Diário do Alentejo

Oferta de táxis quebra 20 por cento no Baixo Alentejo

14 de novembro 2019 - 00:15

Em apenas três anos desapareceram cerca de 20 por cento dos táxis em todo o Baixo Alentejo. Nos concelhos do Alentejo Litoral a quebra foi menor, ficando pelos 13 por cento. No entanto, na cidade de Beja, o número de veículos a trabalhar mantém-se praticamente igual há três décadas.

 

Texto Aníbal Fernandes
Foto José Ferrolho

 

Em 2016, em todos os concelhos do distrito de Beja, estavam recenseados 115 táxis, e no Litoral Alentejano 93. Três anos depois, eram, respetivamente, 93 e 88. Num território em que as distâncias entre povoações são grandes e a oferta de transportes públicos escasseia, o desaparecimento deste tipo de serviço junto das comunidades, podia indiciar, à primeira vista, algum tipo de problema em termos de mobilidade, mas os profissionais do setor com quem o “Diário do Alentejo” falou são unânimes: os que existem chegam para as encomendas. Armando Gonçalves, que marca o ponto na praça de Odemira há mais de 20 anos, confirma o que “muitos taxistas desistiram, outros venderam as licenças e os carros foram trabalhar para outro lado”.

É certo que este expediente não permite aos novos donos dos carros fazer praça noutro local, uma vez que a lei os impede, mas com clientes certos (por exemplo, companhias de seguros) lá vão faturando. Outra explicação para a quebra da oferta prende-se com a mudança de paradigma do cliente. “Os mais velhos, que não tinham carta, vão morrendo, e os mais novos já têm carro”. Em Serpa, a situação é igual. José Guerreiro, taxista há 43 anos, também diz que “toda a gente tem carro”, e para além disso existe o serviço Serpentina de autocarros do município.  Apesar das novas plataformas, tipo Uber ou Cabify, ainda não terem chegado à região, não quer dizer que os profissionais não sejam confrontados com concorrência, e muitas das vezes ilegal. Desde logo a concorrência de “particulares”, diz Armando Gonçalves, no que é secundado pelo seu colega de Serpa: “Uns é por boa vontade que dão umas boleias, mas outros é pelo dinheiro”, afirma José Guerreiro.

E se os trabalhadores imigrantes eram bons clientes, também o vão deixando de ser, uma vez que já há quem, entre eles, tenha comprado carrinhas para fazer esses “serviços”. Como olham para o futuro os dois profissionais do volante? “Ninguém irá enriquecer com um táxi, mas vai dando para viver”, afirma o motorista do litoral, que, no entanto, diz ser necessário, muitas vezes, fazer mais do que as oito ou nove horas de trabalho da praxe. O serpense afina pelo mesmo diapasão: “Para faturar 100 euros por dia, tenho de estar disponível 24 horas por dia”.

 

Longe vão os tempos em que Francisco Maria Carocinho, ao volante de um Ford Cortina, percorreu os primeiros quilómetros como taxista. Hoje, com 80 anos de idade e 46 anos de taxista, vai andando pela praça para se sentir “ocupado”. Em Beja, o número de táxis ao serviço é o mesmo de há 30 anos atrás. Os clientes é que são menos. “De manhã, na altura da escola, e quando chove, ainda se vai fazendo qualquer coisa, mas à tarde podemos não fazer nada”, conta Francisco Carocinho. Aqui, a concorrência, tal como em Serpa, é feita pelas carreiras Urbanas, mas o decano dos taxistas bejenses diz que, mesmo assim, “vai dando para viver”.

 

Segundo a Autoridade de Mobilidade e dos Transportes, existe uma grande disparidade no número de táxis por concelho. Os concelhos de Lisboa e do Porto possuem cerca de 31por cento dos táxis licenciados. Cerca de metade dos concelhos possuem 20 ou menos táxis licenciados. A nível nacional a oferta, ao contrário do que se passa no Baixo Alentejo, têm-se mantido estável, com mais de 13 mil viaturas licenciadas em todo o País, o que correspondia a 1,33 táxis por mil habitantes.

 

Turismo e população

Mas se a oferta se tem mantido estável, o mesmo não se passa com a população e o turismo, dois fatores com influência na procura deste tipo de serviço de transporte. O aumento generalizado do turismo na última década, superior a 40 por cento no número de dormidas em estabelecimentos hoteleiros, levou a que o número de táxis por mil dormidas em estabelecimentos hoteleiros tenha caído de 0,36 para 0,26, uma variação de 29 por cento. Já a queda de população residente, principalmente no interior do País, levou a que o número de táxis por mil residentes aumentasse de 1,30 para 1,33 (3 por cento).

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