Diário do Alentejo

“Os livros abrem-nos horizontes quando o meio social não o favorece”

02 de junho 2021 - 17:15

Texto Luís Miguel Ricardo

 

Luís Contente tem 58 anos e é natural de Beringel, a sua terra natal, apesar de ter de lá saído aos sete anos de idade. Licenciou-se em Línguas e Literaturas Modernas na Universidade Nova de Lisboa. Exerce a profissão de professor bibliotecário na escola de Santa Maria, em Beja, promovendo o livro e a leitura junto das camadas mais jovens. É membro da Assesta – Associação de Escritores do Alentejo, editou a revista literária “Efémera”, e lançou recentemente um CD de música tradicional alentejana com o grupo Alma Sul, onde toca guitarra.

 

Da sua intervenção no campo das letras destaca-se a obra “Transiberiano, a grande viagem”, e as participações nas coletâneas: "Lugares e Palavras de Lisboa", "Contos Assesta - Alentejo", "Contos Assesta - Água". Como orador, participou no Encontro Ibérico de Leitores Saramago, em Sevilha e em Odemira, onde apresentou a comunicação intitulada "O arquétipo masculino na obra de Saramago".

 

Quando e como foi descoberta a sua vocação para o universo das artes?

 

Considero que, no meu caso, a vocação para o universo das artes nasceu comigo, e não dependeu do contexto social ou familiar em que cresci. Tudo se resume a um fator: a leitura. Os livros abrem-nos horizontes quando o meio social não o favorece, e foi através de uma arte curiosa, classificada como nona arte, que entrei no universo da imagem e da palavra. A banda desenhada foi a minha formação primeira. Ainda adolescente, vivia aventuras incríveis, viajava por países desconhecidos, descobria civilizações perdidas no tempo. Contar as minhas histórias foi algo que surgiu mais tarde, com a literatura, após ler "Pela estrada fora", de Jack Kerouac. Também eu queria andar à boleia pelo continente americano ou outro, e escrever sobre essas experiências. Daí até ter vivências semelhantes, registá-las e publicá-las foi um passo que aconteceu na idade adulta. O “bichinho” da narração estava lá. Mas a minha escrita resulta sempre de uma vivência, e não de um produto da imaginação. Está, no entanto, longe do registo meramente informativo, aproximando-se mais da efabulação. Há quem o faça muito bem, como é o caso do escritor polaco Ryszard Kapuscinski, que consegue fazer literatura transformando uma peça jornalística numa obra de arte. O seu fenomenal "Ébano, Febre Africana" é bem a prova disso.

 

Que papel desempenham as viagens na escrita do Luís Contente?

 

O gosto pelas viagens começou muito cedo, nos anos 70, e a primeira de todas foi feita de comboio, a caminho das terras de França, seguindo o percurso de milhares de emigrantes. A estação de partida chamava-se Santa Apolónia e os serviços de emigração forneciam aos viajantes um ‘kit’ de viagem do qual constava algo de curioso e estranho para um garoto de sete anos, e não só: latas de atum. Algo invulgar para a época, mas saboroso. A partir daí, durante muitos anos, a romaria a Portugal fazia-se numa velha Renault 4L. A aventura durava três dias, atravessando as extensas planícies de Espanha e os tortuosos Pirenéus, onde o caminho não passava de uma estreita estrada de montanha. Escrever não era ainda uma necessidade, mas prometia. Era inevitável que estas experiências fizessem parte das redações escolares e que as composições de adolescente refletissem este gosto pela viagem, pelo desejo de partir, pela descoberta. Mais tarde, escrever foi a melhor opção que encontrei para registar os momentos, as emoções dos lugares, a magia das belezas encontradas, os sabores e os cheiros. Um parágrafo sobre o Nilo leva-me de novo para o Egito, umas frases sobre o Peru e surgem-me os Andes em toda sua grandeza, uma página sobre a Mongólia e lá estão, de novo, os cavalos a galopar pelas planícies sem fim. A escrita permite-me recriar esses ambientes fascinantes. Há quem o consiga com a fotografia. Eu recorro mais ao que chamo de "pintar por palavras" onde cada vocábulo é uma das cores da imensa palete alfabética que temos à nossa disposição. Da feliz combinação dessas cores pode surgir algo de excecional, emotivo e não apenas descritivo. Fico sempre surpreendido quando me dizem que já leram duas vezes o meu "Transiberiano", e que ao ler a obra fizeram a viagem comigo.

 

Quantas viagens já valeram livros?

 

Tenho várias histórias na gaveta que aguardam melhores dias para publicação. Destaco uma viagem a Cuba, em perfeita autonomia, sem passar por agências de viagem, seguindo um pouco o lema do Gonçalo Cadilhe, pegar na mochila e partir à aventura, recorrendo a transportes locais, indo a restaurantes pouco conhecidos e dormindo em pensões baratas. Tenho ainda outros que publiquei na internet, "O Caminho Inca, uma Viagem ao Peru”, assim como "Egito", que qualquer dia penso publicar em formato impresso.

 

E a música, que papel desempenha no seu mundo?

 

Escrever é um ato solitário e pode tornar-se doloroso. O escritor vive isolado, criando cenários, encerrado no seu mundo. A música é uma forma de sociabilização. Todo o ser humano precisa dessa ambivalência.

 

Ser alentejano e viver no Alentejo é uma fonte de inspiração ou de limitações para a carreira?

 

Nós, alentejanos, temos a planície no coração, as grandes extensões por horizonte. Esta forma de estar não deixa de me influenciar na minha busca. Nova Iorque é uma cidade bela e tem a modernidade de Álvaro de Campos. Mas prefiro a imensidão do silêncio noturno das areias de Douz, no deserto tunisino, ao frenesim opressivo dos arranha-céus de Manhattan.

 

Dos trabalhos desenvolvidos ao longo da carreira, algum foi o mais marcantes?

 

Penso que a edição do CD com os Alma Sul foi uma experiência coletiva muito marcante porque é algo fora do meu domínio, e que não estava previsto alguma vez realizar, uma vez que não me considero músico, apesar de ter o quarto grau de guitarra clássica.

 

Qual a importância das novas tecnologias no percurso artístico de Luís Contente?

 

As novas tecnologias estão aí. Não as podemos ignorar. Temos é de saber utilizá-las da melhor forma. O Facebook foi o trampolim que me permitiu chegar mais além. Entrei para os Alma Sul porque o fundador do grupo me viu numa fotografia com uma guitarra na mão. Publiquei "Transiberiano, a Grande Viagem" após a editora Lugar da Palavra me ter contactado através dessa rede social. A revista que editei, a “Efémera”, era uma revista digital, de divulgação ‘online’.

 

E o acordo ortográfico, qual o seu posicionamento face à polémica?

 

Essa discussão já não se coloca. Contacto todos os dias com jovens que nunca ouviram falar de outra forma de escrever. Nem sabem o que significa o "antes" e o "depois" do acordo. E são estes jovens que vão definir como é que se vai continuar a escrever.

 

Como tem vivido este período de ‘stand by’ no mundo?

 

Curiosamente, pensei que com o confinamento ia produzir tudo o que não tinha conseguido fazer por falta de tempo. Foi um erro pensar assim. Só consigo fazer alguma coisa sob pressão, e ter todo o tempo do mundo limita-me a criatividade.

 

O que está na “manga” a curto e médio prazo?

 

O meu grande projeto para o fim da pandemia é publicar "Território Austrália", uma travessia completa desse grande continente desde Darwin, no norte, até Sydney, mais a sul, pela mítica estrada Stuart Highway. O livro está pronto, precisa só de uma revisão de última hora, e que a covid-19 desapareça de vez.

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