Depois de algumas semanas de instabilidade, por via da demissão das quatro direções das escolas superiores do Instituto Politécnico de Beja (IPBeja), arrastando-se o processo de substituição ao longo de dois meses, os novos nomes já foram aprovados em conselho geral da instituição. Em entrevista ao “Diário do Alentejo” (“DA”), a presidente do instituto, Maria de Fátima Carvalho, fala sobre o processo que abalou a vida interna da instituição a que preside.
Texto Marco Monteiro Cândido
Na passada segunda-feira, dia 6, decorreu a segunda reunião do conselho geral do IPBeja no espaço de duas semanas. Quais foram as decisões emanadas do encontro?
Esta reunião foi, de facto, marcada para que se viabilizassem as novas direções das unidades orgânicas. Nesse sentido, o conselho geral convidou-me para fazer uma breve contextualização sobre a escolha dos diretores propostos para cada uma das unidades orgânicas, ao qual acedi e expliquei a razão pelas quais tinham sido convidados estes novos diretores das unidades orgânicas. E, no final, o conselho geral emitiu parecer favorável aos nomes propostos. Portanto, neste momento, o Instituto Politécnico de Beja irá nomear uma nova equipa em cada uma das unidades orgânicas.
E agora, assumidas que estão as novas equipas, como é que se vai desenrolar este processo de transição?
Os atuais diretores, os demissionários, disponibilizaram-se, desde logo, para permanecerem em funções até as novas equipas tomarem posse e, portanto, isso acontecerá após publicação em “Diário da República”. Pensamos que por volta de 15 de fevereiro tudo estará normalizado em termos formais.
O espoletar deste processo foi o pedido de demissão apresentado pelos diretores e subdiretores das escolas superiores do IPBeja no início de dezembro passado. No documento apresentado pelas direções demissionárias, com as razões para esse pedido, são elencadas, em suma, a falta de diálogo por parte da presidência e a não participação nas tomadas de decisão desta. Que comentário faz acerca do exposto? Como é que encara esta situação?
Na verdade poderei aqui pensar que houve alguns motivos para tal acontecer. Não esqueça que tivemos, de facto, o primeiro ano da nossa presidência que foi num pós-pandemia, em que tivemos de nos centrar, enfim, em problemas que não estavam propriamente… digamos, problemas de ordem gestionária. E, como é óbvio, que nos poderão, eventualmente, ter tomado muito mais tempo do que o esperado e isso pode ter tido algum ruído, pode ser uma das razões que levaram a que haja… que possa ter havido… que me possa penalizar de alguma falta de diálogo que os diretores apontaram.
Lendo o documento, enviado pelas direções demissionárias, os motivos parecem ter sido algo mais do que isso…
Nós trabalhamos para a comunidade académica, para os alunos, e a distribuição de serviço docente foi uma das decisões tomadas. Ou a falta de tempo, também, para debater todas as questões inerentes à distribuição de serviço docente e, consequentemente, à colocação de professores, poderá ter sido uma das razões que levaram a esta situação. Como sabe, somos uma instituição de ensino superior, do interior, com todas as dificuldades que daí advêm, e, portanto, o serviço docente foi realmente uma das questões que poderá ter aqui gerado algum, digamos, menor entendimento entre as partes.
Entende, então, que não houve outras razões, para além das elencadas e da leitura que faz?
Na verdade, o que nos chegou, e também à comunicação social, foi que, de facto, a falta de diálogo teria sido a razão pela qual houve, digamos, descontentamento das direções. Nós tentámos, enfim, dentro deste primeiro ano de mandato, colmatar todas as falhas que poderia haver. Como lhe digo, foi um ano atípico, depois da pandemia, com muita exigência também, em que tentámos correr para desafios que estavam a acontecer e conseguimos bastantes sucessos. Mas isso pode-nos ter, por outro lado, também tirado algum tempo para o diálogo, se é que isso pode ser apontado como uma razão.
Posso depreender das suas palavras que, retirando esse tempo para o diálogo, é algo que vai corrigir daqui para a frente?
Sim, estamos dispostos, e já no ano passado, no início deste ano letivo, o fizemos, no sentido em que não queremos que se volte a repetir toda a situação que aconteceu no ano passado. O presidente está aqui para governar para todos, para tentar o diálogo e, de facto, se alguma coisa não correu bem, estamos aqui para o corrigir e já o tentámos fazer no início deste ano letivo. Embora, possivelmente, já tenha sido tarde. Mas já tentámos começar um diálogo efetivo relativamente àquilo que nos tenha dividido, que foi a distribuição de serviço docente.
Mas foram oito pessoas… Não é uma situação pontual de uma, duas, três: foi um bloco. Não considera isso, no mínimo, curioso?
Talvez não. Todo o relacionamento que existia com as unidades orgânicas também era feito em bloco. Portanto, é natural que quando alguma coisa não esteve bem, que ela também seja manifestada em bloco. Tal como havia esta relação em bloco, consequentemente, se houve algo que não correu bem, teria de acontecer também em bloco. Penso que isso será uma explicação. Pelo menos é a que nós temos oficialmente dentro da presidência.
Mas esta situação, certamente, causou-lhe alguma perplexidade…
Repare, um presidente, quando dispõe da sua vida, também, quando tenta abarcar esta missão, fá-lo sempre para que tudo corra bem, como em tudo. E, na verdade… não gostaria que tivesse acontecido e, por isso, já me dispus, no início do ano letivo, a corrigir aquilo que me pareceu ser o problema de acontecer esta demissão em bloco. Inclusivamente, fizemos reuniões com as direções, ainda não demissionárias, no sentido de nos ajudarem, então, a refazer todo o problema da distribuição de serviço docente. Iniciámos esse diálogo em novembro, enfim, já talvez tarde, mas fizemo-lo.
No comunicado da presidência do IPBeja do início do ano, assinado por si, há uma série de acusações, mais ou menos veladas [“…ceder a projetos individuais, (…) como alguns pretenderão e já não disfarçam…”]. Desculpe-me a franqueza, mas parece que há aqui mais do que aquilo que me está a dizer. O comunicado parece ter muitas coisas nas entrelinhas…
O comunicado teve o seu principal objetivo que foi informar a comunidade académica. Tínhamos obrigação de enviar para a comunidade académica uma informação sobre aquilo que se passava e, ao mesmo tempo, uma tentativa de apaziguamento de todos os problemas que estavam a ocorrer dentro da instituição. Portanto, foi nesse sentido que escrevemos esse comunicado. Nunca tivemos outra intenção que não essa.
Mas a própria reação dos demissionários revela que não o entenderam assim…
Atualmente, para o bem e para o mal, cada pessoa tem acesso a ser jornalista, isto é, a participar na divulgação da informação. E parece-me que, talvez, na origem desses possíveis mal entendidos tenha estado isso. Nunca se sabe quem manda para a comunicação social a informação que começou a sair, que começou a incendiar, e essa, sim, foi a responsável por estes mal entendidos. Não o nosso comunicado em si, que tinha por objetivo informar a comunidade académica. Informar, apaziguar e não atacar ninguém, propriamente dito.
Mas, no meio disto tudo, há este comunicado em que as direções demissionárias falam em inverdade. E toda esta situação parece-me que não será meramente explicada pelo facto deste assunto chegar à comunicação social. Parece-me que isto é mais do que uma mera má interpretação dos documentos: o comunicado que a presidência faz em janeiro e, depois, o documento que os demissionários fazem, motivado por ter chegado à comunicação social ou não, tem um teor onde há uma série de coisas que ficam subentendidas, com acusações de que há coisas que não correspondem à verdade no vosso comunicado…
Bem, o que lhe posso dizer é a nossa parte. A nossa parte sempre teve como objetivo apaziguar o IPBeja, dizer que estávamos aqui, que fui eleita e que honraria a minha posição. Portanto, essa foi sempre a intenção com que o fizemos. E que a instabilidade que estava a ser criada em nada iria colocar em causa o nosso Instituto Politécnico de Beja. Isso foi a nossa preocupação base. E estamos aqui. A trabalhar todos os dias, com muita dificuldade, mas estamos aqui a cumprir a missão para a qual fomos eleitos.
Em maio do ano passado, numa peça que fizemos no “DA”, em que falou no Plano Estratégico 2025, referiu a deficiente produção científica, o envelhecimento e a desmotivação dos docentes. Considera que essa análise poderá ter motivado algum descontentamento por parte das direções?
Devo dizer-lhe que não sou política. Venho de uma carreira científica e, como tal, penso que fiz a minha carreira com dignidade, com garra e foi com essa garra que vim para o IPBeja. E, portanto, muitas das palavras que podemos dizer com outra intenção, serão vistas sempre de uma maneira negativa. Mas não: a presidente está aqui todos os dias para ajudar qualquer um deles. Ajudar a melhorar o seu currículo, a produzir cada vez mais para que possam atingir todos os patamares da sua carreira. Toda essa forma como me dirigi talvez não tivesse tido a astúcia para o transmitir de uma forma que as pessoas percebessem: “não, pode haver lacunas que todas as instituições têm, mas a presidente está cá para vos ajudar e para as colmatar”. Sempre foi essa a minha intenção. Se, de facto, ela foi lida noutro sentido, lamento, porque não era isso que eu queria. Por isso mesmo lhe digo: em resultado do nosso trabalho temos vários tipos de projetos em que temos uma equipa vasta a trabalhar. E isso é que vai melhorar a imagem da nossa instituição. Para isso é que estamos cá a trabalhar. Quero que os docentes do IPBeja pensem isso: que a sua presidente, que elegeram, está aqui exatamente para isso, para elevar o politécnico. E, ao elevar o politécnico, estou a elevar cada um dos docentes que aqui trabalha. Criar-lhes condições para que o possam fazer e nunca entravar. Ser aqui um facilitador de todo o processo que os leve ao sucesso.
Considera que, com este corpo docente, é possível motivá-lo e preparar o politécnico para o futuro?
Digo sempre que o IPBeja, estando numa região desfavorecida, para uma presidente, é um desafio constante. É esse desafio que me faz estar aqui todos os dias a lutar com algo tão difícil como é fazer um currículo igual a uma universidade, estando aqui no IPBeja. Não é impossível. É possível. Temos de trabalhar, temos de ter garra até lá chegar. E vamos chegar. E há colegas que o demonstram e esses têm de servir de exemplo para os outros. As nossas instituições estão a sofrer muitas modificações rápidas e isso exige uma adaptação constante do corpo docente. Uma adaptação pedagógica para as novas metodologias ativas, e estamos a formar docentes nesse sentido; uma adaptação científica e, ao mesmo tempo, ser docente. Não é fácil e talvez essa mensagem que possa ter passado deriva – e aí a presidente pode penalizar-se – da maneira como a transmitiu. Mas não era essa a intenção. Era, de facto, mostrar-lhes o quanto estamos a trabalhar para que tudo seja ultrapassado e alterado. Também aumentar o serviço ao exterior, chamar toda a comunidade académica para que os nossos docentes possam participar na construção de uma região mais forte e inovadora. Estamos a modernizar muitíssimo o politécnico. Acredito que com esta velocidade as pessoas se assustem, mas nós não deixamos que elas se assustem. Elas hão de perceber que estão aqui a caminhar no bom sentido e hão de sentir-se recompensadas.
Esta situação poderá ter destabilizado internamente o IPBeja? E em termos de opinião pública?
Acho que destabilizou o politécnico, sem dúvida. Estamos aqui para retomar toda a acalmia e toda a vida académica normal. Não me parece que tenha tido impacto algum sobre os alunos, porque nós tentámos que isto fosse um problema interno. E ele foi tratado como um problema interno, apesar de algumas fugas, mas tudo foi tratado como um problema interno. Estamos numa altura de mudança dos politécnicos. Espero que na Páscoa já possamos utilizar a sigla Politechnic University of Beja. À partida podemos já usá-la na Páscoa, esta designação (irá ainda ser votada na Assembleia da República) para o exterior, Europa e não só. E estamos a trabalhar para podermos ter cá, a par dos outros institutos, os doutoramentos. Temos uma caminhada muito grande e não queremos, de modo algum, que estas turbulências que acontecem nas instituições possam desviar-nos da rota necessária para atingirmos o nível que nos é exigido. Tudo faremos para que isso se mantenha.

“OS POLITÉCNICOS PODEM SER O MOTOR PARA TODA ESSA NOVA REALIDADE"
Como encara a possibilidade de os politécnicos poderem atribuir doutoramentos? E o facto de as universidades se oporem a isso? O presidente do Conselho de Reitores das Universidades Portuguesas, António Sousa Pereira, referiu que se pode assistir a uma “sul-americanização do sistema de ensino superior”…
Nós vamos continuar a ter dois sistemas de ensino. Continuaremos sempre com o ensino fundamental, o universitário, e o ensino aplicado, o politécnico. Nós, politécnicos, temos condições para outorgar o grau de doutor, mas temos de procurar o nosso caminho. Temos de encontrar um doutoramento baseado em inovação industrial, tecnológica. Não digo um doutoramento mais virado para a prática, mas um doutoramento que nos permita uma distinção dos doutoramentos fundamentais que existem nas universidades. E, só assim, com esse alinhamento, poderemos continuar com os dois sistemas, mas que são necessários ao nosso país: quer o estudo fundamental, quer o estudo aplicado. E o IPBeja, quando preparar o seu doutoramento, deve posicionar-se nesse sentido. Não temos ainda qualquer indicação concreta sobre como devem funcionar os doutoramentos, mas, sim, que deveremos encontrar o caminho certo para que nos diferenciemos e que sejamos úteis ao País. Cada vez mais as nossas indústrias precisam de inovação, nós precisamos de nos diferenciar a nível tecnológico e os politécnicos podem ser o motor para toda essa nova realidade.
“PREJUDICADOS RELATIVAMENTE ÀS CONGÉNERES EUROPEIAS"
O IPBeja poderá começar a usar, em breve, a designação de universidade politécnica. O que significa esta mudança de nome?
Existia a iniciativa dos cidadãos, que pretendia que os politécnicos passassem a universidades politécnicas, porque, na verdade, estamos a ser prejudicados relativamente às congéneres europeias, uma vez que já temos universidades politécnicas. Quando nos queremos afirmar no exterior, em todas as nossas relações internacionais, há o handicap: o que é o politécnico? Inclusivamente, na América Latina há muita dificuldade em nos entenderem como sistema. Então, pretendemos passar à designação de universidade para que possamos estar em pé de igualdade com as congéneres europeias e para que sejamos reconhecidos, pelo nosso valor, por todas as universidades do mundo. Como um ensino universitário e não como um politécnico em que não se sabe bem do que é que se trata. Temos praticamente a certeza de que vai ser votado positivamente. O Partido Socialista já se comprometeu a votar nesse sentido, mais ou menos na altura da Páscoa, em abril. Depois, com a alteração do Regime Jurídico das Instituições de Ensino Superior, teremos um período de dois anos de transição. Após esse período, em 2024/2025, pensa-se que teremos a designação universal de universidade politécnica, também internamente.
“AS INSTITUIÇÕES DE ENSINO SUPERIOR TÊM DIFICULDADE EM CAPTAR ALUNOS, MAS TAMBÉM EM OS MANTER"
O presidente da Comissão de Avaliação do Ensino Superior, Alberto Amaral, alertou, recentemente, para a possibilidade de desaparecimento de algumas instituições de ensino e para a fusão de outras, devido à redução de jovens e ao decréscimo de alunos. E, num exercício de “futurologia”, referiu a possibilidade de fusões em Beja, Portalegre e Évora. Teme que as alterações, nomeadamente, de financiamento estatal para instituições com poucos alunos, coloquem em causa o futuro do IPBeja?
É uma realidade que temos um decréscimo demográfico, mas iremos lutar para encontrar mercados que possam tornar o IPBeja atrativo. Começámos já a pensar no futuro, com a criação de condições para atrair alunos, como uma residência de 500 novas camas. Por outro lado, existem muitas possibilidades para o ensino politécnico. Por exemplo, Portugal é dos países que tem maior percentagem de alunos a entrar no ensino superior com menor idade. Podemos pensar sempre, e estamos a falar a longo prazo, que o nosso público podem não ser os alunos que saem do liceu, do ensino secundário. Podem ser pessoas que estão no ativo. Temos de nos recriar e essa nova recriação dos politécnicos, o tal reinventar-se em cada dia, poderá trazer-nos essa autonomia de alunos, se formos capazes de o fazer. Queremos estabilizar a nossa instituição para chegarmos a esse patamar de sermos autónomos. O menor número de alunos, para já, estamos a combatê-lo (o IPBeja tem cerca de 3200 estudantes). As instituições de ensino superior têm dificuldade em captar alunos, mas também em os manter. Já o Ministério da Ciência e Tecnologia está a trabalhar nesse sentido, proporcionando-nos financiamento para criar condições de reter o aluno aqui até à sua formação. Não é só captar alunos, é também mantê-los de modo a que as taxas de sucesso sejam elevadas. E, neste momento, temos taxas de sucesso, em todas as instituições nacionais, muito baixas.