Diário do Alentejo

Crónica de José Filipe Murteira: ‘Que es esto’?

23 de julho 2020 - 18:00

A pergunta foi feita há cerca de um ano, no largo da pousada, por um casal de turistas espanhóis. Referiam-se ao Monumento ao Preso Político, de Jorge Vieira, que se encontra nesse local. Expliquei-lhes um pouco da história da escultura, bem como do seu autor. Pessoas interessadas, ficaram com pena de não poder aceder ao museu, na altura encerrado, prometendo voltar um dia.

 

Situações idênticas já tinham ocorrido outras vezes. Ao atravessar o jardim público, um casal de franceses com uma filha pequena pediu-me para lhes tirar uma foto junto à estátua do Lidador, aproveitando para me questionar quem era esse ‘guerrier’, tendo eu narrado um pouco da lenda de Gonçalo Mendes da Maia. Noutra altura foi um casal de brasileiros, paulistas, que não percebia o porquê de uma estátua e praça com o nome de Raposo Tavares (nome de uma importante rodovia que se inicia em São Paulo), para além da Avenida do Brasil.

 

Para aumentar a “confusão” indiquei-lhes a rua com o nome da sua cidade e falei-lhes ainda do senador do seu estado (José Hermínio de Moraes) que presidiu à comissão que em 1966 ofereceu a estátua a Beja e que também tem uma rua com o seu nome ali bem perto. Pessoas cultas e informadas, não sabiam que Raposo Tavares era natural do distrito (e não da cidade) de Beja, mas tinham uma opinião bem formada e consistente sobre o papel desse e de outros bandeirantes na história do Brasil (para bem e para o mal).

 

Estas três pequenas histórias vêm a propósito de uma situação que há muito tempo existe e que poderia ser resolvida (ou atenuada) com algum investimento municipal. Trata-se da identificação da arte pública existente em Beja, das mais diversas épocas e géneros, como as atrás referidas, ou outras: esculturas de João Cutileiro no jardim do tribunal e de Noémia Cruz no Largo de São João, painéis de azulejos do jardim público (recentemente restaurado) e no Núcleo Museológico do Sembrano (de Rogério Ribeiro), obras de Vhils e de Bordalo II. Ou ainda identificar as obras de arte que se situam nas rotundas das entradas da cidade, a exemplo do que existe em outras localidades, como em Tavira. E assim, muitos dos visitantes ficariam a saber que numa dessas rotundas existe uma escultura do citado (e consagrado) Jorge Vieira.

 

Esta informação completaria a que há pouco tempo foi implantada, com a colocação de 23 totens em locais públicos da cidade, mesmo que não seguisse os mesmos estilo, design e materiais. Hoje, para um visitante, nacional ou estrangeiro, praticante do chamado “turismo cultural”, bastaria uma referência à obra e ao autor, em painéis adequados, com a indicação do site (eventualmente da própria autarquia), onde se poderia pesquisar informação mais detalhada, para poder completar os elementos biográficos e artísticos constantes nesses painéis.

 

Deste modo, os turistas brasileiros de que atrás falei poderiam, quando regressassem ao seu país, pesquisar a razão da existência em Beja de uma estátua de Raposo Tavares, nascido em São Miguel do Pinheiro e falecido em São Paulo, cidade onde viviam.

 

ESTÁTUAS

Voltando a Raposo Tavares, o “Diário do Alentejo” abordou, na sua última edição, a questão da destruição de estátuas em vários países, na sequência do brutal assassinato de George Floyd. Não adiantarei nada, quer ao artigo de Carlos Pereira, que narrou alguns dos acontecimentos que têm ocorrido em vários países, quer à análise de Santiago Macias, com a qual estou, globalmente, de acordo.

 

Ninguém pode negar as políticas colonialistas dos “vencedores”, às quais estão associadas violentas práticas esclavagistas e racistas. Mas não se pense que agora, em pleno século XXI, são os “ajustes de contas” com estátuas de confederados ou de bandeirantes que podem mudar mentalidades. Pelo contrário, no limite, alguns desses atos dão argumentos a personagens que cultivam o racismo, como Trump ou Bolsonaro.

 

Por exemplo, ainda que Raposo Tavares seja responsável por práticas de extrema violência sobre os índios brasileiros, seria difícil para muitas gerações de habitantes de Beja (e da região) assistir à retirada da sua estátua, não só pela sua imponência, mas porque se habituaram à sua presença naquele local há mais de 50 anos. Eu próprio, quando vim estudar para Beja aos 10 anos, habituei-me a conviver diariamente com aquela estátua, já que por aí passava quando ia para a gare rodoviária apanhar o autocarro para a aldeia.

 

Refira-se, por sinal, o aceso debate que tem ocorrido no Brasil, acerca de um abaixo-assinado que visa a remoção da estátua de outro bandeirante, Borba Gato, num bairro de São Paulo. De resto, já em 2016 essa estátua e um outro gigantesco conjunto escultórico dedicado aos bandeirantes, também nessa cidade, foram alvo de pichagens.

 

Santiago Macias tem razão quando escreve que “… é preferível a contextualização à destruição, a pedagogia à negação. Porque a outra tentação, a do apagamento, é claramente perigosa “. Só que, para que essa pedagogia tenha lugar, não é possível continuar a desvalorizar-se o ensino da História, nomeadamente no 3º Ciclo do Ensino Básico, diminuindo as horas atribuídas a essa disciplina, num programa que vai da pré-história à atualidade. Comparando com o que acontecia há cerca de 20 anos, são muitas horas a menos em cada um dos três anos desse ciclo, levando os professores a terem de optar por “sacrificar” algumas matérias ou chegar ao fim do 9º ano na 2ª Guerra Mundial. Escolha sempre difícil, diga-se. Como explicar, assim, aos alunos, problemáticas como aquelas que rodeiam o bandeirante, em cuja estátua alguns vão festejar as vitórias dos seus clubes? Ou comparar a ditadura com a democracia trazida pelo 25 de Abril?

 

No ensino secundário, então, nem se fala. Apenas para os alunos de humanidades e alguns (poucos) de Economia, onde a História é obrigatória ou opção, respetivamente. Há três anos, num debate onde estava o secretário de estado João Costa, coloquei-lhe a questão do conhecimento histórico para todos os alunos do secundário (tema de que se falou algum tempo depois, mas que rapidamente se esqueceu). A resposta do governante foi que essa questão fora colocada por razões corporativas, que visava a atribuição de mais horas à disciplina, criando mais lugares para os respetivos docentes. Sem comentários.

 

Por coincidência, na véspera da saída do “Diário do Alentejo” que abordou o tema, a revista “Sábado” trazia um interessante artigo intitulado “O museu que guarda estátuas incómodas”. Nela, Urte Evert, a diretora desse museu afirma: “Os problemas da História que moldaram o presente não desaparecem com a remoção dos símbolos. Por vezes retiram-se os símbolos para não se lidar com os problemas reais, racismo, misoginia, antissemitismo (…) fazer do terrível passado objeto de discussão e criarmos um presente e futuro melhores”.

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