Diário do Alentejo

Entrevista com Helena Botelho, arquiteta

16 de agosto 2019 - 10:25

Texto Nélia Pedrosa

 

Em que contexto e com que objetivos surge a Galeria D. José do Patrocínio Dias, que poderá ser visitada a partir do dia 12, na Casa de Santa Maria, da Congregação das Oblatas do Divino Coração, em Beja?
A Congregação das Oblatas do Divino Coração, que tinha a seu cuidado o espólio do D. José do Patrocínio Dias, há muito que queria homenagear este homem que, para além de fundador da congregação, foi uma figura de grande importância na região. O objetivo foi criar um espaço que permitisse contar a sua história a partir do seus objetos pessoais, desde os tempos da 1.ª Grande Guerra como capelão militar em França à sua missão religiosa como bispo da Diocese de Beja. Na Casa de Santa Maria, situada no centro da cidade de Beja, convento e casa-mãe da congregação, existia uma antiga garagem sem qualquer utilização com entrada desde o largo com o mesmo nome. Esta excelente localização junto à igreja de Santa Maria, com bastante visibilidade de quem passa na rua, e a existência da antiga garagem levaram as irmãs a considerarem este o espaço ideal para fundarem esta pequena galeria de exposições.

 

Quais os maiores desafios com que se deparou na concretização deste projeto, considerando que a galeria ocupa o espaço anteriormente destinado a garagem? E como está dividida?
O maior desafio foi atribuir à garagem de uma casa a dignidade que este espaço exigia. No fundo, queríamos criar uma surpresa, para que as peças não fossem reveladas todas de uma só vez. Teríamos de fazer desaparecer a garagem e enobrecer o espaço, de modo a que este permitisse ter a atmosfera própria deste tipo de programa. A ideia foi quase evidente: criar duas zonas claramente distintas, um percurso escuro, denso e misterioso, onde se destacam as vestes e paramentos, em contraste com uma caixa luminosa que revela as peças mais pequenas, como se uma “caixa de joias” se tratasse.

 

Do espólio de D. José do Patrocínio Dias exposto, o que é que destacaria e porquê?
Convém dizer que esta exposição é permanente e foi feita a partir de uma seleção criteriosa das peças do espólio do D. José, de modo a contar a sua história, desde a infância até ao final da sua vida. Penso que existem muitas peças de interesse, mas destacaria claramente as condecorações atribuídas pela participação na 1.ª Guerra Mundial, que são, no fundo, o reconhecimento da sua importância e do seu acompanhamento espiritual aos soldados no campo de batalha como chefe dos capelães militares. Existe ainda uma peça especial: um altar de campanha, uma peça em madeira desdobrável, que nos permite imaginar o contexto em que foi utilizada, e daí ter um enorme significado. Chamo ainda a atenção para o pequeno vídeo que nos permite conhecer melhor a história deste homem, que, para além da já referida importância no campo de batalha na 1.ª Guerra Mundial, e em particular na Batalha de La Lys, teve um grande papel social de luta contra a pobreza, no nosso Baixo Alentejo, quando assumiu o cargo de bispo da diocese em 1922.

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