Diário do Alentejo

Giacometti: 50 anos sobre o início das gravações de “Povo que Canta”

13 de março 2020 - 20:20

Quando passam 50 anos sobre o início das gravações de “Povo que Canta”, recordamos a ligação do musicólogo corso a Peroguarda, a aldeia alentejana em cujo cemitério se encontra enterrado. Michel-Marie Giacometti nasceu a 8 de janeiro de 1929, em Ajaccio, na Córsega. Em 1959, com 30 anos de idade, escolhe Portugal para recuperar de uma tuberculose e por cá cirandou durante 31 anos, coletando histórias, sons, poesias, mezinhas, cantigas, tradições. Por cá cirandou 31 anos a registar e a perpetuar a identidade de um povo.


Texto: Luís Miguel Ricardo
Fotografia: António Cunha/Arquivo
Ilustração: Paulo Monteiro


Peroguarda. Foi por aqui, neste recanto de sul, neste pedaço de casas caiadas e atarracadas cravado no coração da planície, que Michel Giacometti se fez íntimo das modas alentejanas e das pessoas que as cantavam com a alma toda. Foi por aqui que Michel Giacometti semeou simplicidade e bondade e recolheu amizade e admiração. De visita à aldeia, percebe-se que Michel Giacometti permanece neste lugar, percebe-se que vive nas memórias de quem privou com ele, percebe-se que está presente nas gerações mais novas, percebe-se que marcou para sempre o destino cultural desta terra e destas pessoas. De visita à aldeia, entramos no cemitério e procuramos-lhe a última morada. Uma campa rasa, com uma pedra granítica por cima e uma frase na cabeceira, sem autor identificado: “Sua alma era grande como a planície, bonita como as papoilas, boa e pura como a terra e rica como o trigo”. De visita à aldeia, procuramos a principal âncora de Michel Giacometti em Peroguarda. E essa procura leva- -nos até à rua do Lobo, até à casa onde vive o casal Virgínia Dias e Agostinho Pereira. E é na companhia destes amigos do “senhor Michel” que nos deixamos embalar pelas palavras atafulhadas de emoção, as palavras que nos fazem recuar até ao início dessa amizade, as palavras que nos ajudam a entender o motivo dessa ligação, não de sempre mas para sempre, de Giacometti ao povo de Peroguarda.


1955


Decorria o ano de 1955, quando o Grupo Coral Professor Joaquim Roque, também designado por Grupo Coral da Casa do Povo da Peroguarda, foi atuar ao Porto. As vozes ímpares do cante alentejano, cantado à capela, seduziram o público e inebriaram três almas mais recetivas à aventura da descoberta, à aventura da exploração cultural: Luís Ferreira Alves, Alexandre Alves Costa e o cineasta e poeta António Reis. O espírito de aventura foi de tal ordem acicatado, que quando o grupo encetou a viagem de regresso a Peroguarda, numa camioneta “da carreira”, António Reis e Alexandre Alves Costa, escarranchados na lambreta do primeiro, puseram- se a seguir-lhe o rasto até ao fim do trajeto, desembocando na pequena aldeia alentejana. Quando as vozes do cante se apearam junto da Casa do Povo, guiaram os forasteiros até um lugar na aldeia onde havia comes, bebes e guarida para pernoitar. Guiaram os forasteiros até à taberna da “Ti” Vitorina, local onde logo nessa noite houve cantoria pela madrugada adentro. No dia seguinte, os homens oriundos do Porto foram conhecer a aldeia e as pessoas que lá moravam, e depois foram conhecer os campos que abraçavam a povoação e os ranchos de camponeses e camponesas que amainavam a terra e as culturas embalados pelas modas. Quando regressaram ao norte levaram a alma cheia de vozes e hospitalidade. E quiseram regressar. E regressaram várias vezes. E em cada regresso traziam mais e mais gente ao encontro do cante, das pessoas e da cultura deste pedaço de Alentejo.

 


ANOS 60


No início dos anos 60, o Alexandre Alves Costa, com tantos regressos à planície, já era um entendido e um amante das vozes polifónicas do cante alentejano. E era também pessoa próxima de Michel Giacometti, a viver no norte de Portugal desde 1959. Quando soube do interesse do amigo francês pela cultura popular do povo português e pelas vozes que cantavam esse património tradicional, desafiou- -o a vir até Peroguarda, porque aqui iria encontrar “uma forma de cantar fora do vulgar”. Estava um certo dia Virgínia Dias a passar junto à taberna da “Ti” Vitorina, quando ouviu alguém, lá de dentro, dizer: “Olhe, a Virgínia vai aí. Vai aí a mulher dele.” E depois chamaram- na. Já no interior da taberna, explicaram- lhe que estava ali um senhor que vinha indicado à sua casa, que vinha indicado à casa do Agostinho e da Virgínia. E o senhor era o Michel Giacometti. “Parece que o estou a ver. Não sei porque é que ele gostou sempre daquela barbinha, porque eu não gostava, não achava que lhe ficava lá muito bem. E lá estava ele com a barbinha. Tinha saído de uma tuberculose, muito mal-encarado, com um chapéu de palha na cabeça e trazia um gravador. E até vinha com ele uma brasileira, uma menina muito bonita”. Era verão e o Agostinho tinha ido à horta, regar o melão. Mas nas terras pequenas as novidades correm rápido, alguém lhe fez saber o que se estava a passar e ele veio ao encontro da visita desconhecida. Como na taberna não havia muita privacidade, levaram-no para casa. Uma garrafa de vinho e umas quantas vozes das que mais afinavam, e por lá bebericaram, prosaram e cantarolaram o que lhes iam na alma. E foi assim que começou a crescer a amizade entre o “senhor Michel”, o casal a quem vinha “indicado” e a aldeia de Peroguarda. A partir daquele dia, tal como acontecera com os portuenses aventureiros, a planície passou a ser ponto de regresso habitual para o amigo francês.

 

CANTE AO MENINO


Numa das suas vindas, e durante as sessões de cantoria que se realizavam na casa do casal amigo, porque na taberna havia muito barulho e as modas não explanavam toda a sua beleza, o “Ti” Caranova, outra das pessoas que privava de perto com o “senhor Michel”, falou de uma moda ao Menino que em tempos havia sido entoada em Peroguarda. Uma moda muito antiga. Cantarolou o fragmento que conhecia, mas fez saber que existiam duas mulheres da aldeia, que se tinham mudado para São Domingo de Rana, próximo de Lisboa, que sabiam a cantiga completa. O interesse de Giacometti foi tal que conseguiu juntar em Peroguarda as duas senhoras, mais o maestro e compositor Fernando Lopes-Graça, com o objetivo de gravar o referenciado Cante ao Menino. Decorria o mês de julho e o cenário para a gravação da cantiga foi a casa dos amigos Agostinho e Virgínia. Sucede que nas traseiras da habitação contígua havia um galinheiro, e no galinheiro havia um galo à procura de protagonismo. Quando as vozes começavam a entoar a moda ao Menino e a fita magnética iniciava a eternização da cantiga, o galo fazia-se notar. E a gravação era interrompida com agrura. A cada recomeço, o galináceo insistia em fazer-se presente, comprometendo as sucessivas tentativas de registo sonoro. Foi perante o desespero dos envolvidos na odisseia da gravação que a proprietária da casa, que seguia o acontecimento à distância, decidiu intervir: “Senhor Michel e senhor Lopes-Graça! Então vocês não estão gravando uma canção de Natal?” – Responderamlhe que sim, sem entenderem a dimensão da pergunta. “Então e o galo não cantava à meia-noite!?” Foi assim, com essa tirada perspicaz e oportuna da amiga Virgínia Dias, que o Cante ao Menino, na versão da Peroguarda, foi eternizado em fita magnética com o cacarejar do galo da capoeira adicionado às vozes das mulheres que tinham viajado de São Domingos de Rana. Esta gravação ficou registada num dos produtos mais conhecidos de Michel Giacometti, a célebre coleção de serapilheira, um conjunto de discos que agrega várias sonoridades do meio rural português.

 


VÉSPERAS DA REVOLUÇÃO.


Em vésperas de se dar a Revolução de Abril, Giacometti, homem com ligações muito próximas ao Partido Comunista Português, na clandestinidade, passou pela casa dos amigos para se despedir. Estava de partida. Supõe Virgínia Dias que tinha intenção de ir para a Argélia. Entretanto, acontecem as mudanças emergentes da nova configuração política do País e o senhor Agostinho, presidente da Junta de Freguesia, foi renomeado para o cargo pelo Partido Socialista. Depois de muito tempo ausente, o amigo francês escreveu ao casal de Peroguarda a avisar que ia regressar à aldeia para gravar o Grupo Coral da Casa do Povo, que por essa altura era ensaiado pelo padre Alcobia, um defensor do cante e um opositor aos ideais comunistas. Em maio do ano de 1990, Giacometti voltou à terra do cante. Vinha acompanhado pelo jornalista Adelino Gomes e por um fotógrafo do jornal “Público”. Quando Virgínia Dias lhe pôs as vistas em cima ficou perplexa com a sua estampa: “Meu deus! Valha-me deus! Ele está tão mal encarado. Mas nunca pensei que fosse a doença má que o derrubou, alguns meses depois, o cancro.” O grupo perfilou- se junto da escola e as gravações evoluíram na rua, atraindo a curiosidade da população que acorreu ao local em grande número. Pessoas a conversar, moçada a pular e a gritar e as vozes do cante a tentarem encaminhar a cantoria pelo trilho da harmonia. Consta que o “amigo francês” ficou arreliado com o desacerto das modas, e foi arreliado que acompanhou o grupo até ao café Central. Mas lá, longe da confusão da rua, as vozes entoaram o verdadeiro cantar, e Giacometti recuperou o ânimo dizendo para o Adelino Gomes: “Agora é que está a acontecer o verdadeiro cante alentejano”. Quando se fez tarde, o acolhimento para o jantar, ao contrário do sugerido pelo ensaiador do grupo, não aconteceu na desconsideração da taberna, mas no aconchego dos amigos. E foi na casa de Virgínia e Agostinho que a cantaria afinada teve continuidade, acompanhada de um banquete feito de propósito para a ocasião. Consta que, por essa altura, Michel Giacometti quase não se alimentava, mas naquela noite, embalado pelas modas e pela amizade, comeu de tudo e com vontade. E foi já no final do repasto, que isolou o casal anfitrião e o “Ti” Caranova dos restantes convivas. Abraçando-os aos três, revelou-lhes: “Eu ainda venho morar para junto dos meus amigos”. Virgínia Dias diz que ficou “toda contente” e até lhe franqueou uma habitação que acabara de herdar do sogro, à qual só faltava uma casa de banho. Num serão de emoções e de revelações, Agostinho Pereira fez saber ao amigo francês que a esposa escrevia poesia. Na hora, exigiu uma poesia para aquando do seu regresso, uma poesia que desse expressão aos sentimentos da poetisa.

 

“VENHO MORAR PARA PEROGUARDA”

 

Um dia, Michel Giacometti telefonou a dizer que ir passar pela aldeia. Chegou acompanhado por uma senhora que trabalhava no Museu de Beja, e veio para alimentar a amizade e reclamar a poesia encomendada. Estava pronta, mas a acompanhante embriagou-se nas palavras da poetisa camponesa, e Giacometti abdicou dela, comprometendo a autora com uma nova criação poética. Nesse dia voltou a lembrar: “Virgínia, eu ainda venho morar para Peroguarda.” A amiga reforçava a alegria da hipótese aventada, e fazia sentir a preocupação pela ausência da casa de banho no edifício, ao que Michel Giacometti respondeu com a serenidade das pessoas esclarecidas: “Eu venho de qualquer forma”. Foi a última vez que visitou ou amigos de Peroguarda.

 

 

 

FUNERAL

 

O musicólogo morreu no hospital de Faro no dia 24 de novembro de 1990, mas deixou uma carta escrita a revelar os seus quereres. A revelar que queria ser enterrado em Peroguarda. A revelar que não queria ser velado na igreja. A revelar que não queria que o seu funeral tivesse a presença de um padre. A revelar que queria que o seu corpo descesse à terra ao som da moda “Solidão, ai dão, ai dão”. E no dia do enterro, em pleno cemitério da aldeia, as pessoas da terra, que por essa altura ainda andavam desavindas por causa das ressacas políticas do pós 25 de Abril, uniram-se em redor do homem grande que estava ali por vontade própria e fizeram silêncio. Um silêncio sepulcral que se estendeu às crianças. Depois o Grupo Coral fez-lhe a vontade declarada, e com os olhos rasos de emoção entoou a moda pedida: “Ai solidão, ai dão, ai dão/ cá pra mim quer sim, quer não/ vem a morte, leva a gente”. A concluir a viagem ao universo do amigo francês de Peroguarda, perguntámos sobre a frase, sem autor identificado, que está gravada no túmulo. E viajámos de novo, viajámos até Coimbra, viajámos até à década de 90, viajámos até a um colóquio que aconteceu na cidade do Mondego em homenagem a Michel Giacometti. Um colóquio onde foi atuar o grupo Alma Alentejana. Um colóquio onde discursaram intelectuais da área. Um colóquio onde um orador indignou o âmago da amiga Virgínia Dias pela forma desapegada, injusta e até insultuosa como falou dos camponeses do Alentejo e do trabalho de Michel Giacometti, que para ela era um trabalho desenvolvido com dedicação, paixão, gratidão e respeito pelas pessoas: “Ele veio às nossas raízes, desviou- lhe a terra, viu tudo o que lá estava, tirou para ele o que lhe fazia falta e depois aconchegou e apertou a terra para que nada se perdesse e tudo viesse ao de cima. Tal como nós, as mondadeiras, fazíamos ao trigo”. Quando o padre Alcobia, pároco de Ferreira do Alentejo, fez saber que existia na plateia um casal que recebia Michel Giacometti em casa e que poderia dar o testemunho desses momentos, quando a amiga Virgínia tomou a palavra, ainda sentida pelo discurso do orador hostil, a prosa, guiada pela emoção, saiu-lhe de supetão: “Eu tive a sorte e a honra de conhecer o senhor Michel Giacometti. Para mim foi a pessoa mais humana que conheci. A sua alma era grande como a planície, bonita como as papoilas, boa e pura como a terra e rica como o trigo”. Quando terminou, as pessoas bateram palmas e o colóquio acabou.

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