Em crise há vários anos, e acentuado nos últimos da pandemia, o setor da lã está atualmente em “baixa”, não se perspetivando, a curto prazo, uma alteração significativa. Para Miguel Madeira, responsável do Serviço de Tosquia e Lãs da ACOS –Associação de Agricultores do Sul, o problema “é um ciclo vicioso” que começa com a falta de mão de obra qualificada.
Texto Ana Filipa Sousa de Sousa
A menos de um mês do início da época da tosquia das ovelhas, que terminará depois em meados de junho, o cenário quanto ao mercado deste ano “não se perspetiva com grandes alterações”, mantendo-se, segundo o responsável do Serviço de Tosquia e Lãs da ACOS, Miguel Madeira, “em baixa, muito em baixa”.
A descida drástica dos preços que se registou no setor com o começo da pandemia fez com que grande parte dos produtores, que já lutava contra mercados australianos, neozelandeses e chineses difíceis, se desinteressasse ainda mais pela atividade.
“Os preços da lã diminuíram drasticamente, mais ou menos do início da pandemia para cá, a pontos de, neste momento, estarem aí por um quarto ou menos do que aquilo que a lã valia antes desse período. É um mercado a nível mundial onde nós, Portugal, somos um muito pequenino player que não temos importância praticamente nenhuma, porque a quantidade de lã que produzimos é insignificante e, portanto, estamos um bocadinho à mercê do que os outros países decidirem em termos de mercado, nomeadamente, a Austrália, a Nova Zelândia e a China, visto que a maior parte da transformação da lã se faz nesses países”, revela o também médico veterinário.
Em tempos, nos anos 60 e 70 do século passado, Portugal era um dos principais países com renome no setor, tendo, inclusive, técnicos, “muito conhecedores”, do Ministério da Agricultura, que desenvolveram a atividade ao nível da qualificação de mão de obra e da fileira de produção desde a ovelha no campo até à indústria, “a pontos de, quer os ingleses, quer os australianos, virem cá beber alguma informação da nossa parte”.
Contudo, a sucessiva desvalorização do preço da lã no mercado fez com que grande parte dos produtores enveredasse por outros caminhos, como a criação e venda de borregos e de leite de ovelha, e deixasse de investir no setor, passando este a ser encarado como “um mal necessário”.
“As ovelhas tinham de ser tosquiadas por questões de conforto e bem-estar animal e a lã que se vendia já não pagava a tosquia, portanto, aquilo passou a ser entendido, pelo produtor, como é ainda atualmente pela maioria, como um mal necessário. Aliás, há alguns que me dizem ‘quem me dera a mim que as minhas ovelhas não tivessem lã’”, refere o responsável de 53 anos.
O alto custo de mão de obra, associado ao pouco ou nenhum lucro que a lã dá ao produtor, prejudicou em grande parte a própria qualidade do produto, o que, consequentemente, fez com que também o valor dado por ela no mercado acompanhasse essa descida e se tornasse “um ciclo vicioso”.
“Como eles se despreocuparam com a lã, esta não tem qualidade e quando vai para o mercado não vale [tanto] e depois isto acaba por ser um ciclo vicioso”, revela.
NOVAS SOLUÇÕES NO ALENTEJO
A par desta escassez de mão de obra qualificada, também os altos valores praticados pelos “poucos” tosquiadores existentes no Alentejo faz com que a ACOS, desde 2015, siga o exemplo da vizinha Espanha e recorra a mão de obra uruguaia e argentina a um “preço muito interessante” nesta época do ano e que vai ao encontro das necessidades dos produtores.
“Experimentámos e começámos a trabalhar com estas equipas do Uruguai e da Argentina, que vêm via Espanha, sendo que há uma diferença importante para a nossa realidade que é o facto de estas equipas fazerem tudo: apanham a ovelha, tosquiam-na e embalam a lã, enquanto os tosquiadores portugueses, até à data, só tosquiam e, por isso, o detentor das ovelhas tem de contratar mão de obra para apanhá-las e ensacar a lã”, explica.
E resume: “O nosso objetivo de enveredarmos por este caminho das equipas de tosquia foi controlar os preços e disponibilizar um serviço que, por os números que nós presenciamos atualmente em termos de aderentes, vai mesmo ao encontro do que os produtores precisam, porque têm dificuldade em arranjar pessoas para a atividade e, portanto, vindo estes tosquiadores com a incumbência de fazerem tudo é ali a junção perfeita de interesses”.
Os números de adesão são, assim, outro dos indicadores que revelam o triunfo desta aposta, marcando um ritmo “crescente” de ano para ano. Na época passada a ACOS tosquiou 142 mil ovelhas e armazenou 365 mil quilos de lã e neste ano a “esperança é que se tosquie ainda mais”.
“No ano passado tosquiámos cerca de mais de 22 mil ovelhas do que tínhamos tosquiado em 2021 e neste ano a nossa esperança é de tosquiar ainda mais 10 mil”, revela.
Ainda assim, Miguel Madeira salienta que esta é uma solução cómoda de momento, mas não segura, uma vez que “pode haver uma alteração qualquer em que se feche fronteiras ou que a moeda de lá se valorize e eles deixem de ter interesse em vir para cá e nós ficamos descalços, como se costuma dizer, e sem tosquiadores”.
O FUTURO PASSA POR INFORMAR E FORMAR OS PRODUTORES
Atualmente, segundo conta o médico veterinário, grande parte dos tosquiadores “aprenderam por si” e “dão muitos erros técnicos na execução da tosquia” que condiciona ou estraga as características da lã que segue para a indústria, o que também é um fator de desvalorização do preço da mesma no mercado.
“O que acontece é que muitos dos tosquiadores que existem agora em Portugal não foram formados, foram aprendendo com os outros e depois, por vezes, há ali enviesamentos que têm de ser corrigidos durante a formação, porque as pessoas começam a repetir muitos erros que se tornam regulares. Daí a importância da formação para dizer às pessoas para não fazerem determinada coisa, mas explicar a razão”, diz.
A própria forma de tosquiar, com a ovelha em posição sentada e de forma contínua, o local onde se pratica essa atividade, que deve ser o mais higienizado possível, e o acondicionamento da lã sem restos de matéria orgânica são algumas das temáticas que a formação obriga os profissionais a entender e a respeitar para garantir a qualidade do produto final.
“Portanto, o nosso objetivo enquanto organização da produção é, até porque temos aqui um departamento de formação profissional, retomar a formação de tosquiadores antes que o nosso técnico, Joaquim Canhoto, se retire, para termos disponíveis cá essa mão de obra e para nos socorrermos dela, sazonalmente, todos os anos. Mas não tem sido fácil, porque não tem havido candidatos”, revela.
Além deste problema, também a opinião que a sociedade, e os próprios produtores de ovinos, têm do mercado tem de sofrer alterações. Para a ACOS é importante que os seus associados percebam que “têm em mãos um património que pode ser muito valorizado” face às suas componentes renováveis, ambientalmente sustentáveis e recicláveis, ao mesmo tempo que tem uma facilidade enorme em ser melhorado e que, com uma boa fileira de produção até à indústria, permitirá “ultrapassar esta crise que aqui está instalada”
. Quanto à sociedade, Miguel Madeira deixa um alerta: “A lã tem este handicap de ser de facto uma fibra mais cara do que as outras neste momento, contudo, se virmos bem, é apenas aparentemente mais cara, porque quando nós tivermos de pagar todos os prejuízos que estamos a causar por estarmos a usar fibras sintéticas derivadas do petróleo, veremos que é um preço idêntico”.