Diário do Alentejo

Empresas do Baixo Alentejo exportam 1,4 mil milhões

04 de junho 2019 - 10:35
Francisco ParreiraFrancisco Parreira

Texto Luís Godinho

 

Foram as convulsões provocadas pela chamada “Primavera Árabe” que levaram a multinacional francesa Pronal a deslocalizar uma fábrica de borracha até então instalada na Tunísia. Corria o ano de 2010. Francisco Parreira, um aljustrelense emigrado há mais de quatro décadas, viu aí a oportunidade de trazer a empresa para a sua terra natal. O projeto da Strucex/Pronal arrancou em 2015 e hoje a empresa dá trabalho a cerca de 80 pessoas. Toda a produção é exportada para França e, daí, comercializada para todo o mundo.


“Trabalhei em diversos países, no Mali, na Malásia, na Tunísia, e a verdade é que a qualidade dos produtos que fabricamos no Alentejo é muito superior”, diz Francisco Parreira, diretor-geral desta unidade fabril.
Todas as semanas saem de Aljustrel dois camiões carregados de borracha. Tanto podem ser depósitos para armazenamento de água ou de hidrocarbonetos, como colchões para suster paredes de habitações em casos de derrocada ou peças para plataformas petrolíferas. “Fizemos nesta fábrica o maior depósito de água do mundo, com capacidade para um milhão e 200 mil litros”.

 

São casos como o da Strucex que explicam o crescimento exponencial das exportações no Baixo Alentejo. De acordo com dados publicados pelo Instituto Nacional de Estatística, as empresas sediadas na região estão a vender cada vez mais para o estrangeiro: em cinco anos, as exportações cresceram 280 milhões, representando agora cerca de 1,45 mil milhões de euros anuais. Sines, Castro Verde e Odemira continuam a ser os municípios mais exportadores. Aljustrel ocupa a quarta posição e regista um crescimento significativo: em cinco anos, as exportações subiram mais de 42 por cento, passando de 103 para 147 milhões de euros.

“São indicadores muito positivos, pois confirmam que a região segue no bom caminho. Para este número contribuiu evidentemente o setor agrícola e agroindustrial, mas também setores como o mineiro, o das rochas ornamentais e o turismo, o aeronáutico, entre outros, que deram um contributo decisivo, ainda que não tão falado nem valorizado”, diz Nelson Brito, presidente da Câmara Municipal de Aljustrel e do Conselho Regional da CCDR Alentejo.

O autarca acredita que o aumento das exportações corresponde a uma tendência “que se irá manter”, embora não esconda a existência de “grandes desafios, nomeadamente, no domínio da sustentabilidade ambiental e social dos territórios, seja com a promoção de uma agricultura ambientalmente mais responsável, seja na mitigação de problemas como o duplo envelhecimento demográfico e a gestão da relação entre as necessidades crescentes de mão de obra e os fluxos migratórios”.

 

“Somos, em muitos aspetos, um concelho inovador e de progresso. Temos, por exemplo, em fase de instalação um grande investimento na área da produção e transformação de canábis. Este investimento, bem como outros já concretizados ou em perspetiva, enquadra-se plenamente numa estratégia de diversificação da base económica que temos vindo a prosseguir nos últimos anos e que deve ser o caminho de Aljustrel e da região Alentejo como um todo”, acrescenta Nelson Brito.

 

Segundo refere, torna-se “urgente” reforçar as redes de acessibilidade que “garantam à região” uma maior competitividade – “Queremos um porto de Sines ainda mais dinâmico, concretizar o itinerário ferroviário entre Sines e o Caia, de importância estratégica para o Alentejo e para Portugal, bem como ligações ferroviárias em rede, alargadas a todo o território” –, além de “clarificar definitivamente” a vocação do aeroporto de Beja.

O presidente da Associação Empresarial do Baixo Alentejo e Litoral (Nerbe/Aebal), Filipe Pombeiro, explica o incremento das exportações com o “melhor desempenho da atividade produtiva da região”, em particular no setor agroalimentar. “Nos concelhos do interior, o azeite e o vinho têm contribuído muito para esses resultados. No litoral, e mais concretamente em Odemira, têm sido os frutos vermelhos”. Filipe Pombeiro sublinha que a reduzida dimensão do mercado interno “obriga” os empresários a procurar “mercados mais globais”, num esforço acompanhado pelo próprio Nerbe: “Temos feito projetos de internacionalização pensados, sobretudo, para as pequenas e médias empresas e essa aposta tem estado a ser ganha”.

 

Beja é agora o quinto município mais exportador, com quase 129 milhões de euros de vendas ao estrangeiro, o dobro do verificado em 2013. Globalmente, Espanha, Alemanha e França são os principais mercados.

 

Ao permitir “maiores produtividades de culturas que já existiam na região, como o olival”, o desenvolvimento do projeto de Alqueva tem vindo a “impulsionar” as vendas nos mercados externos, numa tendência de crescimento que, segundo Filipe Pombeiro, se irá “acentuar” por força da entrada em exploração de novos projetos agrícolas e do alargamento do regadio.
Recorde-se que está aberto o concurso para a segunda fase do Programa Nacional de Regadios com uma dotação global de 93 milhões de euros destinada a financiar projetos situados no Alentejo.

Prioridade: China


Depois da visita do presidente da China a Portugal, no âmbito da qual foram assinados protocolos entre os dois países para permitir a exportação de carne de porco e uvas de mesa, o ministro chinês das Alfândegas visitou esta semana o porto de Sines e a herdade do Vale da Rosa, em Ferreira do Alentejo, a maior produtora nacional de uva de mesa. “Exportamos 30 por cento da nossa produção, que corresponde aproximadamente a cerca de duas mil toneladas de uvas. Vamos começar a exportar diretamente para a China. Temos essa porta aberta e poderá ser um mercado muito importante para nós”, diz Ricardo Costa, diretor comercial do Vale da Rosa.

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