Diário do Alentejo

A situação da saúde em Beja é "dramática"

31 de julho 2019 - 17:30

Faltam respostas, investimentos, profissionais de saúde. Numa entrevista de balanço de mandato, João Dias, deputado do PCP, lembra que em Beja não há uma unidade de cuidados continuados integrados, lamenta que as obras de ampliação do hospital continuem por fazer e sublinha que faltam 74 médicos para dar resposta às necessidades atuais. “Até para se nascer em Beja é preciso ter a sorte de, nesse dia, a maternidade estar aberta”. João Dias diz que o Governo “não correspondeu ao que a população precisava e ao que era necessário, embora existissem condições políticas e financeiras para o fazer”.

 

Texto Luís Godinho FotoS José Ferrolho

 

Sentiu-se confortável ao votar favoravelmente orçamentos do Estado que não contemplavam alguns dos investimentos que o PCP tem defendido para o Baixo Alentejo?
Os orçamentos do Estado acabaram por contemplar medidas que correspondiam às necessidades do nosso distrito e da nossa região… O último orçamento do Estado contemplava a segunda fase da ampliação do hospital de Beja e a eletrificação da linha ferroviária, ainda que de forma parcial, entre Casa Branca e Beja. Se esses dois investimentos tivessem sido concretizados ficaríamos mais satisfeitos com este orçamento do Estado. Assim, deixou-me desiludido.

 

Que são dois projetos estruturantes?
São projetos estruturantes mas não avançaram. Estão no Orçamento do Estado, estão na lei, e teria sido muito importante que o Governo cumprisse as promessas feitas. Ainda assim, o que mais temos em Portugal são leis que não são cumpridas, a começar pela Constituição da República. O Orçamento do Estado, ainda assim, cumpriu o que está inscrito na posição conjunta [assinada entre PS e CDU].

 

A nível da reposição de salários da função pública?
Ao nível da reposição de direitos e de outras matérias, que definimos como “linhas vermelhas”, que não se poderiam concretizar. Estes quatro últimos orçamentos do Estado incluíram o que foi acordado com o PCP em 2015. Defendemos que se deveriam aproveitar todas as oportunidades para melhorar as condições de vida das pessoas. Desse ponto de vista, estes quatro orçamentos do Estado deram resposta. Mas não corresponderam ao que a população precisava e ao que era necessário, embora existissem condições políticas e financeiras para o fazer. Essa é a grande mágoa e a desilusão que me fica deste ano e quatro meses em que desempenhei as funções de deputado por Beja.

 

 

 

"O PCP foi o único partido que apresentou projetos estruturantes para os problemas que estão identificados, na área da ferrovia, para a viabilização do aeroporto, nas acessibilidades rodoviárias ou na saúde".

Essa mágoa prende-se com o que ficou por concretizar?
Tudo aquilo que se conseguiu teve efeitos positivos no desenvolvimento económico e social do País e da nossa região. Não se pode dizer que não se melhoraram as condições de vida das populações. Poderia ter existido mais investimento mas o Governo do PS, ainda assim, preferiu estar limitado aos ditames do défice. Todos os dias, quando ligamos a televisão, ouvimos falar do défice das contas públicas e de mais dinheiro para os bancos. Essa obsessão esteve sempre presente ao longo dos últimos quatro anos e foi muito marcante nas opções políticas deste governo.

 

Este acordo para a viabilização de um governo do PS foi difícil de explicar aos militantes do PCP, pelo menos no caso do Alentejo. Acha que a CDU poderá ser penalizada nas urnas por esta decisão?
O que esperamos é que a população faça uma leitura correta do trabalho feito por todos os partidos e compreenda a decisão que tomámos, de avaliar o sentido do resultado eleitoral de 2015. Fomos o partido que, nessa noite, teve capacidade para avaliar o que a população tinha dito nas urnas. Esta nossa capacidade trouxe resultados, pois conseguimos concretizar alterações substanciais, designadamente, no que diz respeito à reposição de direitos e de rendimentos perdidos durante o tempo do governo do PSD/CDS.

 

Ainda assim, os resultados das últimas Europeias não foram nesse sentido…
Não foram nesse sentido mas estamos a falar de matérias completamente diferentes, de assuntos europeus, muito complexos, que as pessoas não sentem de forma tão direta quanto as políticas nacionais. Independentemente do acordo que viabilizou o Governo, não deixámos de intervir, fomos os únicos que elaborámos projetos de resolução para a nossa região. Posso dizer isso com toda a clareza. O PCP foi o único partido que apresentou projetos estruturantes para os problemas que estão identificados, na área da ferrovia, para a viabilização do aeroporto, nas acessibilidades rodoviárias ou na saúde.

 

Então, na sua ótica, o que falhou foi a execução por parte do Governo?
Foi a execução. O Governo tinha condições políticas e financeiras para poder concretizar muitas dessas recomendações que foram aprovadas pelo Parlamento. Não o fez e, nalguns casos, essa decisão é até difícil de aceitar. Lembro o caso do troço da A26 que está encerrado há muitos meses. A população não compreende nem aceita que essa situação se mantenha.

"Hoje até para se nascer em Beja é preciso ter a sorte de nesse dia a maternidade estar aberta. Tudo isto conta para que as pessoas se possam fixar no território. Precisamos de ver concretizado um modelo de desenvolvimento económico assente numa base fundamental que é a agricultura".

Numa análise política, acha então que a CDU não será penalizada por ter viabilizado a atual solução de governo?
Naturalmente que o PS, ao ter tido a oportunidade de governar, pressionado no sentido de aprovar leis mais progressistas, como é o caso da Lei de Bases da Saúde ou da gratuitidade dos manuais escolares, entre muitas outras, pode ficar com o mérito de concretizar medidas que tiveram origem em iniciativas do PCP e do PEV. Por isso é importante darmos a conhecer o que foi o trabalho da CDU, formada por aqueles dois partidos e por democratas sem partido.

 

E é aí que irá assentar boa parte da campanha eleitoral da CDU?
Vai ser por aí. Aliás, entendemos que ninguém irá por nós ter com as pessoas. A comunicação social não nos dá o destaque que dá a outras forças políticas. Teremos de ser nós, num contacto genuíno, direto, com a população, a fazer esse trabalho de esclarecimento, a explicar às pessoas o caminho que fizemos e as propostas que apresentamos. Aliás, não é preciso ser comunista para votar na CDU. Basta que as pessoas se identifiquem com o trabalho que fizemos e com as propostas que apresentamos para o distrito de Beja.

 

O exercício da atividade parlamentar correspondeu à ideia que tinha antes de assumir funções?
Na CDU estamos preparados para essa primeira vez… Mas só quando lá chegamos é que temos a noção da dimensão da tarefa, que é muito complexa, muito exigente, e à qual me dediquei com todas as minhas forças.

 

As acessibilidades são o principal problema ao desenvolvimento da região?
Não. Podemos ter as melhores acessibilidades mas as estradas que são boas para trazer pessoas para a região também são boas para levar as pessoas para fora dela… Importa pensar o modelo de desenvolvimento e a verdade é que, neste momento, se construíssemos as estradas e investíssemos nas acessibilidades a que temos direito tenho muitas dúvidas de que a situação se modificasse, caso não alterássemos o modelo de desenvolvimento económico. Há concelhos com acessibilidades excelentes, como Ourique e Castro Verde, com a autoestrada a poucos quilómetros, e o desenvolvimento económico e social desses municípios tarda em arrancar. O Estado tem de dar o exemplo, trazer investimento público, criar emprego, manter os serviços no território. A resposta privada, a economia privada, virá atrás e isso gera mais emprego, fixação de pessoas e atração de novos investimentos.
 

"O que esperamos é que a população faça uma leitura correta do trabalho feito por todos os partidos e compreenda a decisão que tomámos, de avaliar o sentido do resultado eleitoral de 2015. Fomos o partido que, nessa noite, teve capacidade para avaliar o que a população tinha dito nas urnas".

Investimento público em que áreas?
Investimento na saúde, na educação, na mobilidade, na criação de condições para corresponder às necessidades das pessoas… Hoje até para se nascer em Beja é preciso ter a sorte de nesse dia a maternidade estar aberta. Tudo isto conta para que as pessoas se possam fixar no território. Precisamos de ver concretizado um modelo de desenvolvimento económico assente numa base fundamental que é a agricultura. E nós, numa região que tem todas as condições para produzir o que o País precisa, poderíamos aproveitar muito mais a riqueza da terra e a riqueza da água que temos. Não estamos a produzir o alimento que a nossa população precisa mas o que outros nos impõem, porque este mercado liberalizado e competitivo cria condições só para duas ou três culturas.

 

A nível da saúde, qual o seu retrato do que se passa em Beja?
Conheço muito bem a situação da saúde no nosso distrito, estava a chefiar a Unidade de Cuidados na Comunidade no Centro de Saúde de Beja antes de ir para o Parlamento… A situação é dramática, desde logo ao nível dos cuidados de saúde primários. Por isso fizemos aprovar muito recentemente um projeto de resolução para o reforço da resposta pública nos serviços de saúde, na área dos cuidados primários e dos cuidados hospitalares, novamente reforçando a necessidade de construção da segunda fase do hospital, mas também na área dos cuidados continuados. Beja, a capital de distrito, não tem uma única unidade de cuidados continuados integrados. Qualquer pessoa de Beja que precise desse tipo de resposta tem de ir para Casével, Ferreira do Alentejo, Mértola, Moura ou Serpa, com as contingências que isso tem em termos familiares. Exigimos que em 2020 seja concretizada uma unidade deste género em Beja.

 

Problemas a que se somam outros, relacionados com a falta de profissionais…
Precisamos de 74 médicos para responder às necessidades atuais. A médio prazo, nos próximos cinco anos, 60 por cento dos médicos estarão em condições de se reformar, o que é gravíssimo. A resposta a estes problemas deve ser uma resposta integrada a nível de todo o Alentejo. Não podemos olhar para o Hospital Central do Alentejo como sendo um ataque aos cuidados de saúde aqui em Beja, mas têm de ser os profissionais de saúde a deslocar-se, a vir ter com as pessoas, e não o contrário. Ao mesmo tempo que é construído o Hospital Central em Évora tem de ser feito um investimento em Beja. E depois temos de fazer com que os médicos e os outros profissionais de saúde possam, de forma integrada, coordenada, dar resposta às necessidades existentes nos diversos distritos.

 

O João Dias assumiu o lugar de deputado, foi candidato ao Parlamento Europeu, é agora cabeça de lista às Legislativas… Vê-lo-emos também como candidato a presidente da Câmara de Beja nas próximas Autárquicas?
É um problema que não se coloca neste momento. Será uma reflexão coletiva que a seu tempo será feita não só pelos militantes da CDU mas também por muitos progressistas independentes que contribuem para a construção das listas autárquicas. Cada coisa a seu tempo. Neste momento estamos focados no combate das eleições legislativas, que vão escolher os deputados para a Assembleia da República.

"Conheço muito bem a situação da saúde no nosso distrito, estava a chefiar a Unidade de Cuidados na Comunidade no Centro de Saúde de Beja antes de ir para o Parlamento… A situação é dramática, desde logo ao nível dos cuidados de saúde primários".

Este modelo das culturas intensivas e supertintensivas já tem sido criticado pelo PCP. Mas não foi para isto que se fez Alqueva?
Não foi para isto que se fez Alqueva. Alqueva fez-se para dar resposta a um modelo de produção agrícola diversificado. Enquanto tivermos uma produção agrícola muito centrada em duas ou três culturas teremos uma economia muito débil, que pode desmoronar-se de um momento para o outro, bastando que o mercado deixe de precisar desse produto ou encontre quem o faça mais barato. Naturalmente que Alqueva contemplava a existência de culturas intensivas e superintensivas, mas em 30 por cento da área do perímetro de rega. Era o limite máximo. Neste momento já temos 53 por cento. O que quer dizer que com três culturas – olival, amendoal e vinha – ultrapassámos em quase o dobro o que era o projeto inicial de Alqueva. E estamos apenas a contabilizar o que se passa no perímetro de rega, não nos terrenos confinantes onde existem mais 20 mil hectares de olival intensivo e superintensivo.

 


O PCP está contra este modelo?
Estamos pelas pessoas, pelo nosso distrito, pelo Alentejo, pelos agricultores, por um desenvolvimento que merecemos. E importa refletir sobre este modelo que tem sido seguido. Não criou emprego, não resolveu o problema de salários baixos na nossa região, não contribui para fixar e aumentar população. Temos uma agricultura cada vez mais mecanizada, a dispensar mão de obra e a deixar problemas ambientais que não podemos ignorar.

 

O fim dos apoios à instalação de novos olivais, anunciado pelo ministro Capoulas Santos, não é uma resposta ao problema?
Os fundos que existem para financiar esse tipo de investimentos são já muito poucos, foram praticamente todos utilizados. Portanto, mesmo que não tomasse a medida de cortar apoios da União Europeia à instalação deste tipo de culturas, eles são praticamente inexistentes. E demonstra uma incoerência muito grande da parte do ministro da Agricultura que defende estes olivais e depois vem anunciar uma medida com poucos efeitos práticos.

 

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