Diário do Alentejo

“Linis”

27 de setembro 2026 - 08:00
Durante os primeiros seis meses do projeto registaram-se 1225 reservas e 1732 passageiros
Foto | Ricardo ZambujoFoto | Ricardo Zambujo

Concebido pela Comunidade Intermunicipal do Baixo Alentejo, o novo projeto de transporte flexível nasceu com o propósito de “aproximar pessoas e lugares”, permitindo “garantir que viver num território de baixa densidade não significa ficar privado de mobilidade”. O “Diário do Alentejo” foi conhecer alguns dos 27 percursos que o “Linis” oferece, de forma gratuita, à população.

 

Texto Ana Filipa Sousa de Sousa

 

São 07:50 horas. Apesar do sol intenso, a brisa que levemente corre àquela hora da manhã não permite, para já, que o dia comece quente. Na praça de táxis de Castro Verde, junto à rotunda principal e à estação rodoviária, espera-se pelos habituais passageiros. Rui Silva, taxista há cerca de um ano e meio, é um dos profissionais da vila que aderiu ao “Linis”, um serviço de transporte flexível que permite, de forma gratuita e mediante marcação prévia, transportar clientes entre paragens e circuitos pré-definidos. Nesta manhã espera por duas passageiras. “Neste caso, o que está a funcionar mais é mesmo este serviço para Mértola e, depois, o serviço para a Funcheira, que agora não está a funcionar tanto, mas durante a época escolar também será muito utilizado”, começa por contar ao “Diário do Alentejo” (“DA”).O projeto-piloto, da responsabilidade da Comunidade Intermunicipal do Baixo Alentejo (Cimbal), assume-se como um complemento à “rede regular de transporte rodoviário”, de modo a “responder de forma mais ajustada às necessidades de mobilidade das populações”, assegurando “ligações em territórios onde a baixa densidade populacional, as grandes distâncias e a pouca procura tornam mais difícil a manutenção de carreiras regulares”.Poucos minutos depois, Teresa Santos chega à paragem. A passageira, de 52 anos, é presença regular, quase diária, no serviço que liga Castro Verde e Mértola, utilizando-o “por motivos profissionais”.Ao “DA”, a professora explica que teve conhecimento do “Linis” através “das redes sociais” e que, depois, “quando soube que havia a possibilidade do transporte ser regular” começou a questionar “mais algumas pessoas que faziam o mesmo trajeto” para “otimizar esta oportunidade”.“Este é o trajeto que uso com mais frequência, no entanto, sei que há outras possibilidades, nomeadamente, a ligação à Funcheira, e parece-me que [o serviço] dá uma resposta à medida das reais necessidades do território”, refere.Rui Silva corrobora esta ideia. Segundo o taxista, há “certos locais em que não existe qualquer transporte público”, como é o caso do Monte do Salto, na localidade de São Marcos da Ataboeira, no concelho de Castro Verde, em que, “se não forem estes transportes, [quem lá vive] não tem como vir à localidade”.“Para além dos trabalhadores [que utilizam o ‘Linis’], o serviço que fazemos entre o Monte do Salto e Castro Verde é, por norma, com duas senhoras mais idosas que vêm às compras ou ao hospital e, depois, para a Funcheira é com o pessoal da escola, com os alunos que estão em Faro ou em Lisboa”, ilustra o motorista de 43 anos.De acordo com os dados disponibilizados ao “DA” pela Cimbal, entre os dias 1 de abril e 11 de setembro o concelho de Castro Verde apresentou quatro trajetos, destacando-se Castro Verde-Estação da Funcheira, com 79 reservas e 107 passageiros, seguindo-se Castro Verde-Mértola (85 e 93), Castro Verde-Monte do Salto (32 e 49) e Castro Verde-Beja (dois em cada item). Para Teresa Santos, o projeto “é uma ótima resposta para estes territórios de baixa densidade”, uma vez que “o fluxo de pessoas é pequeno para um autocarro, mas já se justifica fazê-lo num transporte mais pequeno”, trazendo, ainda, “muitos benefícios quer em termos ambientais, quer em termos financeiros, visto que os combustíveis estão caríssimos”.A cerca de 46 quilómetros, na capital de distrito, o serviço “Linis” também já entrou, um dia mais, em ação. Apesar da existência de pequenas deslocações dentro da cidade e até às localidades de Beringel, Trigaches e São Brissos, é o percurso Beja-aeroporto que tem recebido uma maior atenção por parte dos utilizadores.João Peneque, de 31 anos, é um dos passageiros que nos últimos seis meses tem reservado, juntamente com mais três colegas, o referido percurso. Ao “DA”, o jovem conta que teve conhecimento da iniciativa através da sua empresa, fazendo, desde então, as suas reservas por chamada telefónica.“Foi-nos fornecido um número através do email do trabalho, em que nós, até ao meio dia sensivelmente, temos de ligar para a central e dizermos os dias em que queremos marcar [os transportes] e depois contactam-nos para nos dizerem qual será o taxista que vai fornecer o serviço”, explica. De acordo com o técnico de manutenção de aeronaves, esta “solução” permite, sobretudo, “poupar dinheiro em combustível todos os dias”, assim como diminuir “o desgaste do carro”. “Para mim, este projeto é uma mais-valia, visto que o preço dos combustíveis está muito elevado”, assegura.Para a viagem de hoje, João Peneque tem à sua espera um rosto já conhecido, o do taxista António Carocinho. Nos últimos tempos, segundo o motorista, esta “volta” tem sido aquela que, ao serviço do “Linis”, tem feito com alguma regularidade, ou seja, “duas vezes por mês”, porque “vai rodando por todos”.“Desde que [o projeto] começou só fiz o serviço do aeroporto. Já soube que houve aí um outro para Castro Verde, mas não me calhou. Normalmente, recebo uma chamada, no dia anterior [à marcação], a perguntar se quero fazer tal dia e, se não tiver nada previsto, aceito e venho fazê-lo”, refere António Carocinho.Este trajeto, dos 27 apresentados pela Cimbal, é aquele que, até ao momento, alcançou um maior registo de tráfego, contabilizando 370 reservas e 376 passageiros.

 

Um passo em direção à igualdade de oportunidades

 

Iniciado em abril deste ano, o projeto-piloto assume particular importância por se desenvolver numa região do interior, sendo um instrumento capaz de “garantir que viver num território de baixa densidade não significa ficar privado de mobilidade”.De acordo com o chefe da unidade de serviços técnicos da Cimbal, o “Linis” surge da necessidade de se “garantir mobilidade às populações, mesmo onde não existe procura suficiente para justificar uma carreira regular permanente”, face ao cenário do Baixo Alentejo ter “uma densidade populacional média de apenas 13,5 habitantes por quilómetro quadrado e uma elevada dispersão de pequenos lugares”. “O ‘Linis’ nasce precisamente dessa reflexão, [permitindo] ajustar a oferta à procura real e criando soluções mais adequadas às características de cada município”, afirma Pedro Nuno Pacheco.Ademais, prossegue o responsável, “é também uma ferramenta importante no combate ao isolamento social e territorial, particularmente, num contexto de envelhecimento populacional” e “uma utilização mais eficiente dos recursos públicos”.“O ‘Linis’ não se limita à população sénior. Existem circuitos com utilização significativa por estudantes, nomeadamente, nas ligações à estação ferroviária da Funcheira e nos circuitos de Ourique e Garvão, demonstrando que esta solução pode responder a diferentes públicos e necessidades”, revela.Volvidos seis meses, o balanço “é globalmente positivo”, uma vez que “os primeiros tempos permitiram confirmar que existe procura por soluções de transporte flexível no Baixo Alentejo”.“A procura não é, naturalmente, uniforme em todos os circuitos, o que é expectável num território com características tão diferenciadas, mas permite já identificar padrões importantes”, assume Pedro Nuno Pacheco.A mesma opinião é validada pelos taxistas e utilizadores, apesar de afirmarem que existem “certas coisas que ainda precisam de um toquezinho para se ajeitarem”.“Temos vários colegas a aderir e, assim, consegue-se ir jogando com todos e vai-se rodando os serviços”, admite o motorista Rui Silva.De entre os pontos negativos, os intervenientes destacam a falta de flexibilidade para o agendamento de serviços, visto que a central recebe marcações apenas “da parte da manhã e até à hora de almoço”, impossibilitando a reserva tardia de serviços. “Na minha opinião acho que é uma lacuna grande que existe, [ou seja], os utilizadores só podem fazer a marcação da parte da manhã, e, de tarde, a central não funciona e se nós tivermos algum problema não conseguimos contactar”, dá como exemplo. Por sua vez, António Carocinho, taxista há um ano, assume também que “pensava que ia ter muitos mais serviços” e que a pouca adesão que regista em alguns circuitos, na sua ótica, deve-se à “falta de conhecimento” do mesmo.“Acho que há muito a ser melhorado para que isto funcione verdadeiramente, [tais como] os agendamentos mais fáceis [e] uma maior divulgação do projeto”, refere.Desta forma, o chefe da unidade de serviços técnicos da Cimbal afirma que a entidade “encara com muita atenção os contributos dos operadores e utilizadores, porque a melhoria contínua do serviço depende precisamente da capacidade de ouvir quem está no terreno e quem utiliza o transporte”.Apesar de terem sido “desenvolvidas várias ações de divulgação”, como a criação de uma identidade própria para o serviço, sinalização de paragens, divulgação nos táxis aderentes e nos meios de comunicação regionais e distribuição de flyers em todas as caixas de correio dos 13 municípios do Baixo Alentejo, Pedro Nuno Pacheco admite ser “importante reforçar a comunicação de proximidade”. Até ao momento, o “Linis” conta com 1225 reservas realizadas por 1732 passageiros.Relativamente à possibilidade de, depois da fase piloto, o projeto deixar de ser gratuito e começar a ser cobrado um valor simbólico por deslocação, os taxistas e passageiros afirmam que será uma forma de reforçar o compromisso da utilização.“O serviço é financiado pelo Fundo Ambiental, [sendo] os custos para o beneficiário bastante menor, [mas] a aplicação de um valor simbólico deve ser realizado para haver um compromisso de ambas as partes”, sugere Teresa Santos.

 

Uma realidade distinta

 

A cerca de uma hora e meia de distância de Beja, a estrada sinuosa em direção à fronteira espanhola chega a Barrancos. A mescla de pronúncias, a pacatez da vila raiana e, ao mesmo tempo, a vivacidade das suas gentes deixam antever a particularidade deste território do Baixo Alentejo.Contrariamente aos restantes 12 municípios, em Barrancos o transporte flexível “Linis” está, neste momento, à responsabilidade da câmara municipal local, uma vez que existe apenas um único taxista que “não se mostrou interessado em aderir ao projeto”.À chegada do “DA” o motorista camarário apressa-se a dizer que, com o “fecho das piscinas” e o início das primeiras semanas de aulas, não há marcações previstas para esse dia, porém, “quando a carrinha veio para aqui quase todos os dias havia serviços”.“Não era assim grande coisa, porque temos pouca população, mas havia marcações quase todos os dias [para] ir às piscinas, às compras e até à Amareleja”, conta Domingos Caiadas, de 65 anos, fazendo-se acompanhar pela vice-presidente do município.Segundo Cláudia Costa, o transporte flexível do “Linis” em Barrancos tem a particularidade de ser executado pelos motoristas municipais afetos a esse serviço, que asseguram não só “o circuito urbano” com oito paragens, como também o “circuito à Amareleja”.“Aqui funciona tal como nos outros municípios, ou seja, as pessoas ligam até às 12:00 horas na véspera e asseguram a marcação do transporte que desejam, mas com os nossos motoristas”, refere.Para a vereadora, o transporte flexível é, essencialmente, “uma alternativa à mobilidade dentro da vila”, nomeadamente, de população mais idosa e jovem, porém, assume, ainda, particular relevância ao exercer a ligação com o transporte rodoviário que chega à vila de Amareleja. “O circuito à Amareleja é aquele que achamos que é mais impactante e necessário. Acreditamos que agora este percurso vai ser bastante usado na época letiva por causa dos alunos que vêm de Expresso às sextas-feiras à noite e que regressam aos domingos que, até então, não tinham ligação [até Barrancos] e tinham de ser os próprios familiares a irem buscá-los”, explica.Questionada quanto ao futuro do projeto na vila raiana, a vereadora assume que o mesmo “é para continuar”, perspetivando-se o alargamento de percursos com “mais duas ou três paragens” na sede de concelho e até Serpa.“Quanto à possibilidade de os passageiros passarem a pagar uma pequena taxa de deslocação, acho que no circuito urbano, sendo em horário laboral, teremos de equacionar se sim ou se não, mas no circuito para a Amareleja, que é em pós-laboral, creio que faz todo o sentido. Ainda assim, não foi nada analisado pelo executivo”, assevera Cláudia Costa.Os dados demonstram que o trajeto urbano recebeu 195 reservas e 271 passageiros, enquanto o circuito até à Amareleja realizou oito reservas para 12 passageiros. Para o responsável da Cimbal, o exemplo de Barrancos “demonstra uma das principais características do transporte flexível”, isto é, “a capacidade de adaptação às especificidades de cada território”, assegurando-se que “não existe uma solução única que possa ser aplicada de forma indiferenciada em todos os municípios”.Assim sendo, Pedro Nuno Pacheco conclui que “o projeto encontra-se ainda numa fase-piloto”, porém “os primeiros indicadores são encorajadores e reforçam a convicção de que o transporte flexível poderá assumir um papel cada vez mais importante nas políticas de mobilidade do interior do País”.

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