A Escola Profissional de Alvito (EPA) é um dos três estabelecimentos de ensino a nível nacional a ministrar o curso de Técnico de Tráfego e Assistência em Escala, atualmente a formação com maior procura na escola. A partir de segunda-feira terão início, no aeroporto de Beja, os primeiros estágios realizados nesta área. Em setembro último, a EPA, propriedade da cooperativa Novalvito, passou a funcionar em novas instalações e inaugurou dois centros tecnológicos especializados.
Texto Nélia Pedrosa
“Estou nervosa, entusiasmada, curiosa… É muita coisa. É a primeira vez que vamos estagiar, não sabemos o que nos espera”, confessa, ao “Diário do Alentejo”, Gercilina Almeida, enquanto passa a mão pelo cabelo impecavelmente apanhado atrás da nuca e acomodado dentro do chamado pillbox, chapéu que complementa o fardamento de saia/casaco em tons de azul e de onde sobressai, preso na lapela, um crachá do Instituto Internacional do Turismo e Aviação (IITA). A jovem são-tomense de 18 anos faz parte do primeiro grupo de alunos do curso de Técnico de Tráfego e Assistência em Escala (TTAE) da Escola Profissional de Alvito (EPA) que a partir da próxima segunda-feira, e durante um mês e meio, irá trocar as salas de aulas pela placa e balcões de check-in e embarque do aeroporto de Beja. A versatilidade de funções – “Dentro desta área, podemos fazer bastantes escolhas: trabalhar em terra, fazer check-in, [gerir] carga” – e a possibilidade “de conhecer mundo” foram duas das principais razões que levaram Gercilina Almeida a optar pelo curso de TTAE, embora, admita, a sua ambição seja ser hospedeira de bordo. O curso profissional permitir-lhe-á, assim, a curto prazo, ingressar no mercado de trabalho – “no aeroporto de Lisboa ou do Porto” –, e amealhar “fundos” para prosseguir os estudos. Já o colega Diogo Andrade aspira vir a trabalhar como diretor de uma empresa aeronáutica. Nascido na Suíça, mas com raízes familiares em Alqueva (Portel) e Moura, o jovem de 17 anos chegou à Escola Profissional de Alvito para seguir a mesma área dos irmãos – “um é piloto de aviões em Espanha e o outro é mecânico de aeronaves da Força Aérea em Beja”. “Esta é mesma uma área que me interessa”, reforça, sublinhando que o que mais o surpreendeu, até ao momento, no curso, foi a complexidade inerente à preparação dos voos. “Muitas pessoas não fazem ideia…”.A Escola Profissional de Alvito, propriedade da cooperativa Novalvito, é um dos três estabelecimentos de ensino profissional do País – os outros dois localizam-se em Ponta Delgada, nos Açores, e em Rio Tinto, Gondomar – a ministrar o curso de Técnico de Tráfego e Assistência em Escala, criado no ano letivo de 2024/2025 através de uma parceria estabelecida com o Instituto Internacional do Turismo e Aviação, numa ótica de “encerramento de um ciclo”, considerando a oferta disponibilizada pela escola – Técnico de Cozinha/Pastelaria, Técnico de Restaurante/Bar, Técnico de Informática de Gestão e Técnico de Turismo Ambiental e Rural, todos de nível IV (que dão equivalência ao 12.º ano de escolaridade) –, mas também devido à proximidade ao aeroporto de Beja, justifica o diretor da EPA. Ou seja, refere António Coelho, houve desde sempre o cuidado de adequar a formação oferecida às necessidades do mercado de trabalho, nomeadamente, regional, o que nem sempre é tido em conta pelos estabelecimentos de ensino profissional, alerta. “É preciso fazer um realinhamento relativamente aos cursos que existem, porque há um desfasamento muito grande em relação àquilo que se precisa e àquilo que se está a formar. [Em alguns casos] está a formar-se para nada. Mas não é nosso caso, felizmente”. Aliás, um estudo da Fundação Francisco Manuel dos Santos publicado em julho do ano passado realça que é preciso alinhar melhor este tipo de ensino com as carências sentidas, designadamente, através do aprofundamento das parcerias com empresas. “A área do TTAE é importante porque acaba por complementar um bocadinho toda esta panóplia de cursos que nós ministramos na escola. Depois de termos a restauração, depois de termos a informática, depois de termos o turismo, precisávamos da aviação. Porque o meu, ainda, sonho, por muito que fosse pequenino, era que o aeroporto de Beja seria, de facto, aqui uma possibilidade. Mas parece que não vai ser… vamos ver”, reforça o diretor da EPA. Tendo em conta a ainda recente implementação do curso, frisa, “o mesmo está a ser avaliado, assim como esta parceria com a empresa internacional”, fundada em 2012 no Reino Unido e em Portugal desde 2022. “Estamos todos a aprender um bocadinho e a descobrir se o ‘casamento’ também resulta ou não. Oxalá que sim, que resulte. Era nossa vontade, ainda para mais é um curso neste momento, principalmente, por parte dos Palop – Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa, com uma grande procura. O avião, para eles, é obviamente diferente [comparando com o significado que tem para os alunos nacionais)”. Em termos de saídas profissionais, porém, “neste momento ainda é uma incógnita”, admite António Coelho. Ainda assim, quase dois anos volvidos, o TTAE consolidou-se como a formação com maior procura na escola, o que é justificado, segundo as palavras do diretor, pelo facto de os jovens ficarem “encantados com o fardamento, com a ideia do avião, de poderem viajar e o vencimento”. Em sentido inverso, menos solicitados, “infelizmente”, surgem os cursos de Técnico de Cozinha/ /Pastelaria e Técnico de Restaurante/ /Bar. Longe vão os tempos, sublinha o responsável, em que estes dois cursos eram dos mais procurados, levando mesmo a que a escola fosse apelidada de “Escola hoteleira”, designação pela qual ainda hoje é conhecida. “Acho que temos um know how muito grande em relação à parte da restauração”, frisa, avançado como fatores explicativos para que essas áreas tenham deixado de ser tão aliciantes “o pagar-se pouco, as horas de trabalho em excesso, serem profissões pouco reconhecidas”. Dada a escassez de mão de obra especializada na área da restauração, a empregabilidade acaba por ter uma taxa de 100 por cento. “Os alunos que estão no terceiro ano já todos têm emprego garantido. Os dois momentos de estágio (no segundo e terceiros anos) são em dois locais diferentes e, às vezes, têm propostas dos dois. Até mesmo os alunos de turismo ambiental e rural. Por causa do turismo rural. Porque são miúdos que também são preparados numa vertente abrangente. Em termos de estágios não conseguimos responder àquilo que nos solicitam. Eu vejo outros cursos profissionais noutras escolas e é uma dor de cabeça para conseguirem colocar alunos. Nós aqui não temos problemas absolutamente nenhuns, antes pelo contrário”.Mas se aquando da escolha das empresas ou organismos para os dois momentos de estágio os alunos optam por ficar na região, neste caso em concreto no Baixo e no Alto Alentejo, o mesmo já não se verifica quando terminam a sua formação. Aí acabam por procurar outros pontos do País. Para António Coelho, a solução para este problema passará pela criação de condições que permitam fixar estes jovens, até porque “existem na região unidades hoteleiras de referência”. Uma “elevada mobilidade dos indivíduos que se formam neste tipo de ensino” também é observada pelos autores do estudo da Fundação Francisco Manuel dos Santos, que sublinham que tal sugere que, “ao planear os cursos, é necessário que haja um maior alinhamento regional”. Por isso, aconselham que a oferta seja gerida ao nível das comissões de coordenação regional, que esta seja integrada com as estratégias económicas regionais e que haja partilha de infraestruturas, isto é, que os municípios possam coinvestir em instalações e equipamentos de ensino profissional partilhados, “sobretudo, em zonas de baixa densidade populacional“.
Ensino profissional na EPA “é primeira escolha”
Dos 180 alunos que frequentam atualmente a EPA – divididos por nove turmas (três de primeiro ano, três de segundo e três de terceiro) nos cinco cursos já mencionados –, 33 por cento são provenientes dos Palop, com destaque para Cabo Verde, Angola e Guiné. Os nacionais chegam, fundamentalmente, de Beja, Ferreira do Alentejo, Vidigueira, Moura, Torrão e Viana do Alentejo. E se o ensino profissional, em muitos casos, ainda é visto apenas como um “plano B”, como uma alternativa ao prosseguimento dos estudos num estabelecimento dito de ensino convencional, no que à Escola Profissional de Alvito diz respeito é já a primeira escolha da grande parte, se não da maioria, dos alunos. E isso é visível pelo nível etário de quem ingressa no estabelecimento, justifica António Coelho. “Em 1995, quando entrei [para a EPA], se calhar a média de idades dos alunos era de 20 anos, já quase no limite para poderem ingressar no ensino profissional. Hoje têm 14, 15, 16 anos. Mas a sociedade continua a ter um preconceito muito grande em relação a este tipo de ensino, e, principalmente, as famílias. Eu digo que estes jovens são uns corajosos. Há uma resistência muito grande… Eu tenho alunos [no ensino público] em que a família insiste no ensino científico-humanístico. E como é que se pode dar a volta a isto? Como é que se pode valorizar este tipo de ensino? Com tantos anos que eu tenho disto, não sei… acho que nunca”. E é este mesmo preconceito que o diretor considera ser um dos principais motivos que justifica que o ensino profissional em Portugal ainda “só represente 46 por cento”, quando deveria representar 70 por cento, à semelhança de outros países da Europa. Para António Coelho, há claras vantagens neste ensino profissional, desde logo o modelo de avaliação, “um modelo que se adequa ao jovem, porque os jovens querem tudo mais rápido, um modelo em que eles obtêm os resultados à medida que vão terminando cada um dos módulos ou unidades de formação de curta duração”. “Ao fim das 25 horas o aluno é avaliado. Ponto. Mais 25 horas e é avaliado. E isso faz com que haja até mais própria motivação”, logo, contribuirá para uma melhoria dos resultados, acrescenta. Depois, o facto de permitir uma “dupla certificação”, “uma académica, que lhes permite ir para a universidade, e uma profissional, podendo começar a trabalhar numa área porque está, logicamente, com competências para a desenvolver”.
Investimentos superiores a cinco milhões de euros O presente ano letivo de 2025/2026 fica, entretanto, marcado pela inauguração das novas instalações da escola profissional, resultado de um investimento municipal superior a 2,5 milhões de euros. Paralelamente, o estabelecimento de ensino garantiu um financiamento de 2,6 milhões de euros no âmbito do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) para a criação de dois centros tecnológicos especializados, nas áreas da informática e da vertente industrial, com especial destaque para os cursos de Cozinha, Restaurante/ /Bar e Turismo, visando aumentar a qualidade do ensino ministrado e preparar os alunos para as exigências do mercado de trabalho. De acordo com o diretor da EPA, a escola dispõe, atualmente, de equipamentos que muitas unidades hoteleiras que recebem os alunos para estágio não têm. Por exemplo, a cozinha pedagógica, o restaurante pedagógico e o bar pedagógico – que recebem, com alguma regularidade, parceiros e empresas que querem dar a conhecer os seus produtos – estão apetrechados com equipamento “de topo”, desde garrafeiras “que suportam vinhos brancos, vinhos rosés e vinhos tintos, em que cada uma das prateleiras está à sua temperatura, até fornos de convecção, em que podemos ter doces, carne e peixe sem que se misturem os odores”. “[Estes investimentos] permitem-nos fazer tudo o que se possa imaginar fazer. Transformarmo-nos numa empresa, responder às necessidades das próprias empresas. Estamos preparados, por exemplo, para receber formações do Turismo de Portugal [que realizou recentemente uma visita institucional à escola]. Já há duas, de housekeeping e de enogastronomia, que vão decorrer aqui na escola, porque as empresas chegaram aqui e ‘uau!’, é aquilo que ouvimos aqui dizer, isto ‘é um hotel dentro de uma escola’. Hoje temos tudo, do mais moderno que existe”. Como complemento à EPA, a Novalvito, que integra três entidades públicas e três privadas – câmara e juntas de freguesia de Alvito e Vila Nova da Baronia, Santa Casa da Misericórdia de Alvito, Centro Paroquial de Vila Nova da Baronia e Covito – Cooperativa Agrícola de Alvito –, gere, ainda, a Pousada do Castelo de Alvito, que é pertença da Fundação da Casa de Bragança, e uma residência com capacidade para 69 camas, atualmente ocupada por 52 estudantes, mas que poderá vir a aumentar a sua capacidade e a albergar também outros formadores e formandos, assim como grupos de turistas nos meses de verão, “respondendo a um segmento diferente do segmento da pousada, até porque nos meses de julho, agosto, setembro e meados de outubro os 24 quartos de pousada estão sempre em overbooking”, salienta António Coelho. Mas ainda que a ideia seja rentabilizar as várias ofertas da EPA, “por muito que se possa ter aqui um lado empresarial, o objetivo é que a formação não saia do horizonte”, garante o diretor, e daí a pretensão da EPA em transformar Alvito “num campus de formação”, agregando todas as valências.

Principais dificuldades
Os atrasos na atribuição dos financiamentos é, no entender, de António Coelho, uma da principias dificuldades com que se depara a EPA. A título de exemplo, a escola “ainda tem uma verba enormíssima por receber que é o saldo final do ano letivo de 2024/2025”. “Acho que não devíamos estar preocupados em saber se recebemos verba e quando. Devíamos estar mais concentrados no funcionamento da escola, nas questões pedagógicas”, diz o diretor. A isto acresce o “peso” que representa gerir uma residência e uma pousada. “A residência precisa, sobretudo, de trabalhadores que queiram trabalhar da meia-noite às oito da manhã, e não é fácil arranjar. E manter a pousada [apesar do peso que representa] faz todo o sentido. Poderá ser transformada num hotel de aplicação, à semelhança do que existe em Lisboa e no Porto. Ali complementa o que está aqui [na escola]. Aplica-se o que aqui se aprende”.