João Taborda Professor
A travessa da Cadeia e a rua da Fonte Quando as presenças de pretéritos mais ou menos remotos desaparecem, quantas vezes sem deixar rasto, a toponímia (os nomes dos lugares, das suas ruas, praças, etc.) pode revelar-se um precioso auxiliar na reconstituição do passado, uma ajuda valiosa na tarefa de manter vivas memória e identidade.
Em Vila Alva, o topónimo travessa da Cadeia, nome de um dos eixos que irradiando da desaparecida praça Velha desce de encontro à rua Gago Coutinho (antiga rua do Zambujeiro… sabe-se ainda que assim era!), é hoje, para quem visita a nossa aldeia, o lembrete último do calabouço da Casa da Câmara, edifício demolido na primeira metade dos anos 70 do século passado… Marco humilde, mas central na história multisecular da Vila Alva, a sua perda foi atenuada – e bem! – numa placa toponímica que o relembra e, desse modo, também, o facto de durante séculos esta terra ter sido vila e cabeça de um pequeno concelho… Em oposição… quem se recordará daqui a alguns anos ou, já hoje, quantos dos mais novos sabem que nomes tiveram a rua Afonso Costa ou o largo Luís de Camões em que aquela conflui? Por isso, estas figuras maiores da história e da cultura portuguesas não mereciam ser cúmplices no ocultamento da secular fonte que matou a sede a sucessivas gerações de vilalvenses e que por muito tempo deu nome a rua e largo, justamente chamados… da Fonte. Neste caso, não há como evitar dizê-lo… Mal!… Muito mal se andou, ao ali se ter arrasado património e, não bastasse…, apagado memória.
Estes são apenas dois exemplos nos antípodas de como olhar para a toponímia, do que fazer com “o nome das coisas” enquanto referências patrimoniais e pilares de uma identidade…
Da implantação da República à Revolução de Abril
Na história de Vila Alva, que vai para lá dos 700 anos, há dois momentos recentes em que a sua toponímia se vê profundamente alterada, resultado de fervores explosivos e de arrebatadas resoluções, próprios da agitação que acompanha ruturas políticas. O primeiro corresponde ao fim da Monarquia e à implantação da República. O segundo à Revolução de Abril e ao derrube da ditadura.
Na sequência da implantação da República, certamente por iniciativa de um setor da sociedade vilalvense politicamente conotado com o ideário republicano, que se sabe aqui existia à época, assistiu-se à substituição de velhos topónimos por nomes ligados ao republicanismo, como Cândido dos Reis, Machado dos Santos e Miguel Bombarda. O nome do primeiro é atribuído à praça Velha que, curiosamente, nas décadas de 1930 e 1940 continuava a ser conhecida por largo do Relógio, deste modo se podendo concluir como a toponímia enraizada na história e na vida locais pode medrar melhor do que a imposta e importada, ainda que feita de nomes e de acontecimentos de incontestável valor e significado nacionais. O nome Machado dos Santos foi dado a uma retorcida travessa/rua que ainda em documentos dos séculos XVIII e XIX surge com o nome de “rua Cega”. Atendendo a que “rua cega” pode equivaler a uma rua sem saída ou beco, esta alteração na toponímia, sem que tivesse sido preservado o antigo nome, pode ajudar a apagar da lembrança uma possível alteração na malha urbana de Vila Alva, correspondente à abertura de um antigo beco, com a ligação, em cotovelo, entre a velha rua da Fonte (atrás referida) e a ainda hoje designada – e bem! – travessa do Matadouro (cuja localização neste arruamento julgo já ninguém conhece). Finalmente, Miguel Bombarda é nome de rua desconhecida, mas que surge ainda em documentos de meados do século passado... Outro exemplo de como a tinta de “topónimos alienígenas” pode esmaecer com facilidade. Para além destes três nomes, os maiores e mais recentes largos da terra passam nessa altura a refletir também os novos ideais e a chamar-se praça da Revolução (em documento de 1909), praça da República, largo maior fronteiro à igreja de Nossa Senhora da Visitação, e praça 5 de Outubro, frente à escola primária Adães Bermudes, inaugurada nos primeiros anos do século XX (em documentos de 1913).
Após Abril de 1974, na sequência de novo período de exaltação ideológica, outra “revolução toponímica” agita a malha urbana de Vila Alva. Novos nomes, muitos deles previsíveis, substituem-se a velhos topónimos, entrando, assim, para a “história” da terra… Tais são os casos de Afonso Costa (a que atrás nos referimos e que, curiosamente, não tinha sido “alistado” no início do século), o general Humberto Delgado, que passa a dar nome à antiga rua da Carreira de Moura, Bento Gonçalves, à antiga travessa do Lagar, e Bento de Jesus Caraça à, até então, rua do Vale das Hortas ou rua do Outeiro do Vale das Hortas. Vasco Gonçalves toma posse do arruamento que começa à entrada da aldeia, junto às “Bicas”, e vai desembocar ao fundo da rua de São João (antigas travessas da Lama e do Armazém). A estas personalidades juntam-se os nomes “25 de Abril” (antiga rua das Parreiras), “Liberdade” (até então, rua da Lama) e “1.º de Maio” (antiga rua do Outeiro). E, claro, como a ocasião apelava a mudanças, espanejou-se o bafio de outras tantas ruas e travessas… São, então, convidados… João de Deus, para dar nome à antiga rua do Rosário (antes rua do Outeiro das Moitas), Serpa Pinto (antiga travessa das Hortas) e Gago Coutinho (nomeado para a antiga rua do Zambujeiro).
O sentido dos velhos nomes e outras coisas
Todos aqueles velhos nomes, ainda que singelos na sua significação, há muito que se encontravam entretecidos na vida das pessoas e enraizados na história da aldeia. “Travessa da Ladeira”, “rua do Outeiro”, “rua do Outeiro das Moitas” ou “rua Abaixo”, por exemplo, são reveladores da topografia em que assenta Vila Alva, feita de suaves colinas, sobre as quais se foram distendendo as travessas e as ruas com aqueles nomes, e também a de Santo António, mais recente, pelo menos em parte da sua extensão, como parece indicar o nome… rua Nova de Santo António, que surge num registo de óbito de 1874. Entre o suave ondulado dos outeiros intrometem-se as baixas de “vale Carrasco”, do “vale das Hortas” (que dava nome à rua com o mesmo nome, continuação da antiga rua do Outeiro após confluência com a antiga travessa das Hortas) e, um pouco mais além, também o “vale Concelho” (topónimo em clara conexão com o estatuto que Vila Alva conservou até 1836). O topónimo “Lama” atribuído a uma rua e a uma travessa poderá, por sua vez, estar associado a linhas de drenagem. Sabe-se que pela travessa da Lama escoava um ribeiro que, vindo das “Bicas Novas” e passando por trás do tanque, ia meter à travessa chamada… do Ribeiro, cruzava a rua da Carreira, seguindo depois pela travessa do Matadouro, para mais à frente desembocar no largo da desaparecida fonte de São João, por onde ainda hoje deixa a vila, encostado a hortas e por dentro de quintalões. Uma “ponte de São João”, referida em documento datado de 1904, poderá estar relacionada com esta linha de água, que mais tarde, como alguns vilalvenses ainda recordam, foi encanada. A estes topónimos, associados à topografia e à hidrografia locais, juntavam-se ruas e sítios com nomes que remetiam para a botânica, como “Vinhas”, “Parreiras”, “Figueira”, “Zambujeiro”, “Moitas” e… “Carrasco”, e outros, ainda, evocativos da vida económica, social e cultural da terra, como “Carreira”, “Lagar”, “Armazém” e… “Theatro” (topónimo de localização desconhecida, mas que surge ainda em documentos das décadas finais do século XIX). Todos convidados a desocuparem espaço na nossa memória coletiva, para darem lugar a uma corte de eventos e de vultos maiores da história, da política e da cultura nacionais.
Por isso, aqui ficam mais umas notas relacionadas com a antiga travessa do Lagar e as antigas ruas da Fonte e do Outeiro das Moitas, pretexto para avivar esmaecidas lembranças…
O olival e o azeite, não tendo a mesma expressão espacial, social e económica que a vinha e o vinho, estão também presentes na geografia e na história de Vila Alva. Prova-o a antiga travessa do… Lagar. Aí terá existido um velho lagar de varas, que há umas décadas só os mais antigos ainda recordavam. Situava-se numas casas ali onde aquela travessa encontra as ruas da Misericórdia e a Nova que lhe dá seguida. Um outro, já mecânico, ao cimo dessa mesma travessa, confrontava com a antiga rua de Lisboa. Laborou na década de 1970 e, por isso, ainda moço lá entrei. Guardo o barulho do seu funcionamento, a labuta dos trabalhadores, o cheiro espesso e quente do bagaço e as ceiras exsudando azeite. Depois o lagar fechou… desprezo e silêncio abateram-se sobre o lugar. Por fim… chegou Bento Gonçalves.
Ao fundo da rua da Fonte existiu, até há poucos anos, um edifício que só muito poucos lembrarão como a Casa dos Oitavos. Antes de servir à mocidade para bailaricos e, mais próximo, de oficina ao mestre ferrador Martinho Silva, seria aí, nessa casa, como o nome parece denunciar, que até à extinção dos forais com as medidas legislativas liberais da década de 30 do século XIX se arrecadava o oitavo, um dos impostos inscritos no foral dado por D. Manuel a Vila Alva a 1 de junho de 1512. Nele se pode ler: “Todas as pessoas da dita vila e termo pagarão por tributo e direito real posto que privilegiadas sejam o oitavo de todas as coisas que aí semearem e colherem assim do pão linho como de todos os legumes secos sem nenhuma excepção nem diferença e assim o pagarão de todo o vinho e azeite que colherem (…)”. Deste imposto se haveriam de queixar 20 vilalvenses numa petição enviada às Cortes liberais de 1821. Aí se lê: “(…) Aquelle povo, Senhor, gravado com pezados direitos, vai proximo a succumbir, a não se alliviar o tributo dos oitavos de todas as suas sementeiras e criações, revertendo a favor do Excelentissimo Duque de Cadaval, donatario d’aquella villa [de Vila Alva], que os têm reduzido ou a procurarem subsistencias em outras terras, que se não achem gravadas de tal sorte, ou a esperarem ser victimas da miseria; (…)”. Para que a recordação destas vivências e da Casa dos Oitavos não desapareça, justificar-se-ia uma placa identificativa junto ao imóvel que hoje ocupa o seu lugar…
A rua do Outeiro das Moitas, antes da “chegada” de João de Deus, foi ainda de Nossa Senhora do Rosário ou, simplesmente, do Rosário. Recorde-se que existiu em Vila Alva uma Confraria do Rosário, já extinta em 1836. Curiosamente, é na frontaria de uma casa da antiga rua do Vale das Hortas que hoje se pode ver um registo de oito azulejos com a representação de Nossa Senhora do Rosário… na opinião de Túlio Espanca datável de meados do século XVIII. Tenha ou não sido deslocado de uma primitiva posição, certo é que se apresentarmos a vilalvenses uma imagem deste painel e um retrato de João de Deus, a probabilidade de quase todos reconhecerem o primeiro, bem como a sua localização, será elevada. Quanto a João de Deus…
A antiga rua do Outeiro das Moitas finda sobranceira ao vale Carrasco. Um documento do primeiro quartel do século XX localiza aí o Curral do Concelho, numa área onde ainda existe um terreno, com cerca de 0,2 hectares, cercado por um velho muro de taipa, do qual subsistem vários segmentos, alguns com quase dois metros de altura. Pode tratar-se do recinto onde as autoridades concelhias recolhiam os animais que erravam, tresmalhados, sem dono ou pastor, o chamado “gado do vento”, item a que alude o foral manuelino de Vila Alva.
Um contributo para a reposição da memória
Aqui chegados, importa salientar o respeito que nos merecem os nomes que entraram para a toponímia de Vila Alva, naqueles dois momentos da História de Portugal ou em quaisquer outros. A questão centra-se, tão somente, na necessidade de, conservando a nova toponímia, salvaguardarmos a que ao longo de séculos nasceu da história desta terra e com a qual se foi entretecendo o quotidiano de sucessivas gerações de vilalvenses. Foi esse cuidado que, em 1986, levou à realização de um abaixo-assinado junto da população de Vila Alva. Nele lia-se: “As pessoas abaixo-assinadas, no desejo de que se não perca na memória das gerações futuras uma parte da história e da vida da sua aldeia, propõem que, sob as actuais placas indicadoras dos nomes das ruas de Vila Alva, sejam colocados os nomes porque até há bem pouco tempo têm sido designadas as travessas, ruas, praças e becos desta povoação”. Cerca de 200 pessoas subscreveram a petição e as suas assinaturas foram entregues na Câmara Municipal de Cuba.Em ofício da edilidade, de 10 de outubro de 1986, dirigido ao presidente da Junta de Freguesia de Vila Alva, Anúplio José Samora, pode ler-se: “Concordando inteiramente com a sugestão apresentada, a câmara, em sua reunião de 8 de outubro corrente, deliberou encarregar essa junta de freguesia da dar satisfação ao solicitado.
É nesse sentido que nos dirigimos a V. Exª., certos de que, ao assunto proposto, será dada a melhor solução”.
O documento é assinado pelo então presidente da Câmara Municipal de Cuba, António da Glória Capelo São Brás.
Decorridos quase 40 anos, recordamos aqui essa sensata e esclarecida deliberação e voltamos a apelar à Junta de Freguesia de Vila Alva para que se empenhe na devolução aos vilalvenses de um pouco da sua história e identidade… Porque sem memória o presente tem a definição de um dia de nevoeiro e o futuro o negrume de uma noite cerrada!