Diário do Alentejo

Livro assinala 500 anos da reelevação de Beja a cidade

05 de maio 2021 - 16:15

Beja celebrou no passado dia 10 de abril o quinto centenário da sua reelevação à classe de cidade. A data foi assinalada, no Museu Regional Rainha Dona Leonor, pelo lançamento do livro “Infanta D. Beatriz – Duquesa de Beja”, de M. L. Casteleiro de Goes. Natural de Nossa Senhora das Neves, é licenciado em Direito pela Universidade Clássica de Lisboa, encontra-se aposentado da função pública. Nos últimos anos tem-se dedicado à historiografia da cidade, da freguesia da sua naturalidade e também da aldeia de Cabeça Gorda, Beja. Tem editado, em livro, outros trabalhos, com destaque para a sua genealogia paterna e materna.

 

Como nos apresenta este seu livro?

Trata-se de uma “memória” dedicada à primeira e única titular-consorte do ducado de Beja, criado em 1453, senhora cuja forte personalidade lhe condicionou a vida de mulher e mãe e, provavelmente, também a de esposa mal-amada. Fadada, em princípio, como todas as mulheres da sua época, a dar muitos filhos ao varão que a desposasse, cumpriu bem tal desiderato e foi mãe de uma numerosa prole de nove infantes de Portugal. Ficou viúva aos 40 anos, desde quando passou a revelar-se uma “mulher muito inteira”, como a classificou o cronista Garcia de Resende. Da sua atividade diplomática sobressai a negociação das pazes entre Portugal e Castela, ato de que resultou o primeiro convénio transoceânico do mundo – Tratado de Tordesilhas. É deste grande feito político e da sua invulgar capacidade de gerar consensos ao mais alto nível que falo neste livro.

 

De que forma o poder e a influência desta personagem feminina, Duquesa de Beja, marcaram, no século XV, o destino da cidade?

A sua linhagística e enorme fortuna pessoal colocavam-na no nível primeiro da alta nobreza ibérica e, como familiar muito chegada das diversas famílias reais europeias, enquanto membro da realeza de Portugal, teve tudo para ser a mulher distinta que soube ser. Temporariamente confinada em Beja, após os trágicos sucessos resultantes do drástico falhanço dos dois atentados tramados no seio da sua família, D. Beatriz não abandonou o seu pertinaz desiderato no que era apoiada pela rainha D. Leonor, sua filha, e, a partir de então, consagrou a sua longa vida à conclusão do seu Real Mosteiro de Santa Maria da Conceição, que quis fosse a mais promissora e virtuosa casa religiosa do Reino de Portugal. Sua Senhoria queria muito que o seu convento fosse o motor do desenvolvimento de Beja e que o povo o visse e aceitasse como tal, o que conseguiu plenamente, tanto que o rei, seu filho, D. Manuel, congratulando-se, em 1504 com os progressos da vila, ordenou à edilidade bejense que, gratuitamente, facultasse terrenos para novas edificações, de modo a expandir-se para fora das muralhas.

 

Como autor deste livro, quais os traços de personalidade da Infanta D. Beatriz que mais destacaria?

Não sendo possível relatar, em poucas palavras, os principais traços da forte personalidade da Infanta D. Beatriz, parte dos quais já referidos, o leitor, ao tomar deles conhecimento através da leitura do livro, fará o seu juízo sobre o assunto. Em meu entender, jamais alguém em Beja, em qualquer tempo, poderia ter ombreado com tão ilustre personalidade da nossa história local. Seria absurdo admiti-lo.

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