Diário do Alentejo

Marta Páscoa: Cinco séculos de patrimónios da água

22 de julho 2019 - 10:25

Texto José Serrano

 

É licenciada em História pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Concluiu o mestrado em História Regional e Local pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa onde concluiu a pós-graduação em Ciências Documentais. Durante três anos trabalhou na transcrição de manuscritos relativos à história de Beja, tendo como objetivo a posterior publicação e divulgação dessa informação, em grande parte ainda inédita. Fez a sua tese de mestrado tendo por base estes manuscritos, deu formação, em arquivo, em Lisboa, Cabo Verde e Luanda. É atualmente a arquivista do Museu-Biblioteca da Casa de Bragança, no paço ducal de Vila Viçosa.

 

Marta Páscoa apresentou, na semana passada, em de Beja, o seu livro A História da Água de Beja: do século XV a 1960. Uma obra que pretende contribuir para o conhecimento do património, ligado à água, na cidade e seus arredores.

É esta a história do caminho que está para trás do simples gesto de abrir a torneira e aceder à água nos lares de Beja?
O livro A história da água de Beja pretende dar a conhecer uma parte do património construído de Beja ao qual nem sempre se dá grande importância e que é o património ligado à água. Numa cidade onde o verão é seco e inclemente, os pontos de acesso à água foram sempre da maior importância. O livro vem-nos falar dos poços, chafarizes e fontes que existem nos arredores da cidade e também dos que já não existem, sobretudo no centro da cidade. Numa segunda parte, a obra explica como, na primeira metade do século XX, a cidade se modernizou, se criaram os serviços municipalizados e como do abastecimento em poços e fontes se passou à água canalizada, passando pelos efémeros marcos fontanários.


Quais as transformações que o fácil acesso à água operou na cidade e na população bejense?
Julgo que as mais importantes foram as transformações ao nível da salubridade das habitações – juntamente com a rede de esgotos, criada um pouco depois – e as consequentes melhorias na saúde da população em geral.

 

Esse fácil acesso, hoje comum, trouxe de alguma forma a ideia errada da infinidade deste recurso?
Penso que o recurso à água só poderá ter parecido infinito desde o momento que o abastecimento começou a ser feito a partir da barragem do Roxo. Enquanto a água veio do poço de Aljustrel, por vezes verificava-se, sobretudo no verão, alguma escassez. Penso que as pessoas da minha geração ainda têm essa memória.

 

Considera que cada um de nós, cidadãos, deveria “olhar” para a água a que tem acesso de forma mais responsável?
Sim. Sobretudo não a desperdiçando, usar apenas aquela que é necessária.

 

Assistimos hoje, em Beja, a um esgrimir de argumentos entre vários partidos sobre como deverá ser feita a gestão da água pública. Tem sido a água, ao longo dos tempos, na cidade e na região, fonte de disputa política?
Disputa talvez, mas não política. Desde a Idade Média que competia aos municípios zelar pela manutenção, limpeza e abastecimento dos pontos de água. A manutenção era feita através da contratação de pedreiros, que realizavam as obras necessárias; a limpeza era feita pelos rendeiros das rendas da cidade e o abastecimento era feito pelo controle, por vezes menos pacífico, dos hortelões das hortas vizinhas aos poços. Estes podiam cair na tentação de deixar o chafariz a correr para dentro da horta, em vez de o manterem arranjado, e há diversos casos de multas por este motivo. Também os aguadeiros por vezes se queixaram das inovações realizadas pelo município, como na ocasião em que foram colocadas bombas em alguns poços. Como forma de protesto chegaram a jogar petróleo para dentro de um dos poços. Estas eram questões do quotidiano da vereação camarária.



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