Diário do Alentejo

População de lince-ibérico ultrapassa os mil exemplares

11 de junho 2021 - 12:30

O Vale do Guadiana registava, no ano passado, segundo o Censo de Lince-ibérico 2020, 140 exemplares. Na Península Ibérica eram 1111. No total foram registados 14 núcleos populacionais.

 

Texto Nélia Pedrosa

 

Pela primeira vez, “desde que existem dados quantificados sobre a população de lince-ibérico”, foram ultrapassados os 1000 exemplares em toda a Península Ibérica, o que, segundo o Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF), é “um marco muito relevante no processo de recuperação desta espécie e melhoria do seu estado de conservação”.

 

De acordo com o Censo de Lince-ibérico, realizado em Espanha e Portugal, em 2020 foram registados 1111 indivíduos, repartidos entre Portugal, no Vale do Guadiana (140 exemplares – 12,5 por cento), Andaluzia (506 – 45,5 por cento), Castela-La Mancha (32 – 29,4 por cento) e Extremadura (141 – 12,6 por cento), num total de 14 núcleos populacionais.

 

Ainda segundo os dados disponibilizados pelo ICNF, dos 140 exemplares registados no Vale do Guadiana, 80 são indivíduos adultos ou subadultos (com mais de um ano). Este número, esclarece, inclui 26 fêmeas reprodutoras/territoriais, que geraram 60 crias durante a temporada de 2020. Os valores fornecidos pelos censos de produtividade para crias nascidas/fêmeas territoriais, foram, para Portugal de 2,3, enquanto os resultados médios para Espanha foram de 1,7.

 

MORTE POR ATROPELAMENTO E DECLÍNIO DO COELHO-BRAVO

 

Para Carla Janeiro, colaboradora da Associação de Defesa do Património de Mértola (ADPM) que tem acompanhado a implementação de projetos promovidos pela associação que visam a valorização turística do Vale do Guadiana associada à presença do lince-ibérico, os números de 2020 “são uma grande vitória para a conservação da natureza em Portugal e para o Parque Natural do Vale do Guadiana (PNVG) em particular, local escolhido para a reintrodução do lince-ibérico na natureza dadas as suas condições ambientais”.

 

“É com muita satisfação e orgulho que a ADPM constata, uma vez mais, a importância do PNVG, cuja criação impulsionou, revelando a importância dos valores naturais aqui presentes e que permitem acolher hoje aquele que foi, até há bem pouco tempo, o felino mais ameaçado da Europa”, adianta ao “Diário do Alentejo”.

 

A técnica considera ainda que os dados são o resultado “dos esforços concertados entre as autoridades responsáveis pela conservação da natureza em Portugal e Espanha”, mas, também, “resultado do bom acolhimento” do lince-ibérico “pela população em geral, e especificamente pelos atores locais diretamente envolvidos com a gestão de habitats”. Sem este acolhimento, assegura, “não seria possível chegar a estes resultados”. Carla Janeiro salienta, por isso, “o persistente trabalho de educação e sensibilização ambiental” que a ADPM tem realizado “ao longo dos seus 40 anos de existência”, contribuindo “para [a existência de] cidadãos mais informados e despertos para a importância da biodiversidade e da compatibilização das atividades económicas com a conservação da natureza”.

 

Para a técnica, atualmente, uma das principais ameaças à preservação da espécie “é a morte por atropelamento”, pelo que destaca a importância “de continuar o trabalho de sensibilização das comunidades” para essa questão. “Para além da importância da biodiversidade, é fundamental que as populações locais entendam que a presença de espécies emblemáticas como o lince-ibérico constitui um atrativo para o turismo de natureza, e com ele uma diversidade de oportunidades compatíveis com a conservação do património natural do Vale do Guadiana”, justifica. E conclui dizendo que a articulação entre os organismos governamentais que tutelam a conservação da natureza e os atores locais “é, pois, um fator chave para o sucesso da preservação do lince-ibérico”.

 

Eduardo Santos, coordenador do Programa Lince, da Liga para a Proteção da Natureza (LPN), diz, por sua vez, que os dados do Censo de Lince-ibérico 2020 “são um excelente resultado, tanto a nível ibérico, ultrapassando já os 1000 indivíduos, como a nível de Portugal e do Vale do Guadiana”. E adianta que é um resultado “promissor em termos da expectativa para a recuperação da espécie e para a consolidação da sua conservação, até porque aponta já para um número considerável de núcleos populacionais”.

 

O responsável acrescenta que, por um lado, “é um sinal de sucesso do processo de reintrodução e do trabalho de todas as equipas envolvidas, desde a reprodução em cativeiro e a preparação dos animais para a libertação até à reintrodução propriamente dita, à libertação e ao seguimento dos animais na natureza”. Por outro, este resultado “também só é possível, provavelmente, devido às boas condições para o lince-ibérico dos locais que têm acolhido as diferentes reintroduções, no caso português, as boas condições existentes no Vale do Guadiana”. Condições que, destaca, “serão fruto da boa gestão que existe no território por parte dos agentes locais – proprietários, caçadores, agricultores, entre outros”. “Será, no fundo, o resultado da boa aceitação que este processo tem tido a nível local e do trabalho por parte desses agentes locais, que tem sido, é, e será sempre fundamental para o sucesso de um processo deste género”, diz.

 

Eduardo Santos considera, no entanto, que há que reconhecer que “os esforços de conservação no terreno ainda não são totalmente suficientes, ou ficaram, em alguns aspetos, aquém do que se gostaria”. E dá como exemplos a questão da prevenção da mortalidade da espécie nas estradas, “não só nos locais onde já morreram linces, mas noutros onde sabemos que, quando a espécie se começar a expandir, poderão vir a morrer”, e o declínio das populações de coelho-bravo, base da sua dieta alimentar, “outro dos grandes fatores condicionantes” de recuperação do lince. “São dois aspetos muito preocupantes”, reforça, adiantando que, “provavelmente, neste momento, são aqueles que deveriam receber mais investimento”.

 

A finalizar, defende que são necessários “mais e melhores apoios ao nível das políticas públicas, nomeadamente, da Política Agrícola Comum, do Programa de Desenvolvimento Rural, da própria remuneração dos serviços, de quem gere os territórios, proprietários, agricultores”.

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