Diário do Alentejo

“Tenho um gosto sentido e genuíno pelo fado"

24 de novembro 2019 - 22:00

Vencedora do Grande Prémio de Fado da RTP, a bejense Daniela Helena vai atuar, pela primeira vez, no Pax Júlia, num concerto marcado para o próximo dia 28. Será a ocasião de apresentar o seu primeiro CD, produzido por Valter Rolo 

 

Texto Luís Godinho

 

 

Como surgiu essa paixão pelo fado?

Inicie a minha formação musical no Conservatório Regional do Baixo Alentejo onde estive durante seis anos a receber aulas de canto e piano. O meu Interesse pelo fado surgiu no final do ano de 2014, tinha na altura com 15 anos, quando pela primeira vez assisti a uma noite de fados na Sociedade Filarmónica Capricho Bejense.  A partir desse ano comecei a ter ensaios e a fazer pequenas apresentações em público e o gosto por cantar fado crescendo até aos dias de hoje. E hoje faço-o com enorme sentimento e vontade.

 

Na escola também cantava fado? 

Não. Apesar da maior parte dos meus colegas não apreciarem este estilo musical o feedback que hoje me passam é bastante positivo e apoiam. Por exemplo, este single que apresentei o “Meu amor me prometeu” e que foi divulgado há uns dias é cantarolado por eles e isso deixa-me feliz, porque sei que o fado não é o género musical que mais apreciam mas gostam da sonoridade e isso é muito bom, sinto que estou a fazer acontecer algo de especial.

 

O que a levou a concorrer ao Grande Prémio da RTP e o que significou, para si, a vitória nesse concurso?

O meu gosto pelo fado é genuíno e sentido. E quem gosta assim de fado, e canta fado, tem naturalmente o desejo de ver reconhecidas as suas qualidades e o seu canto. E fazê-lo na televisão onde a visibilidade é grande e prestigiosa torna a participação no concurso ainda mais especial. Sinceramente, desde o inicio que pensei que poderia ir longe mas nunca pensei que pudesse vencer porque vencer um concurso desta dimensão depende de muitos factores. É claro que fiquei felicíssima por vencer e ver reconhecidos o meu esforço e dedicação ao fado. É uma etapa importante na minha vida e que terá sempre um peso decisivo na minha carreira que agora está a começar com um projecto sólido.

 

Quais são as suas principais referências musicais?

As minhas principais referências são Beatriz da Conceição, Lucilia do Carmo, Lenita Gentil, Fernando Maurício e Cidália Moreira, pois são fadistas com quem me identifico pelos seus repertórios e intensidade nos temas que interpretam. Sou fã do fado tradicional e daquilo que é refletido na matriz do fado. É evidente que isso não me limita para criar ou cantar outras abordagens, que também acontecem no CD que agora apresento, porque isso faz parte de uma realidade que não se pode negar.

 

Peço-lhe que nos apresente este seu primeiro álbum.  

Este álbum é uma consequência do Grande Prémio do Fado da RTP, que apoiou a sua gravação e à qual demos continuidade construindo um projecto pensado com cuidado, embora de forma rápida. Em dois ou três meses ficou pronto. É o reflexo da minha visão do fado, dos temas e dos géneros que aprecio e que desejo que sejam identificados comigo. Tive a sorte e o privilégio de poder gravar o meu primeiro CD  com algumas letras e músicas criadas propositadamente para mim, músicos muito especiais como o Ângelo Freire na guitarra portuguesa, o Pedro Soares na viola de fado, o Marino de Freitas no baixo, o André Silva nas percussões, os arranjos e direção de quarteto de cordas do Lino Guerreiro e a direção musical do Valter Rolo. Poder começa assim, com a orientação do Valter e a participação de músicos de excelência era algo inimaginável há seis meses. Estou-lhes muito agradecida por tanto que fizeram para este CD e para se mostrarem disponíveis para me acompanhar no concerto de apresentação do CD no dia 28 de novembro.

 

O que destaca da sua carreira?

Embora esteja no inicio, a minha dedicação tem sido total ao fado, gosto de lhe dar voz e de cantar, de mostrar como canto. Faço questão de cantar fado sempre que possível e em toda a parte. Tenho atuado nas mais importantes e prestigiadas casa de fado de Lisboa e participei por duas vezes no Festival Santa Casa Alfama, o maior evento de fado, com concertos meus. A par disso, e de muitas atuações, venci como já falámos o Grande Prémio do Fado transmitido pela RTP1, fui Voz Revelação da Rádio Amália e participei na Grande Noite do Fado em 2018 representando o Centro Cultural Dr. Magalhães de Lima de Alfama e, em 2019, o Grupo Desportivo da Mouraria.

 

Quais as expectativas para o concerto em Beja?

Sinto uma enorme alegria por poder apresentar o primeiro CD na minha terra e no Pax Julia. O Pax Julia é a sala mais importante do sul do país e poder atuar na primeira edição do Festival das Marias é um privilégio. Também é uma responsabilidade muito grande para quem está a dar os primeiros passos e a construir uma carreira. Como já disse, tenho a sorte de estar acompanhada pelos músicos mais prestigiados na área do fado e de ter neste momento a sala praticamente cheia, o que é um orgulho e motivo de muita confiança. Há sempre nervosismo até sair do palco, no fim é que os nervos passam. Tenho a consciência que é um momento importante e que marcará o que está para vir.

 

Quais as suas ambições no mundo da música?

Desejo cantar o fado em toda a parte, levar o meu fado e a minha voz ao maior número de sítios possível, ter muitos concertos e chegar às pessoas pela forma como canto. Ficarei feliz sempre que alguém se reconhecer naquilo que canto.  Dizer que cantamos para o público parece um lugar comum, mas é verdadeiro. Quem canta com gosto canta em primeiro lugar para si e para o seu ego, mas só faz sentido cantar quando os outros ouvem cantar, essa relação é importante para um artista e o que mais quero é ter público, é isso que fará de mim fadista.

Comentários