Diário do Alentejo

o que é hoje o comer? Açorda de beldroegas

01 de agosto 2026 - 08:00

Texto Ana Filipa Sousa de Sousa

Foto Ricardo Zambujo

 

A típica cozinha alentejana da casa de Júlia Torrado, com a grande chaminé em tijolo avermelhado como pano de fundo, é já ponto de encontro entre aqueles que gostam de cozinhar e aqueles que gostam de saborear os seus cozinhados. A grande mesa de madeira serve, a maior parte das vezes, como bancada de auxílio aos preparados que, segundo a também locutora de rádio, só resultam quando existem “os ingredientes todos”.Aprendeu a cozinhar, muito nova, com os pais, principalmente, borrego à pastora com o pai e açorda de beldroegas com a mãe e, desde então, apaixonou-se pelos livros de receitas. “Gosto muito de cozinhar, sou elogiada pela família da casa. Por exemplo, o borrego à pastora que faço aprendi com o meu pai [e] as minhas filhas e os meus irmãos dizem que é o melhor que comem”, afirma, entre sorrisos. Sob o olhar atento da mãe, que com 98 anos não deixa de lado os seus afazeres em croché, Júlia Torrado começa por arranjar, uma a uma, as beldroegas que apanhou recentemente, lavando-as, de seguida, com “bastante água e um bocadinho de vinagre” para afugentar os “mosquitinhos” habituais da época. “As beldroegas nascem quando as pessoas têm hortas, semeiam cebolas e regam-nas e elas nascem no meio delas. Aparecem no final de maio e se forem regadas podem dar até outubro”, explica, enquanto começa a preparar o refogado com azeite, cebola picada e quatro cabeças de alho meio descascadas. Quando o aroma do refugado já está espalhado pela casa, a cozinheira junta as beldroegas e tempera-as com “um bocadinho de colorau” – “porque lembro-me da minha mãe colocar sempre um bocadinho nas beldroegas”. À medida que descasca as batatas, Júlia Torrado apressa-se a explicar que “há um pormenor” que diferencia a sua iguaria, isto é, colocar o “queijo duro” primeiro, para “dar sabor à açorda”, e só mais tarde o queijo fresco. “Este [queijo] por acaso é de cabra, mas na minha infância, como os meus pais faziam queijo, usávamos sempre o de ovelha”, recorda. Enquanto espera que o seu prato apure e “tome gosto”, a locutora de rádio afirma que nunca foi cozinheira profissional, mas que sempre teve gosto pelos “tachos e panelas” e, nos últimos anos, tem-se aventurado por programas televisivos de culinária e por showcookings em eventos na região. Com os olhos a brilhar, diz que tanto gosta da cozinha tradicional que faz há mais de “50anos”, como da moderna que as filhas lhe ensinam hoje em dia, mas, ainda assim, considera-se “muito melhor” na primeira opção. “Por exemplo, com beldroegas, para além da açorda e da sopa, podemos fazer também beldroegas salteadas e depois servidas numa fatia de pão torrado com raspas de queijo duro ou também em omelete”, descreve. De volta ao cozinhado, com um tempo médio de confeção de “uns 40 minutos”, Júlia Torrado retifica o sal e prepara-se para, numa tigela à parte, dividir e escolher os “ovos do campo” para escalfar. “As batatas estão cozinhas, [por isso] agora vou colocar os ovos e partir os queijinhos [frescos] em quatro”, afirma, enquanto adiciona ao tacho vermelho os ovos caseiros das suas galinhas.Uns minutos depois é a vez de colocar os referidos queijos de Alfundão, uma aldeia do concelho de Ferreira do Alentejo, e apagar-se o fogão para que estes não fiquem “encortiçados” por estarem cozidos demais. “O outro [queijo] é duro, convém pôr-se com as batatas para ficar mais macio e este, como é fresco, é ao contrário”, justifica. A mesa central, que outrora serviu de apoio aos tachos e aos ingredientes espalhados pela pedra mármore branca, começa agora a compor-se de pequenas tigelas e copos de barro.O pão das “sopas”, que tem de “ser duro, com dois ou três dias”, pois, caso contrário, “desfaz-se”, já está cortado e pronto a servir de base para o caldo. “A minha parte está feita”, graceja ao colocar a panela em cima da mesa.

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