Diário do Alentejo

Fernanda Mestre: Canoagem

22 de agosto 2019 - 14:10

“Gosto muito de ouvir as pessoas. Conhecemos muito pouco da vida e isolados não somos nada. Quando tenho de tomar decisões tento ouvir as pessoas, faço isso no meu quotidiano e não apenas como presidente do clube. Tento logo afastar algo que possa ser gerador de conflitos. Sou conciliadora. Uma casa como esta, uma associação, tem de viver com todos e para todos. Tem de ser inclusiva. Se começar a afastar este, aquele e o outro, não cumpre o seu papel social na plenitude”.

 

Texto e Foto Firmino Paixão

 

Uma autoavaliação, um perfil ou, se quisermos, uma forma de estar de Fernanda Mestre, atual presidente do Clube Náutico de Mértola. Nasceu há 49 anos, em Tacões, na freguesia de São João dos Caldeireiros, no concelho de Mértola. Técnica bibliotecária na Biblioteca Municipal de Mértola, tem licenciatura em Animação Sociocultural, é dirigente do CAS – Centro de Apoio Social aos Trabalhadores da Câmara Municipal de Mértola e voluntária da Liga Portuguesa Contra o Cancro. Uma mulher de causas.


Se calhar, qualidades que herdou do seu pai, impulsionador da Sociedade Recreativa de Tacões, onde Fernanda aprendeu a dar a mão ao próximo. “O meu pai era fiscal municipal e, na época, começaram a surgir as associações em terras mais pequenas. Ele foi o impulsionador da Sociedade Recreativa de Tacões e eu, em miúda, já delirava com aquilo. Organizávamos os bailes, eu estava sempre presente, as outras queriam dançar e eu queria ajudar. Enquanto os homens jogavam ao xito, nós trabalhávamos para eles terem o petisco, enquanto as outras dançavam, eu estava vendendo bilhetes, porque aquilo tinha de resultar. Desde menina que senti essa vontade”.


Mas, recuando aos tempos da escola primária, contou Fernanda que era nela que a professora delegava para preparar o lanche. “O leite não vinha em pacotinhos, como agora, vinha em garrafas de litro que tinham de ser despejadas numa panela, para o leite aquecer, e distribuir aos alunos. E eu, com sete anos, fui quem a professora responsabilizou para, chegado o momento, sem precisar que ninguém me dissesse nada, me levantasse da secretária, fosse aquecer o leite e voltasse quando todos pudéssemos ir lanchar”. Eram gestos, sinais premonitórios que lhe haveriam de marcar o percurso de vida. Espírito de liderança? “Não sei se era espírito de liderança. Era o sentido de querer fazer, de querer ajudar. Estas coisas definem um bocadinho o caráter e o perfil da pessoa”.


Vivendo em Mértola a partir dos 10 anos, estudou na Escola de São Sebastião, alimentando um sonho. “Via-me a fazer um curso de Psicologia, mas sabia que não seria possível, por questões financeiras”.
Trabalhou como voluntária no Clube Náutico, sabendo que o clube não lhe podia pagar. “Tive de pensar em ganhar a vida por conta própria e fui para o Algarve, onde estive dois anos a trabalhar”.


Com a saudade da terra natal sempre latente, foi nesse território, a sul, que lhe chegou a boa nova de que o município da Vila Museu projetava abrir uma biblioteca. Então, “ala que se faz tarde”. “Fui, por minha conta e risco, para o Porto fazer um curso profissional de técnica de biblioteca, para conseguir voltar à minha terra e ter aqui o meu ganha-pão. Felizmente isso aconteceu”.


Voltou à terra, mas lá está, havia um compromisso por realizar, o tal curso superior que já podia não ser de Psicologia. “Soube que existia um curso de Animação Sociocultural e pensei: é isto que eu quero fazer, é este o curso com o qual me identifico”.


Estava com 32 anos. Desde os 22 que trabalhava na Biblioteca de Mértola, mas decide-se por abraçar o novo desafio na Escola Superior de Educação de Beja. “Foi difícil, eu tinha ligação aos livros, até pela minha formação profissional, mas é diferente ler por prazer do que ler para aprender, embora também seja um prazer aprender. Mas é um registo diferente. E assim foi”.


Terá sido com esta coragem, este espírito de missão, que Fernanda Mestre assumiu muito recentemente a presidência do Náutico. “Sim, completamente. Foi assumido com verdadeiro espirito de missão. Sabia que o clube estava a passar por uma fase difícil mas, mesmo assim, resolvi aceitar o desafio, porque acho que se todos baixarmos os braços muita coisa acabará. Claro que eu não me julgo ‘a última bolacha do pacote’, sei que vou ter muitas dores de cabeça. Vou ter que chorar muito, antes de dar uma gargalhada, para que as coisas surtam realmente efeito e entrem no bom caminho. Mas acho que vamos lá”.


Acreditamos que sim. Uma mulher constrói melhor as pontes para o diálogo, é mais tolerante e conhecemos o espírito conciliador da dirigente. “Estou a sentir-me bem neste papel. Estamos constantemente a aprender, essa é uma linha que nos persegue a vida inteira. Mas aqui é preciso aprender com o passado, ter noção do que estamos a fazer no presente e ver o que isto dará no futuro. Se calhar, os homens não serão tão empenhados”. Talvez por isso, revelou, entre sorrisos, “o Náutico tem uma mulher, o Guadiana tem uma mulher, os bombeiros têm duas mulheres, o Núcleo do Sporting tem uma mulher. Os homens já estão muito cansados ou as mulheres libertaram-se agora”.


Com a tranquilidade das águas mansas do Guadiana a servirem-lhe de inspiração, Fernanda, certamente, terá metas por cumprir. “Sim, no contexto profissional. Obviamente que quando vamos estudar aos 32 anos e apostamos as fichas todas é para aprendermos, mas também para termos um nível de vida diferente. Continuo a ser técnica de biblioteca, até ao momento ainda não houve disponibilidade da autarquia em me reconduzir para técnica superior, continuo a desempenhar o meu papel o melhor que sei e posso, pondo ao serviço da autarquia as habilitações que adquiri”.


E o último desafio foram as quatro palavrinhas mágicas para respostas curtas: Guadiana? Vida. Kayak? Meio de transporte. Vila Museu? Encantada. São João dos Caldeireiros? A minha terra.

 

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