O serviço de urgência de obstetrícia e ginecologia do Hospital José Joaquim Fernandes, em Beja, esteve encerrado entre as 18:00 horas de 22 de julho, sexta-feira, e as 8:00 horas de dia 24 de julho, domingo. A administração da Unidade Local de Saúde do Baixo Alentejo (Ulsba) admite que a situação pode voltar a repetir-se.
Texto Aníbal Fernandes
Durante um dia e meio, entre sexta (22) e domingo (24), as grávidas que necessitaram de recorrer ao serviço de urgência de obstetrícia e ginecologia do Hospital de Beja, tiveram de recorrer a Évora ou Faro para serem atendidas, devido à falta de médicos da especialidade.
Até mesmo o serviço de obstetrícia e ginecologia esteve encerrado entre as 8:00 horas e as 20:00 horas de sábado (23), mas “as puérperas mantiveram-se no internamento”, não tendo ocorrido “qualquer transferência”, apurou o “Diário do Alentejo” junto da Ulsba.
O diretor clínico da instituição, José Aníbal, na sexta-feira, explicou que as utentes internadas iriam permanecer no hospital e seriam acompanhadas, em caso de necessidade, por um médico residente na cidade.
Durante as 36 horas que durou o encerramento da urgência foi acionado o plano de contingência nível 4, o mais grave previsto para estas situações e que implica, neste caso, a transferência das utentes para os hospitais de Évora ou Faro. Contactada pelo “Diário do Alentejo” a administração da Ulsba admitiu que “em virtude do período de férias, esta situação poderá ocorrer mais vezes”.
Desde junho, têm-se sucedido os encerramentos de serviços de urgência de Ginecologia e Obstetrícia um pouco por todo o País, por dificuldades em assegurar escalas.
Entretanto, o coordenador da comissão de acompanhamento de resposta em urgência de ginecologia, na terça-feira, em entrevista à rádio “Antena 1”, admitiu ser necessário encerrar algumas maternidades. A falta de especialistas “pode implicar o encerramento de alguns hospitais que tenham maternidades e que as respostas sejam concentradas noutros hospitais”, disse Diogo Ayres Campos.
Para este especialista, Portugal tem assistido “a uma redução da natalidade (…) e precisamos, de facto, de repensar: se não temos equipas suficientes para manter abertos todos estes hospitais, temos de começar a pensar quais são aqueles em que temos de centralizar as respostas, sem criar riscos para as populações”, afirmou.
No entanto, Ayres Campos garantiu que estes eventuais encerramentos não atingirão o interior do País: “Só serão encerrados hospitais nas grandes cidades” e com outros por perto. A comissão reuniu no passado dia 28 de julho para decidir qual a estratégia a tomar em relação a este problema.
DÉCADAS DE ALERTA
“O problema é sempre o mesmo e tem a ver com as condições de trabalho, o vencimento e o reconhecimento da carreira médica”, desabafa Pedro Vasconcelos, presidente do Conselho Distrital da Ordem dos Médicos (OM). “A situação resvalou para o ponto em que está, mas era de prever, e não é nada para não viéssemos a alertar há décadas”, conclui.
O responsável da OM em Beja diz que o êxodo dos clínicos para os privados tem a ver com “as melhores condições de trabalho” que aí lhes são oferecidas, e acrescenta que na Ulsba faltam médicos em quase todas as especialidades “começando pela Medicina Geral e Familiar” a base do Sistema Nacional de Saúde (SNS).
“Calculo que, só em Beja, estejam, neste momento, cerca de cinco mil utentes sem médico de família”, diz Pedro Vasconcelos, dando um exemplo das dificuldades para completar as escalas no centro de saúde: “Ao fim de semana sempre esteve a funcionar de manhã e de tarde, mas agora só funciona no período da manhã”. A consequência é o desvio para a urgência hospitalar e o consequente entupimento daquele serviço.
CONCURSOS DESERTOS
O concurso para colocar médicos de família nos centros de saúde terminou há cerca de duas semanas com um terço dos lugares por ocupar em todo o País. Das 432 vagas disponibilizadas apenas foram ocupadas 272, mas o secretário-geral do Sindicato Independente dos médicos (SIM), Jorge Roque da Cunha, acredita que o resultado pode ser ainda pior, uma vez que “habitualmente cerca de cinco por cento dos novos especialistas acabam por não aceitar o posto de trabalho”.
A secretária de Estado da Inovação e Modernização Administrativa admitiu, este mês, que, em Portugal, havia 1,4 milhões de pessoas sem médico de família atribuído. O Governo decidiu, entretanto, contratar clínicos sem especialidade para colmatar esta falta, mas o Fórum de Medicina Geral e Familiar criticou a medida, considerando que “existem no País mais médicos de família do que aqueles que são necessários para o SNS”, estimando que fora do sistema estariam cerca de 1400 especialistas.