Diário do Alentejo

Crónica de Vanessa Schnitzer: “Nas vinhas da ira”

14 de junho 2021 - 12:15

“A vida não é mais do que uma contínua sucessão de oportunidades para sobreviver."

Gabriel Garcia Marquez

 

Na peça grega “Oresteia”, de Ésquilo, o sofrimento desempenha um papel vital na vida dos protagonistas. Apresentada pela primeira vez em Atenas no ano de 458 a.C., esta trilogia (composta pelas obras “Agamémnon”, “Coéforas” e “Euménides”) narra três etapas de uma mesma história que, por ordem cronológica, vai relatando o assassínio de Agamémnon, rei de Argos, pela sua mulher Climnestra; o assassínio desta pelo filho e vingador do pai, Orestes; e, finalmente, o sacrifício de Orestes.

 

O tema da justiça que tarda mas se cumpre, mesmo se na penumbra interior da consciência de cada homem, eis do que fala o Coro das Coéforas na reflexão central desta trilogia de Ésquilo – dramaturgo de superlativa grandeza, cujas tragédias consagrou ao tempo.

 

O mundo da dor é vasto e bem mais próximo do que supomos. Quando menos pensamos, damos por nós a habitar o seu território. E os sentimentos que, então, nos sobrevêm são tantos: entramos numa espiral de negação, feita de revolta, depressão, ressentimento; apetece-nos escapar para longe; a impressão que temos é que estamos a ser vítimas de uma terrível maldição, como a família de Atreu; e sentimo-nos impreparados para essa terrível vaga. O que acontece é que a cultura dominante faz do sofrimento um completo tabu. Persiste uma espécie de interdito a respeito da vida vulnerável.

 

Por mais incrível que pareça, a chave está na inversão deste paradigma: tal como acontece na Oresteia, o mundo em que vivemos, por vezes, só melhora através de algum sofrimento. O místico medieval Ricardo de São Vítor escreveu: “Onde há amor há um olhar.” Não raro, esse olhar que o amor nos pede acontece no contexto de um sofrimento que preferíamos absolutamente não viver, mas do qual aprendemos alguma coisa — e alguma coisa preciosa — a que sem ele não chegaríamos. Desta forma, a principal lição que esta peça nos parece querer segredar é a de que "o Homem deve sofrer para ser sábio".

 

Como não poderia deixar de ser, todos nós tentamos, de um modo ou de outro, evitar esse sofrimento. Fazemo-lo através das receitas que aliviam a dor, seja ela física, emocional ou espiritual; fazemo-lo quando colocamos demasiados analgésicos metafóricos na vida das crianças; fazemo-lo quando construímos a nossa vida com barreiras que nos protejam desse temível sofrimento. Chegamos mesmo a pensar que "não sofrer" é um direito constitucional.

 

No entanto, apesar de sabedoria e sofrimento não serem a mesma coisa, uma leva à outra. Basta observar a natureza e os seus ciclos: ela só floresce depois de ultrapassar um longo, terrível e duro inverno. Basta observar o mundo dos vinhos, antes de alcançar o amadurecimento e o sabor pleno, a videira terá de ultrapassar vários obstáculos: o outono despe as vinhas e dá início a um longo período feito de luto e expectativa, a videira entrega-se a um descanso que parece eterno, depois sofre um corte, e desata num choro abundante, que do seu galho faz escorrer a seiva de esperança, para depois iniciar o seu ciclo cósmico; e no fim formará o cacho, do qual escorrerá o tal liquido sagrado que plenificará de alegria os nossos corações, e cuidando que as nossas almas não sucumbam em gélidos mortificantes. Amem!

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