Diário do Alentejo

“A luz surge quando criamos espaço para o diálogo”

11 de janeiro 2026 - 08:00
Viver no Escuro, um livro sobre saúde mental, da autoria de Marta Mestre

Marta Mestre, 44 anos, natural de Serpa

 

Filha única, cresceu numa casa cheia de amor, alegria e momentos inesquecíveis com a sua família. O desejo profundo de cuidar levou-a a escolher Enfermagem como profissão, tendo concluído a respetiva licenciatura em 2016. É especialista na área de Enfermagem de Saúde Mental e Psiquiátrica e em Intervenção Multidisciplinar em Saúde Mental. Conhecida pelo seu bom humor e altruísmo, também, enfrenta uma luta interna contra pensamentos destrutivos, medos e fobias.

 

Da autoria de Marta Mestre, foi, recentemente, publicado, o livro Viver no Escuro, obra com o objetivo de “normalizar a conversa sobre saúde mental, quebrar preconceitos, combater o estigma associado à doença mental, promover diálogos construtivos e incentivar aqueles que sofrem a procurar a ajuda necessária”.

 

Viver no escuro – como nos apresenta esta sua obra?É uma obra que nasce da minha própria experiência com a ansiedade, o medo e a depressão, procurando dar voz a tudo aquilo que tantas vezes fica escondido, guardado e não dito. Ao escrever este livro, quis mostrar que a saúde mental faz parte da vida de todos nós e que falar sobre ela não nos diminui, pelo contrário, aproxima-nos. É um convite à reflexão, ao diálogo e à compreensão. Viver no Escuro é um gesto de coragem e empatia, escrito com o desejo de que quem o leia se sinta menos sozinho nas suas próprias sombras.

Indicia o título a necessidade de se “fazer luz” na normalização do discurso sobre saúde mental?A escuridão representa aquilo que tantas pessoas vivem em silêncio – a ansiedade, a depressão, o sofrimento psicológico – que muitas vezes permanecem escondidos por vergonha, medo ou estigma. E só conseguimos transformar essa escuridão quando começamos a falar dela, a reconhecê-la e a aceitar que faz parte da experiência humana. A luz surge quando criamos espaço para o diálogo, quando normalizamos estes temas e permitimos que cada pessoa se sinta segura para pedir ajuda.

 

Observa que as doenças do foro psicológico são, ainda, estigmatizadas pela sociedade?Apesar dos avanços e de uma maior abertura para falar sobre saúde mental, ainda existe muito preconceito, desinformação e julgamento. Muitas pessoas têm medo de assumir que estão a sofrer emocionalmente, receando serem vistas como “fracas” ou “diferentes”, acabando por guardar tudo para si. A verdade é que a saúde mental deveria ser tratada com a mesma naturalidade com que falamos de qualquer outra condição de saúde. A ansiedade, a depressão ou outras perturbações não definem uma pessoa, são apenas parte da sua história.

 

Como classificaria a capacidade das populações do interior baixo alentejano se relacionarem com este tipo de doença?Existe, ainda, na região, alguma dificuldade em lidar com doenças do foro psicológico, tanto para quem sofre como para quem está à volta. Muitas pessoas não sabem reconhecer sinais, não sabem como agir ou têm receio de falar sobre o assunto. Há muito silêncio, alguma vergonha e a ideia de que “tem de se aguentar”. Ao mesmo tempo, noto que há mais informação, mais abertura e mais diálogo do que havia há uns anos. As pessoas começam a compreender melhor o que é a ansiedade, a depressão ou o sofrimento psicológico, e começam também a estar mais disponíveis para ouvir e apoiar. Não estamos onde deveríamos estar, mas estamos no caminho certo.

José Serrano

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