Diário do Alentejo

“Shave Futebol Clube”, de Beja, disputou a final nacional do Torneio Clube Escolhas

10 de julho 2026 - 08:00
“Saber ser, saber estar…”
Foto | Firmino PaixãoFoto | Firmino Paixão

A final nacional do Torneio Clube Escolhas, em futsal, concluiu-se na última quarta-feira, em Oeiras, com a participação das equipas “Xeque- -Mate” (Gaia), “Quero Ser Mais” (Tortosendo), “Raízes” (Queluz) e o “Shave Futebol Clube”, de Beja. O Programa Escolhas, organizado pelo Instituto Português do Desporto e Juventude, promove a inclusão.

 

Texto Firmino Paixão

 

O Programa Escolhas é um espaço de inclusão, capacitação e desenvolvimento de competências que, na cidade de Beja, tem como entidade promotora o Centro Social, Cultural e Recreativo do Bairro da Esperança, que o dinamiza em comunidades que vivem em contextos de maior fragilidade social. O desporto, nomeadamente, a prática do futsal, é, num universo bastante alargado, uma das ferramentas que o projeto contempla. A competição desenvolve-se em três fases: zonal, regional e nacional. Para as qualificações, além dos resultados desportivos, pontuam também as missões sociais e de solidariedade. Neste ano, a equipa bejense ultrapassou todas essas etapas e esteve, nesta semana, a disputar a final a quatro do torneio, em Oeiras. Saiming Fonta, um dos orientadores do projeto, revelou ao “Diário do Alentejo”: “Há muito tempo que já não íamos a uma final nacional. Quando digo muito tempo, é um ano, mas, para nós, um ano é muito tempo, porque os miúdos estão sempre com grande ansiedade e perguntam quando é que acontecem as finais do Clube Escolhas, porque é um projeto que permite a inclusão, tanto ao nível do género masculino, como feminino”. O técnico revelou: “Ao longo deste ano trabalhámos muito duro. Tínhamos uma grande ambição de atingirmos a final nacional e mais, com a forte convicção de tentarmos, pela primeira vez, conquistar o título nacional, algo que ainda não conseguimos, apesar de já termos duas taças de campeões regionais”. Saiming esclareceu que, nesta edição, o formato foi alterado: “Houve uma espécie de liga e nós acabámos em primeiro lugar, ou seja, fomos campeões regionais, porque vencemos a série, mas, neste novo formato, não se recebe a taça, como acontecia no passado”. A expectativa de bons resultados decorre, afinal, do trabalho que ficou para trás, um ano muito exigente, muito trabalhoso, revelou: “Começámos muito mais cedo. Desde outubro passado que tudo conta para as avaliações, desde as presenças na escola, e nessa parte não fomos assim tão felizes, porque sentimos muita dificuldade, ao nível escolar, com os nossos jovens, mas conseguimos ganhar pontos noutros aspetos”. E justificou, enumerando: “Ganhámos nos jovens que não se encaixavam em certas missões, mas que encontraram aqui também uma forma e um suporte de desenvolverem os seus talentos, aquilo que mais sabem fazer. Abriram-se portas para alguns jovens, até ao nível de estágios profissionais. Já temos jovens nas nossas equipas técnicas a trabalharem connosco, e essa é a maior vitória que podemos ter, porque tudo começou através do Clube Escolhas, com essa vontade de quererem pertencer a alguma coisa, a um grupo mais estruturado”. Por isso, adiantou Saiming: “Com as missões que vamos realizando, dia após dia, pudemos ganhar pontos para nos qualificarmos para o nacional. Graça a Deus que ganhámos quase todos os jogos em campo e também nas missões que realizámos, como ações comunitárias. Tivemos mais dificuldades ao nível dos horários escolares que, neste ano, foram um bocadinho mais apertados, mas, de resto, trabalhámos muito e os jovens, muito merecidamente, conseguiram estar na final nacional para tentarmos o que ainda não conseguimos até ao dia de hoje, que é ganhar o torneio nacional”. Quanto aos jovens eleitos para esse momento tão especial, ou seja, os convocados para a final nacional, Saiming admitiu: “O grupo foi formado por jogadores novos, mas tem uma base que já anda há um ou dois anos neste projeto”. Mas a qualidade dos adversários certamente dificultou a ambição da representação bejense: “Normalmente, esta fase final é sempre a parte mais difícil ao nível desportivo. Apanhamos sempre equipas muitos fortes, com outra disponibilidade que nós, muitas vezes, não temos. Mas, neste ano, tínhamos uma vantagem, porque os miúdos novos cresceram bastante e já estavam ao nível dos outros. Não esperamos facilidades, mas acho que o nosso trabalho foi muito bem feito”.“Saber ser, saber estar”, é esse o lema que está sempre presente nesta equipa: “Exatamente. Mas, neste ano, até mudámos um pouquinho o lema, porque já somos mais do que um clube, somos uma família. O sentimento de pertença é igual, os miúdos olham para nós e olham para todos os outros jovens como uma família que os ajuda a interpretar e a capacitar, com competências pessoais. O lema será sempre esse, nunca fugiremos dessa linha, as competência pessoais, saber ser, saber estar, claro, nunca sairemos daí e, até no momento de elaborarmos a convocatória, ponderámos quem é que merecia ir, quem é que trabalhou bem todas as competências, a empatia que, neste tipo de jogos, é essencial, quer dentro, quer fora do campo – essas competência terão de estar presentes, será assim no futebol como na vida. Nós não estamos aqui só para jogar futsal, estamos também a tentar formar homens e mulheres para o futuro e para que, na comunidade, façam uso das competências que aqui adquiriram”. “O caminho nem sempre é fácil”, admitiu Deolinda Zacarias, coordenadora do Programa Escolhas E9G no Centro Social, Cultural e Recreativo do Bairro da Esperança”, justificando: “Muitas vezes vemo-nos confrontados com algumas dificuldades. Temos muitos objetivos a cumprir. Mas acho que existe aqui algo fundamental, que é o facto de os jovens sentirem o projeto como uma casa, como uma família, e todo o conjunto de atividades que temos desenvolvido ao longo destes cinco anos têm permitido não só conhecê-los, como eles conhecerem-nos. Sabem que podem contar connosco em diferentes contextos da sua vida: pessoal, académica, familiar, porque nós temos aqui irmãos, temos primos e também trabalhamos com alguns pais, e isso tem sido fundamental para o sucesso deste projeto. Temos acreditado neles e eles têm acreditado em nós”.

Comentários