Diário do Alentejo

Ensinar “os valores elementares da gastronomia”

18 de março 2020 - 11:52

Maria Antónia Goes 76 anos, natural de Alvito
É licenciada em Arquitetura pela Escola Superior de Belas Artes de Lisboa. Foi diretora da revista “Alentejo Terra-Mãe”, da fundação homónima. Colaborou com artigos de gastronomia para a revista do Instituto de Emprego e Formação Profissional, com receitas e fotografias de caça nas revistas “Calibre 12” e “Tiro Certeiro”, com um texto na Carta Gastronómica do Alentejo. Tem 30 livros publicados. É confrade de honra da Confraria Gastronómica do Alentejo. Em 2017 e 2018 manteve uma crónica semanal no “Diário do Alentejo”.


Texto: José Serrano


Maria Antónia Goes e a sua sobrinha neta, Bárbara Janeira, apresentaram no último dia 15, na Quinta dos Prazeres, em Alvito, o seu mais recente livro de culinária, intitulado Bê-a-Bá da Cozinha, uma obra dirigida aos mais novos.


Quais as primeiras “palavras” que este seu livro de culinária pretende ensinar?


Este livro, feito e dirigido a crianças, pretende ensinar aos mais pequeninos os valores elementares da gastronomia. A criança que cozinha distingue o doce do amargo, o salgado do insonso, o que faz bem à saúde e o que faz mal. Este é o segundo livro dedicado às crianças que a Bárbara e eu fazemos. Consta de receitas de pratos elementares mas sempre divertidos e apetecíveis: bolachinhas, sanduíches, um bolo de anos que nem precisa de ir ao forno e até um frango assado. No primeiro, a Bárbara era muito pequenina mas agora, com oito anos, já pode fazer outras coisas, ainda que tudo seja muito simples. O trabalho de menino é pouco… mas quem o perde é louco! (As crianças não devem, nem podem, estar sozinhas na cozinha, um adulto tem que andar sempre por perto).


Qual a importância do legado, pelos mais velhos aos mais novos, do património gastronómico?


A nossa região tem um património gastronómico riquíssimo que bem merece ser cultivado e seguido. Nos livros que tenho publicado tento aprofundar e divulgar as raízes, as tradições e até as datas próprias de cada prato – os nogados em cima de uma folha de laranjeira (para mim o doce mais bonito do mundo), no Carnaval, as migas de miolos na terça-feira de Entrudo, o borrego da Páscoa, as ementas dos casamentos.


Poderá a experiência de transmissão da herança culinária ser algo de tão prazeroso que se tornará para sempre uma memória feliz?


Claro que sim. A geração anterior à Bárbara, o pai e o tio, guardam maravilhosas memórias dos ensinamentos da avó e ambos são excelentes cozinheiros e divulgadores da nossa gastronomia.


Qual o prato que considera ser o primeiro bê-a-bá- da cozinha regional alentejana?


A açorda de alho. Quem é que com um bocado de pão duro, uma golada de azeite, um dente de alho pisado com umas ervas – coentros, poejos ou ambas – pode fazer um prato de excelência como a açorda? Só mesmo um alentejano! Gosto de ensinar a nossa cozinha a pessoas que a desconhecem. Dou cursos só com pratos alentejanos, das sopas aos fios de ovos, e as pessoas ficam admiradas com a simplicidade da execução, só quem nunca viu é que não sabe fazer. Mas este não é um livro de cozinha alentejana e nele nem consta a receita da açorda, porque evitamos que as crianças se aproximem do fogão e, sobretudo, de um tacho com água a ferver. Mas garanto-lhe que a Bárbara é a primeira a molhar a sopinha no caldo para ver o sal ou o azeite em falta…

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