Diário do Alentejo

A importância da tradição oral no imaginário popular

11 de novembro 2019 - 15:15

Texto José Serrano

 

 

Jornalista, colaborou durante vários anos com os jornais desportivos nacionais “Record” e “Gazeta dos Desportos” e a revista “Foot”, e com os jornais regionais “A Voz de Loulé”, “Carteia”, “Terra de Loulé” e “Distrito de Faro”, onde assumiu, nestes dois últimos, as funções de diretor. Entre outubro de 2002 e julho de 2012 dirigiu o semanário “O Louletano” e as revistas “Louletano” e “Loulé Magazine”, de essência regional, e “Construímos & Inovamos”, de caráter nacional. Assumiu, desde 2017, a parceria com o artista plástico Ricardo Inácio, para o desenvolvimento de projetos editoriais de livros ilustrados.

 


O livro Lendas Alentejanas, com textos de Fernando Santos Graça e ilustrações de Ricardo Inácio, foi apresentado ontem, dia 24, em Elvas, no âmbito da 8.ª edição do Programa Sensibilização para a Educação Patrimonial. Esta edição, em contexto bilingue (português/inglês), integra o levantamento de 47 lendas, uma por cada concelho da região do Alentejo, e surge na sequência de um projeto que teve início no Algarve, do qual resultou o livro Lendas Algarvias, que reuniu, pela primeira vez, os autores.

 


Qual a importância das lendas na cultura alentejana?
Creio que é de fundamental relevância para a região, riquíssima em património cultural. As lendas são um dos mais importantes legados herdados das gerações anteriores que, ao longo dos tempos, têm preenchido e enriquecido o imaginário popular. A par dos provérbios, lengas-lengas, trava-línguas, ditos e dizeres populares, as lendas são importantes testemunhos orais, que caracterizam um povo e uma região. E, neste sentido, o Alentejo é uma região privilegiada, onde o trabalho ao nível patrimonial e identitário se apresenta como fator decisivo de atração de destino. Daí, a razão para a edição desta obra que, de forma simples, mas marcante, procura dar a conhecer este riquíssimo património oral.

 


Quais os ingredientes essenciais para o sucesso de uma lenda, para a sua capacidade de perdurar no tempo, de passar de geração em geração?
Muitos de nós habituámo-nos a ouvir histórias de lendas contadas pelos nossos pais e avós, nos serões invernosos, à beira das lareiras ou antes de adormecermos. No imaginário coletivo alentejano, as lendas são sobretudo as histórias das mouras encantadas, dos cavaleiros e dos seus encantamentos, que nos foram cativando ao longo dos tempos de infância. Recorda-nos momentos de afetos, de dar largas à imaginação, de sonhos, de irmos a um qualquer lugar para ver se encontrávamos uma esbelta moura ou testemunhos sua presença, quer fosse junto de uma fonte ou poço, furna ou ribeira, castelo ou palácio. Penso que este livro seja um bom pretexto para as gerações mais novas continuarem a fazê-lo, para passar bons momentos em família ou na escola, permitindo conhecer para melhor amar o nosso património comum.

 


É bom que continuemos a acreditar que, algures, há potes cheios de moedas de ouro por desvendar?
Penso que sim. Mais do que irmos à procura de potes cheios de moedas de ouro, berços dourados e outros tesouros escondidos num palácio ou castelo, perto de nós, devemos, acima de tudo, procurar criar laços de afeto com o nosso património e com a nossa história, promovendo a consciência crítica nas gerações mais novas. Este trabalho de recolha e seleção das lendas procura, também, valorizar o trabalho de pesquisa e transcrição dos antigos autores, para que esta riquíssima herança cultural e patrimonial perdure nos tempos vindouros e não caia em esquecimento.

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