou yezirah dos cabalistas. Ao tal mundo subtil, tão bem caracterizado por Teixeira de Pascoaes, “onde os corpos se espiritualizam e os espíritos se corporalizam das almas”, aquele lugar onde nos devemos encontrar antes de nos encontrarmos neste nosso mundo. E neste encontro somos transportados até à nossa natureza paradoxal. Através do confronto, entre os polos opostos do nosso ser, acende-se uma chispa, uma espécie de fogo da transcendência na imanência. Somos todos feitos do mesmo húmus, e que carregamos a essência e o que de mais importante perpassa a identidade portuguesa: o homem da terra e o homem do mar. Apesar do amor à terra, à fixidez do interior, há a necessidade de procurar o movente, e assim responder ao chamado cósmico, à dança inevitável entre a presença e a ausência.
Com a chegada da nova estação, nada melhor do que beber da tal seiva báquica, e, num profundo ritual interior, deixar florescer a verdade acerca de nós próprios.