Diário do Alentejo

teatro

05 de abril 2024 - 12:00
Residência artística “Daylight Project” termina domingo, dia 7, em BeringelFoto| Ricardo Zambujo

As raízes alentejanas fizeram com que Carlos Pessoa, embora nascido na capital, nunca perdesse a “especial afeição” pela vila onde passou férias na infância. Formado em Teatro, percebeu desde cedo que teria de colocar a 5.ª arte ao serviço da população e, consequentemente, do seu Alentejo. Fá-lo através do Teatro da Garagem, companhia do qual é cofundador. No domingo, dia 7, apresenta o seu primeiro projeto artístico, resultado de uma residência desenvolvida exclusivamente em Beringel e no seu mais recente espaço, o Casão da Garagem. 

 

Texto Ana Filipa Sousa de Sousa Foto Ricardo Zambujo

 

Casão da Garagem. É desta forma que Carlos Pessoa, cofundador do Teatro da Garagem, passou a apelidar, de forma carinhosa, o mais recente espaço artístico da companhia, localizado na vila de Beringel, no concelho de Beja. Ao se entrar pelo portão de ferro, as paredes despidas de tinta branca e os altos e baixos de um chão de outrora chamam a atenção de qualquer olhar curioso.

O ar desarranjado causa uma certa admiração de quem sabe o propósito do sítio, mas, segundo o diretor artístico, também ele cria um ambiente propício à descoberta e aos sentimentos que se espera que os atores extrapolem, de dentro para fora.

Independentemente do aspeto exterior, a alma do teatro vem das entranhas de cada um e, utilizando o espaço como metáfora artística, só é possível chegar-se ao público através de uma personagem se cada um dos atores a sentir e a viver também interiormente.

De fora, a olho nu, um simples portão corroído do sol, um comum casão vazio com duas pequenas gretas nas janelas que custam a iluminar o interior. Por dentro, um “tesouro” criativo à mercê de quem o quiser aproveitar.

Pela primeira vez o Teatro da Garagem recebe os “inauguradores” daquele que se espera que seja um espaço cativante e de aprendizagens. Oito profissionais da área – licenciados em teatro, dança, fotografia, artes performativas e novas artes cénicas – embarcaram no “ano zero” do “Daylight Project”, uma residência artística de valorização profissional de duas semanas, em Beringel.

“Eles estão aqui numa espécie de escola de primavera a estagiar, a partilhar experiências, a conhecer, a trabalhar tecnicamente e ao mesmo tempo a produzir um objeto [de apresentação final].

No fim de contas, é uma ação de prospeção em que eles se dão a conhecer enquanto atores e a Garagem se dá a conhecer de outra maneira”, elucida Carlos Pessoa, enquanto espera que o seu casão se encha.

À sua volta, no chão, estacas e janelas velhas de madeira preenchem o espaço. Servirão mais tarde, visualmente, como objetos de interação numa das performances do grupo, porém, enquanto aguarda a sua chegada para o ensaio, o diretor artístico antecipa-se a explicar a mensagem.

“A título de exemplo, a relação que se criou [com os atores e] o Grupo Coral de Beringel foi muito bonita, porque a certa altura estava uma rapariga da Letónia a cantar canções do seu país, dois atores gregos a cantar uma canção da Grécia, duas atrizes galegas a cantar em galego e a colega do Brasil a partilhar uma canção do folclore tradicional brasileiro da zona dela. Houve ali uma troca e aquilo é mesmo o que eu pretendo, [ou seja] começar a estabelecer essas pontes, esses encontros e essas possibilidades. Para tal, isto que está aqui no chão são pontes, a ideia destes barrotes que já estavam aqui nos casões é fazer disto pontes e, depois, as janelas são o pretexto para o início do trabalho”, refere.

Com a chegada do grupo começa o ensaio. Ana Lúcia Palminha, atriz profissional convidada pelo Teatro da Garagem para guiar este primeiro conjunto de atores, dá, num tom suave de sussurro, uma ou outra indicação enquanto a música invade o amplo edifício.

Após um breve aquecimento, a primeira cena une artisticamente os corpos dos jovens aos objetos cénicos espalhados pelo casão, numa “tentativa de perceberem que imagens poéticas podem surgir” sem “usar qualquer narrativa verbal”, mas construindo e contando-se “histórias”.

Ao som da música, quase que de forma coreografada, os atores entram na segunda performance e começam a interagir também uns com os outros, dando, a quem vê, uma certa continuidade da ficção anterior. A música termina. Improvisadamente, nesta terceira cena, ao toque junta-se também o som, uma espécie de melodia corporal que rapidamente se faz soar em eco por entre as paredes esburacadas.“Passemos então à cena do telefone”, interrompe a atriz profissional.

Os oitos intervenientes separam-se e, à semelhança do primeiro ato, voltam a trabalhar a solo. A harmonia que outrora parecia combinada, e até gravada, dá então lugar à confusão. De um momento para o outro todos encenam individualmente uma conversa telefónica nas suas línguas – espanhol, grego, português, turco, letão e inglês.

“Inicialmente pedimos que fizessem esta cena em inglês, porque é a língua em que comunicamos todos, mas depois o Carlos [Pessoa] sugeriu que cada um o fizesse na sua própria língua, primeiro porque eles conseguem libertar-se mais nos seus dialetos e depois porque o intuito era mostrar que mesmo que não se fale na mesma língua é possível entendermo-nos”, explica.

Em jeito de fio condutor, como uma espécie de narrativa em que se experimenta qual a melhor forma de comunicar e interligar pessoas, chega-se à última cena. Segundo Ana Lúcia Palminha, a performance teve origem em Katerina Kon, uma das atrizes que participa na residência artística, que quis, ao som da chuva, “interagir também com o exterior”.

Cada ator e, consequentemente, cada espetador receberá a mensagem das cinco narrativas de forma diferente, tendo em conta a sua origem e a sua própria história. Para Carlos Pessoa, o importante é que a partir daqui se perceba a necessidade “de começar a olhar o mundo de outra forma, com outras janelas e não apenas através do computador”, mas sobretudo pelas “janelas do olhar do outro”, estabelecendo “pontes, porque isso vai ser cada vez mais decisivo”.

 

O serviço público do teatro A companhia Teatro da Garagem, sediada no Teatro Taborda, em Lisboa, completa neste ano o seu 35.º aniversário, assinalando-se, segundo o seu cofundador, como uma “das instituições de referência do teatro português”.

Carlos Pessoa admite que teve bem presente desde sempre que “a questão artística e a questão pedagógica” eram indissociáveis e que, por isso, o seu “propósito base ”seria “o serviço público”, assumindo o risco de “mais despesa do que ganho”.

Aliando esta sua vertente “às ligações muito estreitas e emocionais com Beringel” percebeu que nesta sua fase da vida “haveria de tentar dar alguma coisa a este Alentejo esquecido, a este Alentejo que precisa de ser relembrado, que precisa de ser reclamado e estimado” e pelo qual tem uma “especial afeição”.

“Portanto, o porquê de Beringel? Eu sou daqui, as minhas raízes vêm daqui também, [porque] o meu pai e os meus tios eram daqui e eu vinha para cá na infância passar férias. Isto começa por ser para mim uma história de afeto, de uma espécie de ligação que eu não consigo explicar a não ser de uma forma emocional. Sinto-me agarrado a esta terra, tenho ligações que me fazem querer estar aqui”, realça.

Conhecedor da área, depressa identificou a “carência de atividades culturais”, nomeadamente no que diz respeito ao teatro, existente no Baixo Alentejo e entendeu que fazia sentido partilhar a experiência da companhia e dar o seu contributo “para tentar animar, promover iniciativas e desenvolver ações”, sendo esta uma das missões “nos últimos quatro anos” do Teatro da Garagem em Beringel.

Desta forma, este não é o primeiro projeto que Carlos Pessoa, através da companhia de teatro, traz até à vila. No início do presente ano letivo, 2023-2024, após uma visita ao Museu Nacional de Etnografia, o Teatro da Garagem percebeu a relevância da agricultura, do pastoreio, das tecnologias tradicionais e dos utensílios domésticos para a sociedade rural, em especial no interior do Alentejo.

Chegou à conclusão de que esta seria mais uma forma “lúdica e pedagógica” de colocar o teatro e a arte ao serviço da população e, desde então, passou, uma vez por mês, a rumar até ao primeiro ciclo da escola de Beringel com o projeto “Cápsula do Tempo”, abordando todas estas temáticas entre gerações.

“O teatro, mais do que nunca, não é só fazer espetáculos, é desenvolver ações que permitam as pessoas estarem umas com as outras. Se nós nos fecharmos sobre nós próprios, na nossa bolha, e cavarmos trincheiras começamos a viver em guerra e, hoje, o teatro, enquanto serviço público, tem a obrigação de estabelecer pontes, de trabalhar para a paz num sentido muito concreto. Portanto, estas duas semanas estão a ser isso aqui em Beringel, [ou seja] conhecer a comunidade, as diferentes atividades culturais, valoriza-las, haver intercâmbio, troca de experiências e depois esperemos que isto possa desenvolver e avançar para uma coisa mais ambiciosa”, admite o também encenador.

Nesta mesma ótica de pautar o teatro enquanto motor ao serviço da população, a denominação da recente residência artística – “Daylight” – surge na língua inglesa “porque o inglês é um bocadinho o latim de hoje em dia” e a forma mais eficaz “para nos entendermos todos”, mas também “porque andamos aqui todos um bocadinho à procura da luz do dia, do próximo passo e do que é que vamos fazer a seguir” e o teatro tem a obrigação de ajudar nessa orientação.

 

Um futuro risonho no Alentejo Se para Carlos Pessoa a escolha da vila alentejana foi fácil, para os atores do “Daylight” a vinda para o interior do Alentejo também foi bastante automática e simples, sendo inclusive um forte fator de decisão.

“Tinha uma vida muito ocupada na Grécia e pensei: ‘preciso de ir para algum lado, não me interessa para onde, só quero ir’ e depois apareceu-me esta oportunidade e decidi que ia fazer as duas coisas que mais queria neste momento, o teatro e partir em aventura. Estas duas coisas trouxeram-me até aqui”, revela Katerina Kon, de 27 anos, uma das atrizes que participa na residência.

De um sentimento parecido partilha Niki Adriana. Nasceu em Genebra, na Suíça, e por ser filha de mãe portuguesa admite que o País sempre lhe esteve no coração e quando surgiu a oportunidade de participar no “Daylight”, como “não conhecia esta parte de Portugal”, decidiu arriscar.

“Vim conectar-me com outros artistas, conhecer uma região que não conhecia e estar junto da natureza e destas pessoas que têm a capacidade de atrair-nos e fazer-nos sentir bem. Por exemplo, quando fomos ouvir o cante alentejano adorei, porque percebi a união dos homens todos a cantar juntos, o sentimento familiar e até o contacto direto com a natureza e a terra. É muito bom”, revela a atriz de 33 anos. Em termos artísticos, o encenador afirma que este primeiro projeto está a ser “uma experiência equilibrada” para o grupo de atores e que tem permitido que cada um deles “possa reter e processar a informação”, “fazer as suas próprias escolhas” e, como já referido, aprender. “Há ainda uma parte que eu tento preservar sempre que é o lado do registo, [ou seja] que eles tenham tempo para registar, tempo para refletir e conversar. Creio que está a ser muito bom para eles e até agora sinto que o balanço é francamente positivo e acho que vai continuar a sê-lo [até domingo] ”, reconhece Carlos Pessoa.

A continuidade do projeto está assegurada, uma vez que este “ano zero” serviu para testar alguns aspetos e perceber o que se poderá melhorar daqui em diante. A primeira edição do “Daylight”, segundo Carlos Pessoa, deverá acontecer em setembro de 2026, com a duração de um mês e com a possibilidade de envolver até 15 participantes da área.

“Este primeiro projeto está a dar pequeninos passos e eu gostava que fosse maior, que crescesse. Quero que esta residência seja o princípio de uma coisa bonita que se possa fazer aqui em Beringel e espero que outras estruturas, da vila e do distrito, ligadas ao teatro, à dança, às artes plásticas e performativas se juntem a nós”, refere.

O intuito, para daqui a dois anos, passará também por envolver o Instituto Politécnico de Beja, através de uma parceria que permita a participação de alunos na residência artística, conseguir que a vaga destinada a um artista de Beringel fique preenchida, ao contrário do que aconteceu este ano, e alargar o número de profissionais das mais diversas áreas para “lecionar”.

“Por isso, desejo que isto cresça, que possa trazer mais gente, ter mais parceiros e, eventualmente, poder trabalhar mais diretamente com o politécnico e com alguma companhia de teatro ou algum grupo que se queira juntar. Estamos com uma perspetiva de crescimento, enriquecimento e de diversificação, porque sabemos que também há aqui um lado económico para a vila de Beringel, e isso é também um aspeto importante”, garante.

Nos horizontes está ainda a utilização do Casão da Garagem para receber “exposições e outras iniciativas no campo das artes performativas, cinema e artes plásticas”.

O “Daylight Project’24” termina neste domingo, dia 7, às 18:00 horas, com uma apresentação final que colocará à disposição do público o “micro laboratório humano” que foi sendo construído nas últimas semanas. “Mais do que um espetáculo final, será um encontro com todos os que nos queiram visitar, partilhar e estar connosco nesta última sessão.

Será também quase um batismo deste espaço, em que teremos aqui um primeiro momento de teatro e isso é o que me dará mais satisfação”, conclui o encenador.

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