Diário do Alentejo

“A cultura, em todas as suas formas de arte, não devia ser penalizada desta forma”

01 de abril 2021 - 10:15

Texto Luís Miguel Ricardo

 

Artur Silva nasceu em Lisboa há 44 anos, mas mudou-se com a família para a vila de Ferreira do Alentejo aos sete anos de idade, localidade onde reside até aos dias de hoje. É licenciado em Engenharia Informática, tendo lecionado, durante alguns anos, no ensino público e na formação profissional.

 

No mundo das artes, começou a tocar guitarra aos 14 anos de forma lúdica com um grupo de amigos e, a partir dessa altura e durante alguns anos, frequentou o Conservatório Regional do Baixo Alentejo. Diz que a guitarra clássica lhe marcou a adolescência e que fez uso da música original como forma de se expressar. Uma forma que “sempre esteve presente desde o tempo dos Bat-Metal-Sex-Poups com fortes influências de bandas com ‘riffs’ e solos épicos de guitarra elétrica que faziam arrepiar os cabelos de todo o corpo”.

 

Seguiu-se a participação em alguns concursos de bandas, vários concertos em bares com os Triple Trouble, festas e casamentos. Momentos que fortaleceram ainda mais o gosto pela música e o assumir de uma postura mais profissional em idade adulta, participando em diversos projetos musicais como ‘freelancer’ nas áreas do blues, pop, rock, tradicional e popular, de que são exemplos as Tayti, Virgem Suta, Fernando Pardal, Jorge Gabriel, Algazarra, Nova Aurora, Volante, Xeque-Mate, 4ª Série, 70 Volts, NAU, entre outros.

 

Quem é o artista musical Artur Silva?

Não sou artista, sou estudante de música desde o primeiro dia que peguei numa guitarra. Todos os dias tento aprender alguma coisa nova ou melhorar o domínio deste fantástico instrumento e, neste processo, pesquiso, imito, questiono, experimento, escrevo, componho, interpreto e, acima de tudo, divirto-me. Gosto de pensar que existem dois patamares de sucesso no mundo artístico: aquele que o senso comum associa à participação em programas de televisão de novos talentos, gravação de álbuns de platina que vão diretos às ‘playlists’ das músicas mais mediáticas nas grandes rádios e canais de televisão e as atuais plataformas ‘mainstream’, digressões que se estendem por vários meses a pisar grandes palcos para grandes plateias, enfim, o sonho de qualquer verdadeiro aspirante a artista; e depois temos a vida do músico do dia-a-dia, que se desdobra em diversos projetos artísticos para ganhar o sustento da família, com profundo sentimento de realização pessoal e profissional. Qualquer um deles é um longo caminho de constante aprendizagem e adaptação, mas há muito tempo que me encontro neste último.

 

Para além de músico, a arte de ensinar a “domar” a guitarra também faz parte da vida de Artur Silva, e desenvolve-a recorrendo a uma metodologia singular. Que método é este?

Este método consiste numa aprendizagem da guitarra através de um vasto reportório da música portuguesa que abrange técnica do instrumento, ritmo, melodia, harmonia, treino de ouvido, diferentes formas de escrita e leitura, equipamentos e novas tecnologias. O aluno começa desde logo a tocar canções e, de forma gradual, vão-lhe sendo dados os conhecimentos teóricos musicais, ou seja, um caminho da prática para a teoria.

 

Quando e como começou a paixão pela música?

Venho de uma família de não músicos que vivem no Alentejo. Os meus pais não são nada musicais, mas sempre me apoiaram. Diria que tinha tudo para dar errado, mas deu certo. Apesar de ter começado tarde, aos 14 anos, a música sempre esteve presente, todos os amigos, professores, colegas, alunos com quem me cruzei e me cruzo são boas influências.

 

Dos vários trabalhos e/ou projetos realizados, alguns a destacar?

Os principais trabalhos realizados são sempre os de agora, porque é para onde canalizo toda a minha atenção, energia e criatividade. Tenho trabalhado a solo como músico residente na Herdade dos Grous desde 2013 e, atualmente, integro os 4.ª Série, os NAU, os 70 Volts, os Ronda da Alegria, os Vozes de Encante, tenho um duo com o guitarrista Vítor Guerreiro e integro o Grupo de Teatro Ritété.

 

Como nascem as canções de Artur Silva?

Depende. Como método, costumo escrever algumas frases que ouço e que me fazem sentido, para mais tarde trabalhar numa letra. Outras vezes, gravo algumas melodias cantadas ou tocadas na guitarra para tentar criar algo, mas também tenho alturas em que, sem estar à espera, as ideias surgem, pego de imediato numa folha de papel, na guitarra e começo a escrever.

 

Viver no Alentejo é fonte de inspiração ou de limitações para a carreira?

A qualidade de vida das famílias no Alentejo pode ser muito boa, temos boa gastronomia, bom vinho, muito espaço aberto. Para a carreira de músico do dia-a-dia, infelizmente, não existe assim tanto trabalho, pelo facto de não existir mercado suficiente. Quem vive exclusivamente da música vê-se obrigado a percorrer muitos quilómetros para assegurar trabalho com regularidade e, neste ramo de atividade, quem está longe rapidamente é esquecido.

 

Que papel desempenham as novas tecnologias na carreira musical de Artur Silva?

Confesso que não costumo dedicar muito do meu tempo às novas tecnologias para promover a carreira. Quando penso em música tenho de ter uma guitarra nas mãos, não um computador ou telemóvel, exceto quando estou em gravações. Quando estou em gravações são horas intermináveis em frente ao monitor e às colunas.

 

Como está a ser a experiência de compositor e voz dos trechos musicais da “teatrela” Novos Rumos?

A experiência já vem de há alguns anos, quando fiz alguns temas para peças de fantoches do Grupo de Teatro Jodicus, da Cabeça Gorda e, obviamente, todos os projetos musicais desenvolvidos ao longo dos últimos anos para diversas peças do Grupo de Teatro Ritété, de Ferreira do Alentejo, do qual faço parte. Quando me apresentam um tema ou uma personagem como referência, tenho mais facilidade em escrever e compor do que se for eu a definir um ponto de partida. Para a “teatrela”, conversei com a Maria Ana Ameixa, autora do texto, e com toda a equipa de atores e atrizes do Grupo de Teatro Ritété, para entender um pouco melhor as personagens. E depois, neste contexto, foi dar largas à imaginação.

 

Como tem sido vivido este período de “stand by” no mundo?

Infelizmente, tenho uma visão muito negativa deste “stand by” indefinido. A cultura, em todas as suas formas de arte, não devia ser penalizada desta forma. O Governo não soube de todo gerir esta situação e não podemos achar que as novas tecnologias são a solução, porque Portugal e os portugueses não estão preparados para esta transição virtual da cultura de uma forma tão brusca. Eu, para criar, tenho de me sentir feliz!

 

O que podemos esperar do músico Artur Silva a curto e médio prazo?

Se me deixarem trabalhar/tocar ao vivo, vão certamente encontrar-me por aí em algum dos projetos que mencionei anteriormente.

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