Diário do Alentejo

Centro de Paralisia Cerebral de Beja sem capacidade de resposta

14 de dezembro 2021 - 10:45

 

Conseguir “corresponder da melhor forma possível às necessidades dos utentes” e “manter a sustentabilidade financeira” são dois dos principais desafios que se colocam atualmente ao Centro de Paralisia Cerebral de Beja, uma instituição que fornece um leque variado de respostas aos indivíduos com problemas neuromotores e respetivas famílias, que completará, no próximo ano, quatro décadas de existência.

 

Até ao próximo dia 7 de janeiro, estará patente ao público, na galeria de arte da EDIA, a 20.ª edição da exposição “Arte numa Perspetiva Diferente”, que apresenta 25 trabalhos de sete utentes do Centro de Atividades Ocupacionais da instituição.

 

Texto Nélia Pedrosa

 

Quase quatro décadas volvidas sobre a sua fundação, o Centro de Paralisia Cerebral de Beja (CPCB), presta atualmente serviço a 560 utentes do distrito de Beja, distribuídos por nove valências/respostas sociais, que vão do Centro de Atividades Ocupacionais (CAO) ao apoio em regime de ambulatório, passando pela escola de ensino especial, centro de recursos para a inclusão, formação profissional, centro de recursos para o emprego, intervenção precoce, lar residencial e centro de apoio à vida independente. As necessidades de apoio em algumas dessas valências/respostas sociais são, contudo, superiores à atual capacidade de resposta da instituição, sublinha a presidente da direção.

 

As maiores carências, revela Ana Baptista, verificam-se ao nível da intervenção precoce, dirigida a crianças dos zero aos seis anos “com risco de alterações ou com alterações nas funções e estruturas do corpo, ou com risco grave de atraso de desenvolvimento”, e do ambulatório, “que se destina à reabilitação de crianças a partir de sete anos de idade, jovens e adultos, com paralisia cerebral e atrasos de desenvolvimento inerentes a patologias neurológicas afins, em regime externo”. No caso da intervenção precoce, fruto de uma “renegociação dos protocolos de cooperação com a Segurança Social”, foi possível, recentemente, “passar de 70 para 80 utentes”, adianta a responsável. Em ambulatório são também 80 os utentes abrangidos por acordo.

 

“De facto é preocupante não haver resposta para todos os pedidos. Isto também tem a ver com os próprios acordos de cooperação. Às vezes acabamos por dar apoio a mais alguns. Em termos de intervenção precoce, por exemplo, temos acordo para 80 e neste momento temos 120. No ambulatório certamente que se tivéssemos uma maior capacidade de intervenção, mais técnicos, mais financiamento, poderíamos dar mais resposta a estes utentes, porque é aqui que se desenvolvem maioritariamente as terapias”, como fisioterapia, terapia ocupacional, terapia da fala ou hipoterapia, entre outras.

 

E a situação torna-se mais preocupante, diz Ana Baptista, na medida em que “infelizmente não há grande resposta” ao nível do distrito de Beja. “Com esta resposta terapêutica somos nós e pouco mais, porque há outras instituições congéneres que não têm tanto esta parte da reabilitação neuromotora, e a própria capacidade de resposta da unidade de saúde local também não é tão específica assim e, portanto, infelizmente, algumas pessoas ficam sem a resposta que necessitavam. Podem ter alguma, mas não a suficiente”, alerta.

 

Ao nível do lar residencial, que se destina a alojar jovens e adultos com deficiência e/ou incapacidade “que se encontram impedidos definitivamente ou temporariamente de residir no seu meio familiar” e que alberga atualmente 22 utentes, a sua lotação máxima, também “haveria, se calhar, necessidade” de aumentar a oferta, diz a responsável. Tal não é possível, contudo, até porque o edifício “é relativamente recente”, frisa. O mesmo se verifica em relação ao centro de apoio à vida independente, um projeto-piloto “que assenta na disponibilização de assistência pessoal a pessoas com deficiência e incapacidade, garantindo condições para sua autonomia e autodeterminação, e consequentemente à participação em todos os contextos de vida”, também na sua capacidade máxima. “Só conseguimos dar resposta aos 24 utentes que temos. Se tivéssemos mais capacidade, eventualmente teríamos mais procura”.

 

PANDEMIA TROUXE NOVOS DESAFIOS

Conseguir “corresponder da melhor forma possível às necessidades dos utentes” e “manter a sustentabilidade financeira” são dois dos principais desafios que se colocam atualmente à instituição. Por outro lado, acrescenta Ana Baptista, há necessidade de “ir modernizando” o seu funcionamento “através da atualização de procedimentos, do desenvolvimento de estruturas informáticas que permitam dar uma melhor resposta”, assim como “corresponder àquilo que vão sendo as exigências cada vez mais rigorosas” inerentes ao funcionamento deste tipo de instituições particulares de solidariedade social.

 

A implementação de “um novo sistema de gestão da qualidade” em 2022, e que pressupõe “muito trabalho por parte de toda a equipa técnica e até dos outros colaboradores da instituição”, é outro dos desafios, assim como a reconversão do Centro de Atividades Ocupacionais em Centro de Atividades e Capacitação para a Inclusão (CACI), “uma outra forma de abordagem” que deverá estar concluída em 2023.

 

Outro dos desafios constantes passa por “tentar fazer com que a comunidade se envolva cada vez mais”, apoiando a instituição das mais variadas formas, nomeadamente, “através de donativos ou de parcerias”.

 

A estes desafios acrescem os decorrentes da pandemia de covid-19: por um lado, o acréscimo significativo de custos com “os equipamentos de proteção individual (EPI) e desinfetantes”, até pela própria dimensão da instituição e do número de funcionários (117); por outro, o cancelamento de atividades e encerramento de algumas valências por alguns períodos de tempo, situação que se irá repetir na “semana de contenção de contactos” decretada pelo Governo, entre 2 e 9 de janeiro, em que já está confirmado que o CAO fechará portas.

 

“A pandemia teve repercussões grandes em todas as valências/respostas sociais. Mas, na verdade, os nossos utentes do lar residencial ficaram privados de sair e de fazer um conjunto de coisas. Por inerência das ordens da tutela, estes utentes estiveram mais de um ano fechados no próprio lar, sem possibilidade de sair e sequer de frequentar o centro de atividades ocupacionais, com todas as implicações que isto tem, quer ao nível emocional, quer do ponto de vista da sua reabilitação, porque ficaram impedidos de fazer algumas terapias com a periodicidade que era normal”, salienta a dirigente.

 

REABILITAÇÃO DA PISCINA “SERIA UMA CONQUISTA MUITO GRANDE”

A reabilitação da piscina terapêutica existente nas instalações do CPCB, “desativada há algum tempo”, é um dos projetos que a direção gostaria de ver concretizado a curto/médio prazo. De acordo com Ana Baptista, “seria uma conquista muito grande para a instituição” e “uma grande mais-valia para os nossos utentes”. As obras, porém, “ascendem a mais de 50 mil euros” e “a instituição não tem capacidade financeira para isso”.

 

“Em termos terapêuticos seria fundamental voltarmos a ter hidroterapia na instituição, porque é uma piscina com características muito específicas. Sabemos que dispomos do equipamento do município, o problema é que a piscina aquecida do município não tem a temperatura adequada para estes utentes que têm um compromisso motor muito grande e, portanto, precisam de uma água com a temperatura bastante mais elevada”, esclarece a responsável.

 

Outro dos projetos passa pela criação de uma cozinha adaptada na casa da Horta de Todos, um espaço propriedade do CPCB e onde se desenvolvem atividades complementares com os utentes, como é o caso da hipoterapia. O espaço de 11 hectares integra, ainda, uma piscina descoberta utilizada no verão para “atividades lúdicas”. Segundo explica Ana Baptista, a cozinha adaptada permitiria que os utentes, nomeadamente, da escola de ensino especial e do centro de atividades ocupacionais, pudessem experienciar um conjunto de atividades de vida diária. “Mas também não é muito fácil, porque tudo isso requer muito dinheiro, mas temos vindo a dar alguns passos nesse sentido. Esperemos que, pelo menos até ao final do nosso mandato, em 2024, consigamos ter a casa o mais adaptada possível e fazer um conjunto de atividades na horta, porque é de facto um espaço fantástico e podemos tirar maior partido dele”, realça.

 

Nas palavras da presidente da direção do CPCB é necessário “ter muita criatividade, muita perseverança e muita capacidade de dar a volta às coisas para tentar prosseguir, o melhor possível, com a prestação dos serviços” aos utentes. “Nada aqui é monótono”, diz, salientando, contudo, que ao longo destes quase 40 anos de funcionamento da instituição “houve sempre um equilibro a vários níveis”, designadamente, “em termos da sua sustentabilidade, porque conseguiu sempre honrar com os seus compromissos”, quer com os funcionários, quer com os fornecedores.

 

“No cômputo geral acho que houve aqui sempre algum equilibro, é evidente que nós queremos sempre mais, e ainda bem que assim é, porque se não tivermos ambição estagnamos”, adianta, concluindo que gostaria “que a instituição fosse, cada vez mais, uma referência no âmbito da intervenção, com qualidade, para as pessoas com deficiência aos vários níveis, porque termos uma intervenção que vai desde a área da educação à área da saúde, passando pela ação social e pela integração socioprofissional”.

 

EXPOSIÇÃO "ARTE NUMA PERSPETIVA DIFERENTE"

Mais de cinco centenas de quadros da autoria de 19 utentes do CPCB, quatro deles presentes desde a primeira edição, já passaram pela galeria de arte da Empresa de Desenvolvimento e Infraestruturas do Alqueva (EDIA), no âmbito da exposição anual “Arte numa Perspetiva Diferente”, cuja 20.ª edição foi inaugurada no passado dia 3 de dezembro, Dia Internacional das Pessoas com Deficiência.

 

A mostra, que ao longo destas duas décadas “transformou-se em reconhecimento de mérito e é estímulo ao desenvolvimento intelectual dos utentes do centro, reforçando a sua integração e inclusão social e aumentando a sua auto-estima”, como refere o CPCB, reúne nesta edição um conjunto de 25 trabalhos de sete autores “que nos transportam para uma visão e perceções diferentes do nosso quotidiano”, com títulos como “O Nu à Janela” ou “O Olho Garganeiro”.

 

A exposição, que é uma parceria entre a EDIA e o CPCB e foi pensada em 2002 “com o objetivo de promover e divulgar o trabalho dos utentes do Centro de Atividades Ocupacionais (CAO)”, poderá ser visitada presencialmente até ao próximo dia 7 de janeiro na sede da EDIA ou então ‘online’ nas páginas do Facebook das duas entidades.

 

“A exposição acaba por ser o reconhecimento da comunidade daquilo que é a perspetiva destes pintores, da sua visão. Para os utentes é extremamente importante. Não só a inauguração da exposição, mas o irem acompanhando até a venda dos próprios quadros, o feedback que vamos tendo das pessoas e entidades, e isso acaba por ser uma aliciante para a continuidade dos seus trabalhos. Sabemos que a pintura é uma coisa muito prazerosa para eles”, afirma a presidente da direção do Centro de Paralisia Cerebral de Beja, Ana Baptista, adiantando que a parceria com a EDIA “é fundamental” para a instituição, mas da parte da empresa gestora do Alqueva também notam “que há um grande orgulho em serem nossos parceiros nesta atividade”.

 

A receita proveniente da venda dos trabalhos reverte integralmente para o Centro de Atividades Ocupacionais, valência que integra 60 utentes e em que “há sempre muitas necessidades”. “Há equipamento que tem de ser remodelado ou adquirido. Mesmo em termos informáticos, cada vez mais há ‘software’ específico para trabalhar com estes utentes. De momento estamos a adquirir ‘tablets’, e quatro deles foram objeto já de um donativo, o que é muito bom, porque permite-nos trabalhar um conjunto de competências em termos terapêuticos com os nossos utentes. Há sempre falta de qualquer coisa e esta verba acaba por ser muito bem-vinda”, assegura Ana Baptista.

 

CPCB PREPARA COMEMORAÇÕES DOS 40 ANOS

O Centro de Paralisia Cerebral de Beja – que teve como principal impulsionador o médico pediatra Artur Carvalhal – comemora no próximo ano o seu 40.º aniversário. A data “tão importante para a instituição” deverá ser assinalada com “algumas ações que irão decorrer ao longo do ano”, nomeadamente, “pequenos ‘webinars’, já pensando na questão da pandemia, ou seja, algumas ações de caráter técnico mas à distância, assim como algumas tertúlias”, diz Ana Baptista. A direção pretende ainda retomar o “Sunset by CPCB”, um evento solidário “que já tinha algum reconhecimento por parte da comunidade e bastante adesão” e cuja última edição teve lugar em 2019, antes da pandemia de covid-19. Outra das atividades previstas passa pela realização de um seminário presencial articulado com o Instituto Politécnico de Beja, outro parceiro considerado “fundamental”. A realização de algumas ações dependerá, no entanto, da evolução da situação pandémica, frisa a responsável. “Que estas comemorações dos 40 anos sirvam também para reforçar a nossa dinâmica em termos técnicos e poder partilhar com a comunidade aquilo que são as nossas experiências e trazer, inclusivamente, alguns especialistas nestas temáticas que possam dar aqui um contributo no sentido de evoluirmos e melhorarmos”.

 

Comentários