Diário do Alentejo

Crónica Jorge Martins: No melhor pano…

30 de abril 2023 - 16:00
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A Ana rima com fidelidade.

 

Ela é dada a hábitos e fiel a rotinas.

 

Ela sabe o que vai comer antes de se sentar na mesa do restaurante. Que pode ser sempre o mesmo. As primeiras vezes não são para ela, mas com jeito deixa-se levar e, se gostar, passa num ápice a fazer parte das suas paragens.

 

A Ana faz planos e wishlists. Come religiosamente as suas passas, que converte em desejos ao som das 12 badaladas que anunciam cada novo ano. A validação de concretização desses intentos também faz parte do plano anual. Bem como o primeiro banho no mar ao primeiro dia de calendário.

 

Ela confirma e reconfirma cada combinação, mesmo que o plano seja mais uma vez igual.

 

Já bem depois dos 30 decidiu que era hora de aprender a nadar. Mais um check na sua lista de objetivos. Levou a sério e mergulhou nesta meta de corpo e alma.

 

A Ana é uma sportinguista acérrima, feita de esperança e com lugar cativo, como não poderia deixar de ser, pois tem sempre de saber para onde vai.

 

Se é sabido que, na sua generalidade, as mulheres demoram algum tempo a preparar-se, ela eleva esta métrica ao expoente máximo. Onde quer que esteja, a sua rotina não cai: seja para ir à praia (de Sesimbra, preferencialmente, do lado esquerdo, rotineiramente), ao cinema, ao ginásio ou para o trabalho.

 

A Ana tem uma aceleração natural que se pode confundir com defeito, pois é possível iniciar uma conversação sem os preliminares convencionados.

 

Não me lembro muitas vezes disso, mas Ana é a alentejana mais alfacinha que eu conheço.

 

A Ana é reservada. De núcleo duro, pequeno e fechado. Entrar é uma sorte, sair é uma raridade. Conheci-a vai para 16 anos, em contexto de trabalho. Amigos seremos há uns 10, talvez. Temos uma história de evolução, profissional e pessoal, que se pauta pela conquista. A conquista da confiança, em que cada uma das partes foi, paulatinamente, abrindo a porta das suas vidas, sabendo e partilhando cada vez mais, mas sempre de forma natural. Nunca me lembro de ter perguntado nada de pessoal à Ana que não soubesse que estava escrito no nosso contrato. O tanto que sei deve-se à tal naturalidade, sendo que esse tanto é infinitamente inferior ao que está por contar.

 

A Ana é de pontos nos “is”. Não dá margem para invasões. Há uns cinco anos, sem que nada fizesse prever, recebi uma mensagem em que anunciava o fim da sua relação com o dobro do tempo. Não estava escrito na mensagem, mas lia-se claramente que o que estava ali em causa era um ponto final. Um ponto final em qualquer conversa que pudesse daí advir. A consideração da partilha aliada à exigência do respeito pelo espaço e tempo dela. E assim foi, sem mais explorações. Não eram merecidas, não foram necessárias.

 

Somos conduzidos por aquilo que – diariamente – chamamos de estupidez natural. Estivemos lá nos melhores e mais cómicos momentos profissionais e naqueles em que, de mãos dadas, não desistimos (e se foram vários, estes!).

 

Há tempos (poucos) recebi uma mensagem para irmos almoçar. Continuamos a trabalhar no mesmo edifício e é prática comum partilharmos a mesa de almoço. Recusei uma primeira vez. E uma segunda. Sempre pela intensidade de trabalho e a falta de tempo. À terceira tentativa o convite passou ao tom de intimação e eu forcei-me a arranjar um espaço que me permitisse estar.

 

Fui. 

 

Encontrámo-nos, como sempre, no sítio de sempre. Um abraço, depois seguimos até ao local do costume.

 

Poucos minutos depois de estarmos sentados a trocar trivialidades e os desabafos do costume, a Ana, no seu jeito de sempre, trouxe à mesa a pior das entradas, a mais pesada das refeições principais e a sobremesa mais amarga de todas, tudo num só momento, tudo condensado numa só frase.

 

Há uns anos, a Ana passou por uma fase em que a sua descrição habitual pouco deixou transparecer sobre o quão dura de ultrapassar foi a tormenta. Mais uma vez, sem questões ou explorações, estivemos. Sempre com uma sensação de impotência mas com a certeza de que ela sabia que podia contar.

 

Do pouco que era sabido sobre o tema, havia apenas a reter que o foco era a sua mãe, o caso era complexo e que teve um final feliz.

 

Foram pois precisos todos estes anos para que a Ana verbalizasse, de forma muito tímida e particular, o que havia sucedido.

 

Aconteceu nesse almoço, quando a Ana partilhou que, prestes a chegar aos seus 40, havia chegado a sua vez de passar por essa odisseia na primeira pessoa.

 

Nesse momento, digo-vos eu, ficamos sem palavras, ou pelo menos sem as certas.

 

Como escrevi atrás, no que concerne à estupidez natural, somos experts na ótica do utilizador. E isso, parecendo que não, ajuda muito nestas questões.

 

Mais uma vez, a Ana já tinha tudo estudado. Da lista (as listas, lá está!) de pessoas com quem iria partilhar de viva voz e respetiva ordem ao plano de ação, tudo estava pensado ao detalhe, como que se de um escape se tratasse para não dar tempo para sentir. Para não sentir novamente o pesadelo agora em causa própria.

 

Mas a expressão pesadelo foi só aqui utilizada por mim. Dela, tudo o que ouvi foram intenções. Tudo o que vi foi foco na resolução. Tudo o que tirei foi energia (positiva).

 

Nestes nossos dias estas situações podem ser encaradas, pelo menos de fora, com maior serenidade e confiança. Mas o medo, de quem está dentro, estará sempre lá.

 

É a atitude com que encaramos as situações que define o peso que elas têm. A luta será sempre entre a razoabilidade, a emoção e a (in)consciência.

 

A Ana é acelerada demais, metódica demais e atenta demais para não ganhar esta luta.

 

Não há outro resultado. Há sim outros, muitos, planos por levar adiante, cuja fase que está a ultrapassar só serve para lhe dar mais sentido e maior propósito.

 

Digo-lhe várias vezes que ela é uma personagem, cheia de caras, de facetas únicas. Ela é uma peça chave nesta passagem e este é só um episódio desta série cheia de temporadas e que terá, com toda a certeza, um final feliz.

 

E eu vou estar deste lado a aguardar o convite para a primeira fila do lançamento do seu livro que já se comprometeu a escrever. E eu sei que vai acontecer…

 

Este não é um texto sobre a Ana.

 

“Não?”, podem questionar desse lado!

 

Não… respondo eu!

 

Não gosto de frases motivacionais de fontes duvidosas, nem sou adepto de life coaching. A vida tem que ser vivida e celebrada dentro daquelas que sejam as nossas possibilidades, dos contextos em que somos inseridos e das ambições de cada um.

 

O que hoje aqui partilho é sobre visões. Sobre prioridades. Sobre foco. Sobre entrega. Sobre obstáculos e sobre superações.

 

Dedicar um mês à causa é louvável, mas importa lembrar que todos os dias contam quando o tema são pessoas… Quando o alvo são amigos.

 

 

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