“Estou muito orgulhoso de ter conquistado o título europeu, porque aconteceu numa altura em que eu estava um bocadinho a tentar deixar a modalidade. Já estava um pouco saturado, mesmo ao nível de organização de provas da Associação de Setas do Algarve, ainda assim, no próximo ano, tentarei renovar essa distinção”.
Texto | Firmino Paixão
O empresário bejense Luís Ameixa, 34 anos, é um dedicado praticante e dirigente da modalidade de setas. Preside, atualmente, à Associação de Setas do Algarve e integra o grupo de trabalho que quer refundar a Federação Portuguesa de Setas e atribuir à modalidade o estatuto de “desporto federado”. O título europeu conquistado, no final do ano passado, reacendeu a sua paixão pela modalidade, numa altura em que a desmotivação era crescente. “Custa um pouco andar sempre fora de casa, muito ausente, mas recebi essa prenda numa das provas do circuito europeu, que é neste momento o campeonato europeu. Surgiu de uma forma inesperada, fui mesmo naquela de ‘seja o que Deus quiser’ e, afinal, consegui vencer. Um título que me deu mais combustível para continuar a competir”, justificou o ainda jovem gestor. Na juventude teve uma passagem efémera pelo futebol, jogou basquetebol no Despertar e no Beja Basket Clube, admitindo: “Tive umas lesõezinhas à mistura, ainda passei pela arbitragem, mas foi uma atividade que não vingou”. Oriundo de uma família ligada à “festa brava” e à columbofilia, Luís destoou da tradição familiar. “Acho que serei o único que não seguiu por aí. Na festa brava, desde a perda do meu avô, afastei-me completamente. Antes íamos a todas as touradas, às vezes, os fins de semana eram preenchidos com dois espetáculos sempre na companhia dele, mas na área da columbofilia, embora o meu tio e o meu primo continuem a praticar, eu nunca fui adepto, até porque tinha um bocadinho de alergia que não aconselhava essa prática”. O seu alvo foram as setas: “As setas surgiram de um modo recreativo, no café, em convívios com os amigos. Fui convidado para integrar uma equipa de setas num barzinho que, na altura, existia em Beja, na rua dos Infantes. Começámos a praticar e os meus amigos formaram uma equipa para disputar a terceira divisão de Beja onde competiam entre 40 a 50 equipas da cidade. Comecei a jogar, fui evoluindo, tomei-lhe o gosto, passámos a andar de café em café e a coisa pegou. Criámos algumas equipas com mais qualidade até que, mais tarde, fui convidado para uma equipa da 1.ª liga e continuei sempre no auge até aos dias de hoje”. Há cerca de 10 anos que se ligou a uma equipa algarvia. “Umas vezes ganhamos, outras não, mas temos conseguido andar sempre no topo, sempre ao mais alto nível”, reconheceu Luís Ameixa, confirmando que o percurso tem sido de excelência. “Tanto em pares, como equipas e mesmo ao nível individual, temos conseguido alguns títulos. As setas são um universo muito grande, com grandes jogadores em todo o lado e, graças a Deus, já consegui ser campeão nacional individual, campeão nacional por equipas, nos pares, em sisal é que ainda me tem fugido. Tem sido um percurso positivo e cá estaremos ainda para tentar mais uns quantos títulos”. Por impedimento do presidente da associação, enquanto vice-presidente foi cooptado para assumir a liderança do organismo até ao próximo ato eleitoral, cargo que se propõe manter porque, adiantou, “infelizmente não existe muita gente disponível para assumir cargos diretivos”. E faz todo o sentido porque também tem em mãos outros desafios de enorme importância: “Neste momento existe um projeto com as seis associações de setas do país, Porto, Lisboa, Setúbal, Zona Oeste, Santarém e Algarve, que, em conjunto, estão a tentar reativar a Federação Portuguesa de Setas e tornar a modalidade um desporto federado, como já foi há uns anos, estatuto que deixaram cair por má gerência da federação. Neste momento existem muitos problemas que estamos a tentar solucionar. Talvez em 2027 já a federação esteja novamente de pé”. Como empreendedor que é, em março de 2024 trouxe para a sua cidade uma prova nacional de apuramento para o Campeonato do Mundo de Setas, oportunidade para a projeção da modalidade e aumento de praticantes na região alentejana. Os resultados, admitiu, ficaram aquém do esperado. “Muito sinceramente, acho que não teve um grande impacto. Tivemos pena, porque fizemo-lo na sequência de um desafio do município de Beja para que trouxéssemos para cá uma prova. Conseguimos trazer o apuramento para o Campeonato do Mundo e organizámos o Torneio Cidade de Beja”. Na altura, as más condições climatéricas impediram, de alguma forma, que viessem mais concorrentes, no entanto, acabou por ter uma boa visibilidade, porém, recordou: “Houve muita gente a voltar a jogar às setas, mas, entretanto, houve outros que deixaram de o fazer, ou seja, não serviu muito para catapultar outra vez a modalidade na região, até porque os cafés e os bares são um suporte fundamental e, neste momento, eles não estão prontos para assumir equipas de setas. Não correu como previsto, mas também não foi muito mau, porque voltaram mais duas ou três equipas para a região”. Mas não desistiu, continua empenhado no incremento da modalidade nesta região: “Continuo muito empenhado, até porque a Associação de Setas do Algarve tem jurisdição também no Baixo Alentejo e o que estamos a tentar fazer agora é criar aqui um polo, mantendo o do Algarve e trazermos para aqui as competições no sisal, que é mais recreativo, é meter um alvo na parede, não há moedas, nem nada disso. E, sim, estamos empenhados em dinamizar a modalidade no distrito de Beja”. Sonhos. Quem os não tem? Luís Ameixa, campeão europeu, quer ir mais além, por exemplo: “Assegurar o apuramento para as finais nacionais de sisal, tanto individual, como em pares e equipas, e trazer títulos. Na vertente eletrónica, aguardo ansiosamente por um convite para, através do campeonato europeu, cujo título quero renovar, disputar uma competição de mais valor, que será uma oportunidade de evoluir ainda mais”.