Diário do Alentejo

Eduardo Barão: Vocação

07 de maio 2020 - 11:35

“O meu pai jogou futebol de cinco, chegando até a jogar na primeira divisão. E eu sempre tive o ‘bichinho’ da bola. A vocação foi descoberta num dia de praia, em tempo de férias. O meu pai é que ia sempre para a baliza, porque eu não gostava. Um dia fartou-se e fez com que fosse eu o guarda-redes. Comecei a atirar-me e até a ‘voar’ para a bola, como se costuma dizer. E pronto, estava identificada a minha vocação”.


Texto: Firmíno Paixão


Eduardo Barão, atual guarda-redes do Despertar Sporting Clube, de Beja, nasceu no dia 20 de maio de 1984, em Caldas da Rainha. Identifica-se como “um homem simples, pacato, reservado, humilde, trabalhador, amigo e perfeccionista”. Tudo o que faz tenta que seja bem feito, reforça o atleta que, logo aos cinco anos de idade, foi viver para o concelho de Pombal, revelando que “apesar de todas as dificuldades que tive na minha infância, sempre fui uma criança feliz. Tentei sempre ver o lado positivo das circunstâncias da vida. Por isso, é difícil enumerar todos esses momentos de felicidade”. A viver numa região claramente eclética ao nível da oferta desportiva, Eduardo Barão recorda que a sua aposta recaiu apenas no futebol, apesar de ser o basquetebol a sua modalidade preferida, seguidor fiel dos jogos do campeonato norte-americano (NBA). “Nunca se proporcionou essa experiência [de jogar basquetebol]”. Outra qualidade que possui e que não enumerou na autoavaliação anterior é a capacidade de reconhecer os próprios erros. “Não passei do 11º ano de escolaridade. É o meu erro do passado, mas estou a tentar corrigi-lo. Concorri à universidade através do programa de acesso para maiores de 23 anos e consegui entrar no curso de gestão de empresas. Falta arranjar tempo para o terminar, mas penso que será num futuro próximo”. A trabalhar na Somincor, numa função administrativa e à superfície, por ora, lá vai conciliando os compromissos profissionais com os desportivos. Como já se leu, foi um pouco “empurrado” pelo próprio pai para entre os postes de uma baliza, mas rapidamente percebeu que esse era o lugar onde sentia que podia ter melhor desempenho. “Um jogador tem que saber as suas limitações”, refere. “É a posição onde me sinto confortável e onde as minhas características físicas se adequam. Também é a posição que combina perfeitamente com a minha mentalidade e personalidade”.

 

O primeiro equipamento que vestiu tinha o emblema da Naval 1º de Maio, da Figueira da Foz. “Tinha 11 anos, ainda não era federado, nem pensava nisso. Só jogava futsal no desporto escolar, no Instituto D. João V. Na brincadeira, fomos fazer um torneio na Costa de Lavos, perto da Figueira da Foz. Correu bem, ganhámos o torneio e eu fui eleito o melhor guarda-redes. Estava lá um dirigente da Naval que foi falar com o meu pai. Experimentei e fiquei. Começou por aí o meu percurso no futebol federado”, recorda. A família assumia os custos com a deslocação entre o Louriçal, onde vivia, e a Figueira da Foz. Era muita despesa, por isso, em dado momento, trocou de camisola: “O Sporting de Pombal ia buscar-nos à escola e, no final do treino, deixava- nos em casa. A nível futebolístico também fiquei a ganhar porque estávamos no campeonato nacional de iniciados e jogávamos contra a minha antiga equipa. Fui muito bem tratado em Pombal. Será sempre o clube do meu coração. Como me considero de Pombal, então sim, joguei cinco épocas no clube da minha terra. Não nos seniores, mas nos escalões de formação”. Sem ter renovado o compromisso com os pombalenses, ruma ao sul e começa uma nova aventura nas planícies do Campo Branco: “Vim passar férias para casa da minha avó, em São Marcos da Ataboeira, a terra natal do meu pai. O futebol está no sangue desta família. Tenho primos que jogam e todos eles com muita qualidade”. Sem clube para continuar a carreira, pediu informações sobre qual seria o melhor projeto. “Disseram-me que era o Castrense. Fui lá treinar, acabei por ficar, mas era o terceiro guarda-redes, com o Abelha e o João Paulo”. Sem grandes oportunidades de jogar, rumou ao São Marcos, para “um clube de pessoas sérias e com um coração tremendo. Foi o melhor que me podia ter acontecido.

 

A partir daí foi sempre a subir, representando clubes de topo no nosso distrito, onde consegui conquistar vários títulos”. Muito crítico relativamente ao seu desempenho, reconhece ter tido “bons jogos” mas, acrescenta ter sido sempre aos “menos conseguidos” que deu maior importância. “Com esses é que tinha que aprender e melhorar”. De resto, nestes 15 anos em palcos alentejanos, diz ter tentado sempre “assumir um comportamento exemplar com adversários, adeptos e árbitros”. Recentemente foi chamado à seleção distrital. “Era um objetivo que tinha. Foi com muito orgulho que representei a nossa Associação de Futebol de Beja”, confessa Eduardo Barão, feliz com o seu percurso desportivo: “O futebol faz parte da minha vida há mais de 20 anos. Já são muitos momentos de alegria e de tristeza, mas todos vividos duma forma muito intensa. Quando isto tudo acabar vão ficar as recordações futebolísticas e as amizades que fazemos neste mundo do futebol”. Mas fica a dúvida. Se tivesse continuado na região centro, teria conseguido chegar a um clube de maior expressão nacional? “Possivelmente teria. Ficará sempre essa dúvida, mas foi uma decisão que tomei. São escolhas que fazemos na vida e não me arrependo de as ter tomado. Considero-me um homem feliz”. Falta-lhe, contudo, realizar um sonho: “Gostava de ter voltado a Pombal. Nem que fosse para defrontar o Sporting de Pombal, na Taça de Portugal”.

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