Barrancos e Encinasola, duas vilas, dois povoados de dois países distintos, com muito mais em comum do que de diferente (ou a uni-los do que a separá-los)
O “Diário do Alentejo” arranca, nesta primeira edição de agosto – e ao longo de quatro semanas –, com uma série de reportagens dedicada à raia e à dinâmica entre as suas comunidades. Começamos por Barrancos e Encinasola, duas terras, portuguesa e espanhola, que se queixam do mesmo: o isolamento, que seria maior ainda não fosse a companhia velada que fazem uma à outra há tantos anos.
Texto Marco Monteiro Cândido Fotos Ricardo Zambujo
22 de setembro de 1936: “As forças nacionalistas tomaram hoje Valencita, Jerez, Cumres e Oliva, povoações próximas da fronteira portuguesa e de Barrancos. Muitos fugitivos procuram refúgio em Portugal”. Assim escrevia o “Diário do Alentejo”, a propósito da Guerra Civil Espanhola (que teve lugar entre 1936 e 1939) e daqueles que se acolheram no concelho de Barrancos, nos campos de refugiados das herdades da Coitadinha e das Russianas. Sobre esta matéria, a antropóloga Maria Dulce Simões, na sua tese de doutoramento – “Fronteira e guerra civil de Espanha. Dominação, resistência e usos da memória em Barrancos” –, aponta o seguinte: “Em Portugal, no concelho de Barrancos, na raia do Baixo Alentejo, ocorreram dois dos maiores fluxos de refugiados espanhóis para território português formados por grupos ideologicamente opostos, cujo acolhimento legitima a construção de uma memória social local, alicerçada na solidariedade como valor identitário da comunidade”.Julho de 2026. Noventa anos passados do início da Guerra Civil Espanhola, Barrancos e Encinsasola continuam como sempre estiveram: povoações quase gémeas – reflexo uma da outra –, separadas por escassos nove quilómetros de alcatrão, a melhor estrada que Barrancos tem, não em solo nacional, mas a que liga à sua irmã espanhola à distância de um olhar entre os montes que circundam a vista raiana.A sala de visitas da vila – que é sede de concelho e de freguesia única – é a praça da Liberdade. É lá que todos os caminhos vão dar, para quem chega a Barrancos. Se no final deste mês de agosto a vila estará transfigurada, pelo movimento, pela enchente, pelo espírito que se vive devido às festas em honra de Nossa Senhora da Conceição, em que têm lugar os festejos taurinos – com os touros de morte –, por agora a praça está bem mais calma, ainda sem sinais do que virá: a construção dos tabuados, a areia, os touros e os homens. A “fêra”. Por enquanto, o local mais animado é à porta da Sociedade Recreativa Cultural Barranquense. Aí, um punhado de homens, entre sentados e em pé, vai conversando sobre tudo e nada, numa conversa típica de uma manhã de verão, enquanto se vai fazendo tempo até o calor apertar.“As estradas podiam estar melhor, mas não estão. A causa, desconheço. Mas esta terra foi sempre isolada, porque está num canto contra Espanha. Entra dentro de Espanha”. Nas palavras de Carlos Caçador, de 64 anos, como a de todos os barranquenhos, quando se fala de Espanha fala-se, obrigatoriamente, de Encinasola, a tal terra do outro lado da fronteira que sempre se emparelhou com Barrancos. “Foi sempre uma ligação… E connosco já não é como era. Os velhotes, antigamente, com o contrabando e tudo o mais, era uma ligação muito forte. Era outra vida. Mas hoje também há, porque é tudo mais barato. Há muitos daqui a trabalhar do lado de lá, ganha-se mais, as reformas depois são mais altas, é perto... E aqui é difícil trabalhar um espanhol”.